Um mar de pensamentos verdes…

Desde Kant a maturidade é discutida pelo mar de cabeças afoitas por saber como nosso espécime se desenvolve. Nada se definiu, não obstante muito se criou com base em uma interpretação das declarações desse filósofo: ser maduro é ser autônomo. Por exemplo, a famosa Síndrome de Peter Pan. Tal síndrome demonstra a imaturidade de uma geração cuja independência se adquire após os 30 anos. Contudo, o objetivo deste texto é ilustrar como tal raciocínio é equivocado.

12239928_835195619933415_6177982220160042545_n
Nada definiu.

 

Caiu-se ao abismo do entendimento comum que essa Síndrome é representada apenas pelo adulto cuja idade avançada pressuporia independência, porém ele ainda vive com os pais. Equívoco. Aquele impertinente do facebook, do instagram o qual posta várias selfies sem sentido e até constrangedoras, impondo, portanto, aos olhos alheios uma imagem no mínimo repulsiva, é um peter pan. O menino que nunca cresce se estagnou na idade da formação do Ego, tempo esse em que a criança não tem sentido de mundo interior e exterior, em outras palavras, ela acha que o mundo inteiro é ela assim como é dela. Assim sendo, esse adulto garoto crê ser o mundo ele próprio, logo, porque não postar o que bem desejar, já que tudo é ele, inclusive aqueles olhos alheios. Identificou alguém entre seus amigos virtuais? Posso asseverar a possibilidade de esse ser energúmeno não morar com os pais, pode, inclusive, dispor de um emprego razoável, consequentemente, de uma renda satisfatória. Quem sabe até o considere uma pessoa madura. Todavia, é certo a viabilidade de encontrar alhures uma mulher ou homem maduros não só em idade cuja dependência de algum familiar lhe é pesarosa. Obviamente este último não possui um comportamento reprovável nas redes sociais. Apesar disso, o oceano comum acredita piamente que dos dois o segundo possui a Síndrome citada só pelo fato dele não apresentar em seus bens uma casa enquanto o primeiro, por ter uma moradia própria, não contém nenhuma característica do garoto que não cresce. Para deixar claro, aviso que não é objetivo desse texto discorrer sobre psicologia, logo a Síndrome de Peter Pan exprime uma complexidade maior que a aqui apresentada, porém já é informação necessária para sairmos do senso comum.

12208388_835194243266886_2437551725096806858_n
O oceano comum acredita piamente que…

Cai-me à memória, passando a outro assunto, um evento intrigante. Nas minhas deambulações observo uma mulher, provavelmente mãe, e uma menina de aparentemente 7 anos. Ambas prestes a atravessar a rua quando a criança para, Por que parou menina? Vamos logo, ouço com dificuldade, Mas o sinal está verde e é pros carros passarem, responde a pequenina. Com uma resposta brusca, Não está vindo carro nenhum, vamos logo menina, entrementes à fala, um movimento abrupto no qual a mão da mãe agarra o braço da criança e a puxa. Depois do ocorrido, martelou-me a mente um questionamento: quem foi a mais matura? A pequena que estava a seguir as regras de trânsito ou a adulta que estava a burlá-las? Kant pode esclarecer essa questão. Para ele a maturidade advém do esclarecimento, ou seja, quando faço uso do meu entendimento sem necessitar de um tutor, logo, sou autônomo, possuo minhas próprias ideias e princípios a partir dos ensinamentos recebidos outrora e buscados por mim mesmo quando atinjo a maioridade. No caso da menina, o tutor ensinaria que os carros passam quando o sinaleiro apresenta a cor verde, logo, a autonomia seria ter uma opinião formada sobre o que fazer quando o sinal apresenta essa cor, por conseguinte, fazer uso próprio dessa informação buscando um comportamento apropriado por si mesmo, sem auxílio externo. Tendo isso em mente, é possível deduzir que a menina é madura, ao menos nesse aspecto. Pode-se pensar que a mãe também apresenta tal maturidade, afinal, assim como a criança, ela também apresenta uma opinião formada sobre tal regra. Contudo, tal atitude é um reflexo, uma cópia da atitude de qualquer indivíduo, portanto, não pode ser denominada como autonomia, já que tal palavra tem origem grega – autos significa próprio, nomia vem de nomos que pode designar normas- e representa aquele que possui norma própria. Para Kant, a diferença entre o maduro e o imaturo é justamente que aquele apresenta seus próprios caminhos, sua própria opinião e conduta, enquanto este não tem tal capacidade, pois copia o comportamento do oceano previsível. Constata-se por meio desse evento, então, que a menina era mais madura que a própria mãe.

12196073_835194206600223_1642708175639486300_n
Copia o comportamento do oceano previsível

Dito isso, pode-se deduzir que a economia influencia como pensamos a maturidade. Por primeiro, o adulto só é maduro quando tem um emprego que lhe forneça renda suficiente para comprar uma casa e ser independente. Por segundo, seguindo a mesma lógica apresentada anteriormente, uma criança não pode ser madura, afinal, depende financeiramente de alguém (assim como o adulto que mora com algum parente). Além disso, entende-se a frase “ser maduro é ser autônomo” como aquele que é independente economicamente. Percebe-se, a luz de Kant, a falha de tal raciocínio sobre a maturidade. Portanto, não dependam de um tutor, colham a informação recebida, ponderem sobre ela, busquem outras fontes sobre o assunto em questão, formem opinião própria e, o mais importante, fujam da conclusão massificada, pressurizada que lhes entregam. 

12240118_835194146600229_3461535643212130313_n
Fuja do oceano previsível. 
Autor: Jope Leão Lobo.

Um comentário sobre “Um mar de pensamentos verdes…

Deixar mensagem para Anônimo Cancelar resposta