Minha amiga e eu estávamos conversando. Falávamos coisas triviais, de um comum provinciano e, quiçá, bucólico. Durante o diálogo, a irmã dela tornou-se assunto fazendo minha interlocutora lançar a seguinte afirmação: “Minha irmã desenha muito bem, cara! É dom!!!” Obviamente, eu discordei no instante seguinte. Mas ela insistiu: “Não, é dom sim!!! Veja bem, ela desenha desde pequena, todo dia, sabe?! E olha, ela ficou boa. Consegue capturar detalhes e fazer estilos diferentes. Sem ninguém a ensinar… Só pode ser dom!!!” Desisti de argumentar naquele instante (devemos conhecer batalhas perdidas, principalmente quando o momento não é adequado). Contudo, decidi escrever sobre aquilo que me mostram como “dom”. E não, minha amiga, não há isso em sua irmã.
Anos de prática… só poderia ser um dom?

Antes de esmigalhar expectativas agressivas, quero confessar que também já fui adepto de ideias simplistas, como “se alguém é muito bom (excepcional) em algo, é dom”, e isso não é necessariamente ruim. Afinal, faz-me entender um pouco a concepção de quem afirma tal ‘fenômeno”. Entretanto, ressalto que meu pensamento simplório consistia na falta de reflexão e numa zona de conforto estável, na qual bastava justificar algo com uma “não explicação” para não precisar me esforçar de verdade. Ainda, lembro que já acreditei em coelho da páscoa, Papai Noel e que leite com manga matava. Desse modo, podemos retomar a ideia central, de que dom é uma ladainha absurda.
Quando ouço coisas do tipo “tal garoto desenha muito bem, tem dom imenso”, “aquela bailarina tem o dom, mesmo”, “você tem o dom do conhecimento, por isso sabe tanto”, “você cozinha assim porque tem um dom”, eu fico oscilante entre tristeza e ira. No mau português fico enfurecido com “p”. Sabem por quê? Porque essas afirmações são absolutamente ofensivas. Além disso, essas frases têm mais coisas em comum: redundância abusiva dentro de um texto, uma visão restrita e superficial e uma desvalorização do esforço das pessoas que conseguem algum grau de excelência (ou mero destaque) naquilo que fazem bem. A grande verdade é que nunca ouvi uma história que realmente demonstrasse a noção de dom do senso comum, ou seja, nenhuma manifestação instantânea de habilidade que brotasse do próprio nada. Muito menos, a aquisição de técnicas sem uma enorme quantidade de esforço e energia envolvidos. Voltando à conversa com minha amiga, no momento em que ela proferiu “ela desenha desde pequena, todo dia” [acho que tinha um quase nessa frase… Faria todo sentido], a explicação já estava inclusa. A simples ideia de que alguém é bom em algo simplesmente porque “recebeu” isso, ou mesmo “herdou”, é absurda. Não passa de uma muleta.
Vou usar seu dom como uma desculpinha para minha preguiça…
Ao olharmos para os exemplos ao nosso redor, percebemos a coisa mais fantástica possível: todos podem ficar bons em algo, contanto que o pratiquem muito. Pense em todos os neuro-cirurgiões… Será que cada um deles nasceu dominando movimentos acurados? Ou tiveram que treinar muito para usar cada ferramenta, fazer cada incisão, sutura, curativo, avaliação, aprender a responder de acordo com o que o paciente está passando, para só então tentarem tudo isso numa cabeça humana e, muito tempo depois, tornarem-se bons, seguros, confiantes e até mesmo referência em suas áreas? A segunda opção parece mais palpável, não é? Mas a primeira pode ser mais gostosa de engolir. E isso é perigoso.
