Demasiado Demais

Minha vó sempre repetiu: “tudo que é demais, tudo que é exagero, faz mal”. Ela cumpre com essa máxima? Certamente que não. Minha avó, que amo muito, só para deixar claro, é mais do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Em todo caso, essa introdução não é para discorrer clichês e ditados ou lugares comuns. É para te trazer aqui pertinho de mim, pessoa que lê. Pra gente criar um laço, ter um momento gostoso nesse monte de palavras escolhidas ao acaso. Viu como já estamos mais íntimos agora que você sabe disso? Pois bem, sigamos como amálgamas. 

Final de 2024. Eu recebo uma avaliação sobre mim: de que sou excessivo  —  principalmente em um aspecto da sexualidade. Bem, essa avaliação veio de quem pode fazê-la, obviamente. Ao que tudo indica, há ainda outros que concordam com essa visão. Desde então eu tenho pensado muito no assunto. Ao invés de desassociar, eu assumi a possibilidade e comecei a pensar “e se eu sou excessivo mesmo?”. Será que isso seria simplesmente ruim? Se fosse, eu poderia fazer algo a respeito? Questões demais, autor de menos. Quiçá, as respostas precisassem ser entendidas. Para tanto, busquei amigas e amigos, levei para a terapia e busquei meus eus interiores, recorrendo a memórias e toda sorte de recursos que eu dispusesse. Fato é, eu fiquei impactado com isso. Assim, comecei uma jornada. 

Já adianto que não terminei. Talvez nunca termine. A vida é assim, no fim das contas. E isso é ótimo. Outrossim, se eu tivesse minhas respostas fechadas e prontas, certamente não me preocuparia com retornos que os outros me colocassem. Meu mundo seria um purgatório de certos e errados meus, tão prontamente eu quisesse ignorar a complexidade das coisas. E, se fosse assim, talvez eu fosse constantemente feliz (o que, na prática de quem é senciente e consciente, não é possível).

Quem não é o caos de vez em quando?
Foto por Finn Semmer

Seja como for, fui às amizades. Expus o ocorrido e pedi uma opinião sincera. Entre muitas respostas, meus amigos e minhas amigas trouxeram grandes momentos em que cometi gafes, em que falei mais do que precisava e até outros nos quais eu ofendi alguém. Um deleite relembrar e perpassar meus defeitos, saboreando as falhas e aceitando que fiz aquilo mesmo. Um deslumbre. Contudo, nenhum deles e nenhuma delas acha que eu seja demais. No geral, a percepção deles é a seguinte: você (autor aqui) é extrovertido, gosta de muitos assuntos, se sente confortável em falar com os outros. Em algumas vezes, se empolga muito, mas isso não é demais. Não é sempre. Não é, sequer, frequente. 

Com essas respostas, eu levantei mais perguntas do que antes. E o fato de eu não estar colocando-as aqui, é porque isso é um texto dissertativo (é?!) e não uma lista de perguntas (uma lista de perguntas pode ser dissertativa?  — acho que não… acho). Contudo, algumas são insumo desses parágrafos. Por exemplo, qual é a frequência em que falar demais me tornaria demais? E outra, demais em que sentido? Em falar demais, sem parar, tal como um rio desaguando informação sem cessar? Demais em interagir muito, ao ponto de causar desconforto no outro? Demais em fazer coisas demais? Me empolgar demais? Criticar demais? Rir demais? Listar demais? Ora, demais no quê?

De todos a quem recorri, um amigo e uma amiga foram um tanto quanto mais detalhados em suas respostas. Esse amigo disse que não sou excessivo ao ponto de criar desconforto aos outros, nem que eu seja inconveniente ou cause incômodo constantemente. Ele me lembrou de momentos em que fui exagerado em falar coisas fora de hora ou até mesmo fui grosseiro. Mas não tanto como qualquer outra pessoa pudesse ser. Assim, na qualidade de extrovertido, eu sou meramente mais comunicativo do que um apanhado de pessoas próximas. Dentre todas as respostas, a dele foi uma das mais completas e gerou uma reflexão interessante. Só que não ‘resolve’ tudo, afinal, há um contexto e é a convivência. 

