Uma viagem… e gastronômica!

Antes que você, leitor, perscrute o blog numa busca infalível sobre conhecimentos ou referências gastronômicas, quero que entenda (e possivelmente compartilhe) a forma de pensar deste que escreve. Não vejo uma forma melhor de exemplificar como percebo a comida, senão com uma boa comparação. Imagine que agora você fará duas viagens, para o mesmo lugar e pelo mesmo período de tempo, divergindo apenas no que fará.

Na primeira vez você embarcará num avião, rumo a uma ilha. Você entra na aeronave, escolhe um passatempo, como ver um filme ou ler uma revista. O avião pousa e você pega um táxi no aeroporto e vai para seu hotel. Segue sua rotina – manhã: acordar, desejum, praia, almoço; tarde: praia ou alguma atividade intelectual; noite: jantar, televisão e sono. No término da viagem, faz o trajeto para casa. Agora, a outra viagem. Você entra no avião e vai para o seu assento, onde começa a folhear uma revista, lê um pouco e, inquietamente, começa a reparar à sua volta. Percebe uma criança tentando equilibrar a refeição na bandeja da poltrona da frente, uma senhora que conta, naturalmente, histórias para o passageiro ao lado dela sem preocupar-se com o interesse. Vê ainda a aeromoça fofocar para uma colega sobre a roupa de uma estrangeira extravagante. Sente o cheiro da comida sendo aquecida para a refeição vindoura. Interagindo com o nicho no avião, o tempo passa de forma fluida e o pouso chega a ser surpresa. No aeroporto você “puxa” conversa com uma mulher na fila para pegar suas bagagens, por tempo suficiente para ter um contato provisório na ilha. Chegando ao hotel você decide conhecer a cidade como ela realmente é (depois de acomodar-se e devorar alguns petiscos no bar). Além de andar, correr, se perder, nadar, conversar e fazer mil coisas, sem uma rotina certa, até o momento de voltar. Então, qual viagem você achou mais atraente? Em qual das duas você ficou interessado? Escolheu a segunda?!Pensamos o mesmo!

A mesma situação se reflete na alimentação. Você pode entrar em um restaurante, pedir seu prato, comer, pagar a conta e ir embora, ou você pode entrar, sentar, conversar com o garçom, notar o enxoval, ler o cardápio, receber o prato, degustar o sabor e o gosto e a beleza, para apenas então pensar em ir embora. A escolha de ter uma experiência gastronômica é sua. Ter a sensação reverberante do prazer de alimentar-se bem e confortavelmente ou apenas comer o trivial “gostoso”. Cabe a você decidir se degustará um confit du canard a cada mordida, percebendo a maciez da carne e o sabor do aroma suave das ervas empregadas ou se comerá apenas um prato “chique” e “caro”. É ainda sua escolha sentir a crocância de um pão francês quentinho, recheado de manteiga derretida à temperatura certa que se mescla ao recheio de um ovo frito, com gema mole certamente, para que esta inunde e nutra o miolo do pão, mesclando os sabores dos ingredientes com suas manhãs. Insisto ainda que é da obrigação de quem come notar a suculência de uma fruta fresca, o cheiro do café recém-passado, sentir as texturas contrapostas de uma tortilha, que empilha prazer divertido paras os fãs da diversidade matinal. Indo um pouco além, é impossível não notar que é o cliente, de qualquer estabelecimento, quem fica responsável em escolher o que comerá. Assim, deduzo que esta responsabilidade se expande na escolha de saborear a pasta regada ao molho de sua preferência, ou de sorver a bebida (que, espero eu, estar na temperatura adequada ao consumo) e saborear sua essência combinada com o prato pedido. Ou mesmo sobre aquele brownie indecoroso às dietas, ousando ser irreverente com as outras sobremesas, pois tamanho é o poder do cacau bem preparado, para, finalmente voltar satisfeito à própria casa.

brownie9
Brownie… genialidade simples.

É de seu livre arbítrio ter, a cada refeição, uma sensação que a fará especial. Não importa sua escolha, desde que sinta prazer em comer. Assim como você pode transformar qualquer viagem numa rotina sem significado, suas refeições também podem sofrer esta avaria. Então, convenhamos, comer é bom demais para deixar tal situação acontecer, certo?! Agora se prepare, arrume as malas e encha a boca d’água, pois onde há gastronomia nós iremos visitar. c[_].

Vamos?
Vamos?

7 comentários sobre “Uma viagem… e gastronômica!

Deixar mensagem para Elder Cancelar resposta