Quando foi a última vez que analisou sua ansiedade? Eu toco frequentemente nesse assunto, quando converso comigo mesmo, principalmente em épocas de prova, ou quando está para sair um episódio novo de um anime ou capítulo de uma série. Inclusive, durante a leitura de um bom livro, acabo com ansiar o capítulo seguinte, sem terminar o atual. Assim, através dessas e doutras constatações, percebo a necessidade em controlar minha ansiedade. Entretanto, para contê-la verdadeiramente, preciso descobrir como e quando se manifesta. Desse modo, o autoconhecimento torna-se essencial – mas fique tranqüilo, pois o levarei numa viagem pelo “eu” do autor.

Bem, talvez você tenha respirado e pensado em si mesmo, nesse primeiro parágrafo. Quem sabe se identificado com algo. Ou não… Independente disso, ansiedade é algo comum e, se pensar bem, ensinado. Depois de refletir bastante, percebi que sua manifestação é sazonal, previsível e, muitas vezes, injustificável. Na maioria das vezes, quando ficar ansioso não extrapola quaisquer limites saudáveis, temos uma fonte clara daquilo que nos leva ao estado inquietante. Geralmente é a iminência de uma situação muito desejada, como as notas de uma prova, o resultado das ações de uma personagem, a resposta para uma declaração de amor ou qualquer coisa que desperte curiosidade e vontade. Sendo que, todas essas são justificáveis. Contudo, há outra forma de ansiedade que me chamou a atenção – e esta é passível de condicionamento: a ansiedade programável.
Acredito eu, caro leitor, que já tenha observado algumas propagandas durante a vida. Desse modo, certamente já constatou a existência de várias “necessidades” consagradas para uma vida de qualidade. Ora, simplesmente há itens que você “precisa” ter para ser feliz ou estar bem ou ser melhor. Claramente, a atualização desses mesmos itens, ou versões melhoradas, é imprescindível à existência humana. Sendo assim, é inexequível passar seus dias com objetos e sistemas obsoletos. É necessário mudar. Mudar para o melhor. Mudar para o maior, o ótimo, o mais rápido, o mais incrível, cool, cult, cute, subarashi, sugoi, kawaii e inédito. Mudar sempre, constantemente, impreterível e indubitavelmente, para o mesmo!
É, você não leu errado. A maioria absoluta das mudanças vendidas e da alimentação para a ansiedade intrínseca ao ser humano, não passam de um bom blefe, de validade curta. E tal validade deve ser curta, para que a próxima melhoria seja realmente necessária. Somos constantemente expostos a melhorias para todas as tecnologias que nos cercam. Contudo, não percebemos (e isso seria problemático ao sistema atual) que a durabilidade das coisas caiu e, além disso, as constantes atualizações e as versões melhoradas estão cadê vez mais próximas do lançamento de suas antecessoras. Ainda, e mais triste, o aspecto obsolescente dessas mudanças é transferido para outras áreas. Assim, o cansaço por inércia é cada vez mais intenso e fácil de “conseguir”. Seja por sermos naturalmente ansiosos – ao menos em parte – por mudanças, ou pela pressão sócio-cultural, que adere ao dia a dia.

Acontece, entretanto, que a vida é uma sequência de repetições, de lugares comuns e constantes. Todos que já fizeram sexo sabem que a repetição não é um problema. Beijar dezenas de centenas de vezes @ namorad@ não é, nem de longe, ruim. Ler o mesmo livro, jogar diversas vezes as fases do Mário, muitas partidas de truco ou mesmo repetir partidas de xadrez. Claro que, cada vez que você faz uma dessas coisas, você não a faz igual à última, mas não deixa de ser a mesma coisa – se deixasse, relacionamentos não cairiam na monotonia e um jogo nunca se tornaria enjoativo. Agora, se a vida é feita de “mesmices”, por que sentimos vontade de mudanças? Ademais, mudanças reais são custosas, demoradas e desgastantes. O que permite que sejamos enganados é a confusão entre os tipos de mudança a as coisas que mudam.
Ansiamos por mudanças, pois temos curiosidades e sentimos prazer ao quebrar a rotina. Queremos coisas surpreendentes, inesperadas e novas, fora do que está ao nosso alcance. Claramente, muito do que queremos e buscamos não passa de brevidades pontuais. Todavia, nos ensinam a desejar uma mudança pronta, a comprar a fuga da rotina. Tudo mera ilusão, um descaso com os intelectos fragilizados – de mais bombardeios culturais, de marketing e moral sem ética. Logo, ao final do dia, não sabemos se fizemos a compra “certa” ou se realmente queríamos aquilo que “precisávamos”, incertos de nossas atitudes, porém calados pelo desconhecimento de que fomos coagidos àquilo. Hesitantes, não concluímos se a ansiedade sôfrega valeu o resultado. Então caímos, satisfeitos ou não, esgotados. Tudo, para esperar a próxima ansiedade, da tão sonhada mesma mudança.

Sim, faz todo o sentido, considerando q prestadores de serviços e vendedores estão no ramo de vender produtos(sejam coisas físicas, sejam coisas mais abstratas) e não se resolver problemas. Se todas as necessidades das pessoas fossem resolvidas de uma vez, essas pessoas teriam destruído os próprios empregos.
Enfim,
Legal o texto
Tava lendo algo sobre isso esses dias na verdade.
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Você apontou algo bem importante. Que não são apenas bens físicos, mas também abstratos. Assim, até mesmo as atividades e muitos momentos, já recebem essa “data de validade”, tão logo são vividos. O tempo é segmentado para isso… ao menos, em nossas cabeças.
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É curioso como chegamos a um ponto em que a nossa cultura seria, provavelmente, considerada degradante à condição humana se observada pelos nossos antecessores.
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Verdade. Nossa cultura exerce um efeito de auto-degradação. Desse modo, qualquer movimento contracultura, passa a ser muito mais temido. Mas bem, ambos serão temas de outro texto. 😀
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