Sempre que alguém me fala que tenho o dom de cozinhar, visualizo um filme, mentalmente, de quando fiz um nhoque que virou um bloco gigante de massa cozida, ou quando incendiei a cozinha tentando fazer batata frita, das vezes em que assei carne e ora ficava antes do ponto [crua], ora seca e esturricada [eca!]. Passam também todas as
cenas das sobremesas fracassadas, em consistência ou sabor. O mesmo acontece quando falam sobre meu dom para escrever. Quem diz isso não tem ideia de quantas horas gastei lendo, escrevendo e reescrevendo textos de todo tipo. Não sabem que gastei um dia inteiro em uma maldita redação, durante o cursinho pré-vestibular, para que ela ficasse meramente adequada. Não consideram minhas horas de frustração por não entender quando o verbo é substantivado e as orações assindéticas que ficam sindéticas ao menor descuido. E as horas em claro, madrugadas a fio, escrevendo e revisando relatórios? As correções duras das professoras que queriam uma melhora minha? Nada disso é considerado. NADA!!! E a história não carece de exemplos: Beethoven estudou muito de música e fez um esforço absurdo, para mesmo surdo, continuar compondo e tocando; Jimi Hendrix calejou os dedos antes de ser reconhecido; Paul Bocuse não nasceu salteando, ele teve que aprender tudo aquilo que hoje ele ensina; Leandro Karnal gastou horas quase incontáveis, para muitas pessoas, lendo até dominar certos conhecimentos; Da Vinci era curioso e incansável na busca por novos aprendizados; Fiódor Dostoievski precisou ser alfabetizado e praticar bastante antes de tornar-se um marco na literatura. Nenhum desses, nem de outros exemplos, teve habilidades prontas, livres de prática ou treino. O contrário, contudo, é verdade – eles desenvolveram suas habilidades através do esforço excepcional que fizeram. Isso é muito mais surpreendente do que o “presente pronto” nas ideias de um senso comum.
Praticar envolve lidar com fracasso. Quem sequer tenta, não fracassa…
Falar que alguém tem dom é o mesmo que caluniar essa pessoa. Acusá-la de preguiçosa. É afirmar que seu esforço para aprender e melhorar qualquer coisa vale tanto quanto o nada, pois ela já tem esse “algo pronto”, da mais bizarra origem que alguém puder pensar. Imputam-na de marasmo, indolência e madraçaria. E tudo isso é deveras triste. E o motivo para isso é simples: uma muleta. A ideia preconcebida sobre um talento nato e um diferencial herdado, ou recebido [dom], serve como remédio paliativo à preguiça de quem não quer se esforçar. Encabeça o hino dos indolentes. E isso é árduo de aceitar. Afinal, concordar com a ideia de que alguém só não é bom em algo porque não se esforça o suficiente pode dar calafrios. Mas é a mais pura realidade. Se uma pessoa tem condições e acesso a determinado tipo de prática (cozinhar, escrever, pensar, dançar, calcular, computar…) e não é minimamente boa, por desleixo ou descaso, então é bom ter uma desculpa à altura de sua sornice. No fim das contas, a pessoa comum não quer sair do conforto do pseudo-ócio [ócio verdadeiro é útil] para a rotina desgastante que pode torná-la boa em alguma coisa. Evidentemente que tal situação é aceita pela maioria – ao menos no Brasil que conheço, e noutros lugares para os quais viajei. A aceitação da mediocridade, do atraso, do suficiente, do “bom o bastante” e não do “bastante bom” é o que retroalimenta essa condição. Então o ser vulgar não se permite aceitar que não seja por dom que fulano canta tão bem e ciclano faz dissertações incríveis. É preciso ter dom para ser bom e aceito. As milhares de horas de dedicação de nada servem às mentes cativas. Pois quem se esforça tem dificuldade, e ter dificuldade é algo que quem tem dom não tem, e quem tem dom é melhor naquilo, justamente por tê-lo. O que não tem o menor cabimento.
Aprimoramento não é algo fácil.
Felizmente, há outro lado. Quem melhora suas próprias capacidades, sabe o valor do empenho constante e não precisa de desculpas para repetir infinitamente uma mesma atividade, até que consiga dominá-la. Há até quem possa ter mais facilidades para algumas coisas, mas essa mísera vantagem desaparece à medida em que se aprofunda naquilo. Destarte, cabe a toda pessoa dedicar seu tempo aprimorando aquilo que desejar. O processo é lento, constante e laborioso. E ser excepcional está longe de ser o melhor em algo, mas, perto de superar limites e fazer coisas incríveis. E cada minuto é valioso [que piegas, não é?!]. Afinal, a diferença entre quem faz muito bem alguma coisa e quem não a faz direito está na quantidade de horas investidas. Da próxima vez que pensar que seu amigo desenhista é bom por dom, faça uma conta: se ele tiver 20 anos e investiu 1 hora por dia desenhando desde seus 4 aninhos, serão 6205 horas de prática. E certamente ele deve ter investido bem mais que isso. Então repense se acha justo chamar isso de dom. Talvez ele prefira um adjetivo mais coerente. E aqui, qualquer “extraordinário” já é formidável.