Você adentra o restaurante, observa o panorama e vê um bom ambiente. Decide, então, comer ali. Um garçom se aproxima e pergunta “Mesa para quantos?”. Eu respondo “Para um!”. Nisso, o indivíduo parece entrar em parafuso e desencadeia incredulidade: “Tem certeza? Você não está esperando mais ninguém?”. Claro, eu entrei no estabelecimento para mentir, de certo. Ou melhor, me confundi. Certamente que não devolvi essa irreverência, mas a estranheza do rapaz – e não só dele, como de muitos outros antes, com os quais já fizera o mesmo pedido – era impressionante. Quando confirmei, o pobre homem parecia uma TV chuviscando, desolado com a informação. O fato de que iria jantar sozinho parecia indigesto.

Indiferente à opinião do garçom, sentei-me à mesa. Após fazer meu pedido, passei a notar alguns olhares, tanto de clientes quanto dos funcionários. Eu era convizinho à existência do aborrecimento comum! Naquele dia sei que fui estorvo. Ora o garçom bestificava-se com o cliente solitário em meio ao restaurante lotado, ora a bartender demonstrava expressões piedosas. Sem contar os clientes, que aparentavam alguma ansiedade. O desejo de todos coincidia, ao menos pelos que podia sentir, que eu terminasse logo e fosse embora. Não quis! Saquei meus talheres e contemplei minha experiência gastronômica. Com uma mensagem não verbal, mandando todos ao oitavo inferno de Mephistópheles, degustei com lascívia meu prato. Quando parti, ri ao notar o alívio alheio.

Penso em como é comum ouvir afirmações do tipo “Á, eu não quero ir comer sozinho!” e outras derivações congruentes. Existe uma enorme resistência à experienciação solitária. Por um lado, entendo o quão bom ~quiçá melhor~ é rodear-se de amigos, familiares, pessoas a quem amamos ou mesmo ter aquela refeição romântica, com muitas intenções. Mas por outro lado, não vejo problema algum em comer sozinho. As duas situações deveriam ser igualmente aceitas. Infelizmente, não é o que ocorre.
Dado o contexto certo, igual ao meu caso no restaurante, comer sozinho passa mensagens “ruins”. Você pode ser visto como “o fracassado que tem ninguém” ou “o abandonado, desolado, descartado, pobrezinho e depressivo”. Ademais, adquire a característica de estorvo, transfigurando-se em incômodo aos presentes. Em parte, um único cliente ocupando uma única mesa (situação desnecessária, mas consensuada), significa uma redução da amplitude de clientela. Dessarte, não justifica a desaceitação.
Ninguém é obrigado a estar acompanhado.

O grande ponto é que qualquer um pode jantar sozinho, sem que isso signifique algo ruim. O prazer da experiência pode ser até maior, inclusive, já que a atenção não recebe competição. Seja para saborear um suculento mignon tenro, a cremosidade de um “gelato”, as texturas empilhadas duma tortilha ou o que for. Comer é um ato íntimo e não precisa ser compartilhado toda vez. Felizmente, surge uma tendência sem jantares a sós ~e isso ficará para outro dia. Seja você pedindo mesa para cem, dez ou um, não deixe de apreciar cada garfada.
Bom apetite. c[_]