Morte e o tapete na sala

Eu amo o calor nos dedos ao segurar uma caneca de café fresco, prontamente passado, num dia frio de outono. Sou completamente apaixonado pelas lentes embaçadas dos meus óculos ao tomar sopa à noite, sentado no sofá e conversando com pessoas que também apreciam sopa e notam que meus olhos desapareceram detrás duma película d’água condensada nas lentes. Considero maravilhoso a casualidade das risadas sem compromissos, de quando partilhamos o mesmo momento, sorvendo ternuras e aconchegos a goles de, quem sabe, um bom vinho. Penso eu que o frio me faz gostar disso, com as lembranças que começam na juventude da infância, quando minha mãe e avó comiam pinhão comigo em potes, enquanto todos dividíamos uma coberta aninhados num tapete. Essa foi uma prática que mantive no decorrer da vida. Sentar no chão, num tapete que não deixasse congelar a bunda e dividir cobertas e histórias com amigos e amigas. 


Foto por Brigitte Tohm em Pexels.com
Um café para esquentar as mãos e o coração.

Talvez você pense que eu esteja romantizando o tapete, o frio, os momentos, os amigos e tudo isso do que falei. E talvez você esteja certo. Contudo, vale lembrar que no decorrer dessas palavras, o autor sou eu e, assim, eu quem escolhi cada átomo semântico em toda minha plenitude de “dono” desse universo. Em todo caso, você pode estar certo sobre mim, mesmo depois dessa finta na linha anterior. E nesse caso, você, leitor, está com toda a razão, dentro de toda sua certeza. Mas e aí, para que serve sua certeza? O que dá para fazer com sua ela? Dá para se aquecer no inverno com sua certeza? Dá para encontrar a felicidade com ela? Fabricar tapetes? Salvar o mundo? Se salvar? Já pensou sobre isso? De qual é a serventia de sua certeza? Para além disso, quais delas são verdadeiras, confiáveis ou corretas? É complicado assumir “certezas”, pois é o mesmo que assumir algo ou um evento como infalível ou inevitável. Outrossim, existe algo que pode ser classificado assim, como imprescindível e certo? Bem, uma coisa existe… 

Certamente você deve ter inferido no final do parágrafo anterior que eu iria falar de morte  —  “olha só, o autor esbanjando certeza”, você pode pensar. Mas aqui nesse texto eu sou pleno, lembra? Caso não tenha chegado comigo na ideia de morte, eu falhei. E tudo bem. Mas ainda existe o título, que dá uma dica que pode ser assumida certa acerca do que eu vou falar: Morte. Essa é uma certeza provavelmente unânime em toda a história humana. É um assunto amplamente explorado, discorrido, evitado, temido, contemplado e ainda de interesse para todos. Seja como for, a gente sabe que um dia vai morrer. Disso dá pra ter certeza. E talvez essa seja, quiçá, a única grande certeza unânime. E justamente por isso é tão significativa. E a coisa mais incrível é que ela está relacionada a “só tudo”. Tudinho. A toda e qualquer “inteirice”. Total e plenamente.  

Quando a gente pensa em morte como o fim de algo, como a interrupção da vida e do que entendemos como vida, ela se torna um importante delimitador. Um marco que não pode ser ignorado, mas que é evitado a todo custo. Bem como tudo relacionado a isso. Se pensarmos nos estados que antecedem a chegada da morte, essas “coisas” passam a ser temidas. Veja a velhice, por exemplo, que é tratada, muito precocemente como o fim de tudo. Tal como uma sentença à vida funcional, ao desejo, ao útil, ao direito e à existência. Convivemos com a negação ao direito de viver a velhice, de adotar cabelos ou barbas brancas, de acharmos rugas bonitas em qualquer hipótese ou de cogitarmos desejar o que é velho ou de estarmos velhos e desejar qualquer coisa. Pois a velhice é marco do fim e é próxima à morte, e a única sensação possível aos velhos e às velhas e ao que é velho é uma ternura, uma nostalgia e um respeito com possíveis miríades de sentimentos compadecidos. Afinal, a velhice é o que está perto do fim, é um fim antes do fim derradeiro. 

Contudo, como David Foster Wallace nos lembra em um de seus magníficos ensaios, antes de morrermos propriamente, experienciaremos a morte muitas vezes. Quem dá valor à memória, terá em seu primeiro esquecimento um marco de uma primeira morte. Ao valorizarmos um artefato tecnológico, morreremos a cada avanço tecnológico novo do qual desistimos de acompanhar. Quando almejamos corpos deliciosos, seja lá o que isso for, morreremos muitas e muitas vezes com o tempo transformando em ruína toda possibilidade de alcance do ideal inalcançável de delícia. Nem para quem aprecia a inteligência deixará de suportar as mortes repetidas aos passos do colapso da mente. E absolutamente tudo isso acontecerá, de uma forma ou de outra, de acordo com o que acharmos importante. A morte faz parte constante da vida  —  para morrer, basta estar vivo, certo?  —  e deveríamos viver em paz com isso. Talvez… 

Uma das melhores formas para se lidar com a morte, em um sentido de tirar o medo e entendê-la, estão as expressões artísticas. Dentre as inúmeras obras que falam de morte, gosto de uma música em particular: Aquarela, de Toquinho (Antonio Pecci Filho). Nesse momento seu semblante pode ter se alterado. Digo, deve ter se alterado. “Como assim essa música é sobre morte?”, você deve ter pensado. Bem, a música fala claramente sobre como o futuro é desconhecido, ao mesmo tempo que afirma que as coisas irão descolorir, ou seja, chegar ao fim  —  a música também carrega fortes metáforas sobre a morte dos eventos do “Brasil de 64”, mesmo “sendo” de 1983. E essa música linda fala, em tom suave e bonito, de um dos maiores tormentos humanos, que é o fim das coisas. E, sinceramente, é justificável ter medo, pois é uma experiência que ninguém pode repetir, além de ter ninguém para contar como foi. 

Agora chegamos a um ponto complicado dessa reflexão. Afinal, é difícil falar de morte sem pisar em áreas tomadas pela religião. E aqui eu não tomarei quaisquer pontos ou investirei tempo discorrendo sobre fé ou dogmas ou quiçá quaisquer atributos do domínio mitológico. E sabe por quê? Porque eu não estou interessado em certezas. E a religião, seja ela qual for, te dá isso: certezas. E agora, se você amarrou bem as coisas, deve sacar que esse parágrafo entra em conflito com um lá do começo. Pois é, um deles precisa estar errado, do contrário, entramos em uma contradição lógica. Deixo isso para que você decida. Até porque, eu sou soberano apenas no meu texto. Sobre sua própria vida, só você e seu próprio fim são coisas certas. 

No fim, enquanto o fim não encerra o que tem que terminar, quero sentar num tapete macio, olhar meus amigos, meu parceiro, minhas amigas, minha família, minha gata, meus bonecos, meu café e meu pinhão, rir porque ainda posso e é permitido. Dividir o tapete, uma única coberta e todo o momento que puder. Para mim, isso está muito bom. Não precisa ser sempre, pode ser só de vez em quando. E é justamente por ser tão incerto quando poderemos repetir isso, que os momentos ganham mais valor. Até lá, eu tento. O quê? Não importa… mas tenho certeza de que farei isso. E para o que serve minha certeza? Para nada.