Hora do Café!

Não é de hoje que sou apreciador de cafés. Porém não é de sempre. Tudo começou, penso eu, durante a oitava série em meados de 2002, época de Bhaskara e introdução à química. Lembro agora, que o começo não foi por gosto, confesso, afinal, meu acesso ao café era pela infusão confusa que lembrava um chá, com um pó de pouca ou nenhuma qualidade. Contudo, havia necessidade, cuja razão pedia para cobrir madrugadas em trabalhos, pela primeira vez, porventura, esmerados. E assim passei a “usar” meu futuro amigo, combustível do despertar, algoz da minha atenção. Não foi fácil, acreditem. Eu sequer sabia aproveitar, e abusava de açúcar, produzindo esgares a cada gole. Deplorável da minha parte.

Essa relação, caríssimos, perdurou até pouco tempo após o término do ensino médio. Somente em 2007, época de cursinho, que evoluí para apreciador, capaz de experienciar um bom café, distinguir alguns nuances, detectar histórias palatáveis. Para tal, obtive ajuda dum gatilho inesperado num amigo improvável. Fora dentro do España Café que, com sugestões e estímulos do encantador barista, Giovani Bonfim, passei a provar formas diferentes para o, até então não tão amado, café.

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Mocha: Sabor divertido e aconchegante.

A primeira, e mais inesquecível, recomendação foi o moca (ou mocha). Para quem desconhece, é uma variação do café com leite, que abusa das diferenças de densidade dos compostos da bebida, para então dividi-la em camadas. Aqui, o chocolate repousa no fundo, criando uma base densa e aveludada. Sobre este, leite seguido de café, imediatamente coberto de chantilly. À primeira vista, parece mais apreciável com os olhos do que com as papilas, de apresentação reconfortante e modesta. Lembro perfeitamente de perguntar para o Giovani como eu iria beber aquilo. A resposta mais completa, depois do óbvio “como você quiser”, veio como a seguinte sugestão: “bata tudo com a colher, bem rápido, e experimente”. Incrível! A presença dos amargos de café e chocolate, enraizados no leite apaziguador, traz à boca suspiros. Ainda, uma doçura “chocolática” inunda as papilas e acolhe a alma. Juntos, degradam chantilly e efluem sabor. Bastou uma xícara para me render aquele mundo do café.

Irish Coffee: Elegante, sedutor, poderoso...
Irish Coffee: Elegante, sedutor, poderoso…

Logo os horizontes se expandiram. Vieram doppios e lungos, puros como anjos e fortes como o amor. Imortalizando xícaras e momentos. Acordando dias em prazeres jubilantes. Em outros momentos, não tão matutinos, vieram os maravilhosos correto e Irish coffee, deslumbrantes em sensações. O primeiro, fusiona licor (ou Whisky) à soberba líquida, enaltecendo os gostos residuais e marcando o paladar ao primeiro contato. O último, clássico irlandês, criação de Joe Sheridan, combina Whiskey (sim, há diferença com o Whisky), leite ou espuma de leite, e açúcar mascavo, tornando a experiência forte e o gosto marcante. O Irish é ousado ao trespassar o paladar, conquistando o estômago, quando nos esquente e energiza, sem remorsos. Outrossim vieram os espressos italianos, lattes, romanos, pannas e uma quase infinidade de variações. Destarte, o café fez-me feliz. Acordados no prazer e na devoção um ao outro.

O café é surpreendente. Concordo com Ducasse ao manifestar tal admiração, por um produto de tão vasta utilização, cuja sorte de variações é infindável. Cada uma das apenas quatro espécies, arábica, robusta, racemosa e libérica, apresenta características que alteram-se de acordo com a moagem, cultivo e torrefação dos grãos. Assim, o café assume dimensões colossais, servindo a todo e qualquer momento. Sua existência critica qualquer momento prévio, ausente de seus cuidados. Ele suprime o sono e zurzi à razão. Uma entidade sem necessidade de explicações, tal qual a causalidade de Kant. Sua única necessidade é sobrepujar os sentidos, ora como bebida, ora como insumo dos mais incríveis pratos. Sejam nos charutos de chocolates com mousse de café, pudins de café, bolachas, cremes, bolos, sorvetes, tiramisus, frapês… a lista não para. Seus prazeres competem com o sexo mais lascivo que puder imaginar, e como tal, esquenta, anima e desperta. E o café não tem, sequer precisa, de hora. Contudo…

Tiramisu, uma das muitas delícias feitas com café.
Tiramisu, uma das muitas delícias feitas com café.

Ontem à noite, no intervalos das atividades, fui comprar um café – um simplório e sedutor tradicional “passado”. Gentilmente pedi um café puro, preto como a morte, para estender um pouco mais a noite. A atendente desgostou, ecoando sua desaprovação nas míseras palavras seguintes: “café puro ‘essazoras’?!” – vomitando sarcasmo. Buscou a bebida com descaso, a contragosto, desfilando caretas. Fosse menos tranquilo, questionaria-a em alto e bom som. Entretanto, isso não é necessário. Há quem não entenda o deleite reverberante da bebida que esquenta o coração e preenche os sentimentos. A pobre alma não concebe o amado grão não prende-se no tempo, nem precisa da aprovação comum. Ao café basta a água quente e um recipiente no qual caiba altivez líquida, paixão quente, inquietação forte, gosto celeste e alma negra. Assim, peguei meu café. Bebi. Sorvi uma noite melhor. Agora, que tal uma caneca bem cheia de café? c[_]

Autor: Egon Sulivan