Caso soubéssemos a última vez em que veríamos alguém, ou mesmo compartilharíamos um momento com certa pessoa, num dado lugar, como seria? Provavelmente diferente, quiçá, mais intenso, por valer de todos os clichês para apreciarmos o presente, corroborados com cada lugar comum sobre aproveitar os momentos como se fossem o último. Saberíamos, de certo, da singularidade do presente, motivando-nos distintamente. Contudo, esse saber ao qual me refiro é empírico e não meramente informativo, afinal, é quase impossível não receber um ou muitos conselhos dessa estirpe. Sendo somente quando experienciamos algo desse tipo que entendemos sua profundidade.
Certo dia fui ao Centro Cultural Tomodachi, aqui em Curitiba. Lugar no qual fiz diversos amigos, iniciei estudos na língua japonesa, pratiquei desenho de estilo Manga (quadrinhos japoneses, em resumo) e contemplei várias experiências pela primeira vez, direta ou indiretamente. Durante a visita, além dos corriqueiros abraços e beijos distribuídos, num abrasileiramento de cumprimentos, resolvi “dar um pulinho” à sala de aula, onde aprendia a desenhar. Adentrando o cômodo senti o passado jorrar sobre mim, como torrente, desaguando lembranças, nostalgia e risos esquecidos. Dentro da salinha, ocupada por uma mesa retangular e algumas estantes, cheias de Shōnen Jump, Shōnen Magazine e Coro Coro Comic, pude “voltar no tempo” e resgatar momentos. Fora nesta sala que a paciente e incansável professora Simonia tentava orientar nossos traços e insistia em me lembrar para não fazer trincheiras no papel. Ali, ríamos alto, discutíamos gastronomia, ciência e cultura, questionávamos as obras dos diretores de cinema, trazíamos amigos, copiávamos modelos e tentávamos criar personagens. Eu criei laços dentro daquela sala, bem como ri, dormi durante aulas, guardei explicações, dividi conselhos e vivi uma imensidão de ensejos.

Ao olhar o vazio na sala contemplada pelo sol poente, cujos raios emolduravam os móveis em dourado, o próprio mundo verteu silêncio, e senti-me desolado. Naquele instante tão singular eu entendi: nunca mais nos reuniríamos. Embora ainda tivesse o contato de todos, a excêntrica turma de Manga I, aquela que quase não conversava sobre Manga, jamais se reuniria novamente. Aquela com um conversador, um dorminhoco, uma tímida, um empolgado… Neste momento pensei “Quando foi a última aula?” e “Como foi a última aula?”. Eu deveria ter dado uma despedida mais calorosa. Abraçá-los como nunca o fiz. O pensamento mostrou-se sofrível, tais quais as únicas certezas cabíveis ao homem: o sofrimento e a morte. Não pude abandonar a sala sem meu mais melancólico sorriso e uma tímida lágrima, o primeiro pelo passado inesquecível e a segunda pelo futuro que não teria a oportunidade de ter conosco. Ao virar as costas, carreguei o que pude daquelas alegrias outrora vívidas.

Certamente esse assunto já foi, quase exaustivamente, abordado por diversos escritores, artistas e filósofos. Contudo, não me recordo, de uma vez sequer, ser avisado sobre o quão encadeadas são essas despedidas finais, das quais não podemos escapar. Conforme o tempo passa deixamos de ver, conviver, conversar e partilhar momentos que, e com quem, gostamos. Deveras compreendemos a infalibilidade da morte, pois tal alerta habita nossa biologia, mas isso é mais assolador. Sem embargo, a noção de que, embora estejamos vivos, sobrecarregados com possibilidades, não poderemos mais viver tais momentos, é surreal. Somente quando tal noção torna-se contundente é que notamos a relevância de muitas situações. Abraçamo-nos com desolamento voraz e cálida esperança. É inexequível tentar manter, até a senescência mortal, todas as situações vivíveis. Todavia, podemos enxergar meios de aproveitar cada oportunidade escondida à vaidade juvenil de controlar a vida. Neste repousa aquela esperança.
Assim, questionamo-nos de quantas vezes pudemos afirmar, convictos, um “até logo”, sem saber que sentenciávamos um derradeiro “adeus”? Não há como saber quando será a última festa com aquele melhor amigo, que nos faz rir tanto. Outrossim, o momento do último abraço naquela amiga querida, encorajadora e cheia de inspiração. Igualmente, o café em grupo, permitindo sorver afeto quente, amargo e acolhedor; a festa de comemoração, cheia de imprevistos, brindes e discursos inflamados; o jantar que reuniu corações, aconchegou confissões e satisfez fome e sede e alma. Ainda, a última brincadeira com seu gato, antes dele envelhecer desejoso de seu tempo livre. Não obstante estão os últimas telefonemas, cartas, declarações, loucuras, brincadeiras, RPG, risadas em grupo, fotos com a galera… A lista não se esgota. As chances sim. E há outras situações enumeráveis, advindas de possibilidades lábeis. Sabe? Naquele dia que você deixou de falar que tinha gostado muito da comida da sua mãe, antes de se mudar e nunca mais ter uma chance igual. Ou ainda, aquela tarde, na qual você deixou de falar um “é, você é bonito” ou “então, eu gostei de você” ou “quer sair comigo?”. Coisas assim, tão fáceis, encantadoras e leves, que passarão.

Destarte, não vejo necessidade em vivermos condutas mumificadas, sem declarar o que queremos ou buscar o que nos faz bem. A ideia assustadora de que nunca mais veremos pessoas do dia a dia, sejam elas quem forem, deveria ser estímulo para ir além, entoar desejos, fascinar sorrisos, conquistar as despedidas em sua completude. Para cirandarmos todas as cirandas, compreender a fragilidade das pedras preciosas, ladrilhar histórias, conhecer anjos em bosques… Viver irredutivelmente! À vista disso, quando nos despedíssemos, sem resquícios ou remorsos, partiríamos num definitivo adeus.

Lindo *-*
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Ótimo texto. Péssimas lembranças… mas é vida que segue.
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