No passado, amigos que viveram comigo manifestaram a opinião de que era difícil viver comigo ou me acompanhar, porque eu simplesmente fazia coisas demais. Claro, no contexto em que dividia a casa com um amigo e eu cursava duas graduações ao mesmo tempo e dormia muito pouco para dar conta dessa rotina, certamente ele poderia ter essa impressão. Outros amigos comentavam que eu fazia parecer fácil ter diversas atividades simultâneas, mais graduações e vida social. Porém, apesar da visão incrível que tinham de mim, as comparações não eram boas. Primeiro, eu não tinha uma qualidade de vida tão boa para conseguir me dedicar às coisas que fazia  — eu dormia pouco. Eu até podia ver meus amigos e saía de vez em quando com amigas, mas isso era espaçado. Eu saí das redes sociais à época e eu vivia cansado e até estressado com pequenas coisas. Contudo, eu não reclamava das coisas. Sempre achei que reclamar por reclamar não ajuda, que no geral, atrapalha. Obviamente isso vem da minha vontade de me distanciar de quem fala “faça o que eu mando e não o que eu faço”, cuja vida era reclamação sem ação. Além disso, eu não faço muitas coisas ‘demais’. O tempo que eu uso para ler um mangá, escrever um texto, jogar RPG ou estudar, é o mesmo tempo que eu usaria para ver muitas coisas em um Instagram ou publicar coisas no X, finado Twitter. A quantidade de vezes que amigas iam à baladas e beijavam era uma quantidade superior em horas do que eu passava para estudar bioquímica ou história da alimentação. Eu não fazia demais e nem nunca fiz. Mas aí, se moro com quem quer se destacar no emprego, se aprofundar em muitos assuntos e se graduar em uma federal, mas que não consegue criar uma rotina de investir tempo para essas coisas, entretanto, consegue organizar 3 churrascos por mês, acho que a frustração dele não era comigo. Eu era o alvo. E nesse sentido, eu certamente sou demais se comparar do jeito enviesado. E, claro, o fato de que eu estava solteiro e sem ficar com outras ou outros, passou despercebido por esses amigos. Eu ainda tinha toda uma questão de sexualidade não resolvida, não explorada, não vivida e bem desentendida. E esse foi o ponto que aquela amiga do retorno interessante trouxe. 

Sabe quando a gente tem uma amiga boa, mas boa mesmo? Daquela que discute com a gente num nível de questionamento que não deixa a desejar? Que não recorre a respostas mágicas ou qualquer sorte de bobagem que não seja justamente a consequência dos nossos atos e a responsabilidade das nossas ações? Pois é, essa amiga é assim. Um debulho e maravilhosa. E foi com ela quem mais discuti. E aqui, antes do texto beirar uma intimidade muito preocupante, pessoa que me lê, vamos tomar medidas para não ser demais para você. A conversa com ela foi boa, levantando perguntas no processo. E o assunto da sexualidade obviamente veio à tona: já que eu poderia ser sexualizado demais. E isso é algo não incomum em homens gays (tem literatura, vídeos no Youtube, artigos na internet todinha que abordam o tema). Poderia até ser compulsão, quem sabe? Quem sabe eu mesmo não deixei de fazer ainda mais coisas porque estava ocupado pensando em ou exercendo sexo. Ora, certamente poderia ser uma possibilidade. Mas, quanto à compulsão, vou deixar para checar na terapia — só pra ter certeza, afinal, eu quero investigar todas as possibilidades  — e não nestes parágrafos. 

De onde veio esse questionamento, esse retorno? Ora, do incômodo de um parceiro, da convivência comigo. Para deixar o mundo ciente, de todos meus namoros, oito ao todo, eu só namorei duas pessoas extrovertidas. Não sei se eu tenho um tipo, mas aconteceu que o restante todinho compõe cores de timidez e notas de mostrar-se e expressar-se pouco em público. Em todo caso, eu sempre fui o mais falante e expressivo na relação. 

Agora, segundo meu parceiro, eu sexualizo demais as coisas. Os comentários, as piadas, os toques, a libido… É de eu ver um cara bonito e comentar, seja um ator ou um aleatório num café. É por dizer que faria fulano e ciclano e mais um bocado de isso e aquilo. É também sobre interagir virtualmente, durante viagens, no mesmo campo. A visão dele certamente captura uma frequência muito maior do que dos amigos. Mas aí, o convívio captura tudo, não é mesmo? E, para um introvertido, acho que pode ser demais, muitas das vezes. Durante as conversas com meu parceiro, após a avaliação dele sobre meu comportamento, questionei sobre quem concordava com essa opinião dele de que eu sou sexualizado demais. Eis que o concordante é um amigo além do introvertido, que, a meu ver, é muito desconectado da sexualidade. Aí, é claro que o sujeito se incomodaria, não? Um cachorro lambendo as próprias bolas iria incomodar por estar mais sintonizado do que ele.

Sexuais demais.
Foto por Ketut Subiyanto

Após essa iluminação de quem tem essa visão, acho que o ‘demais’, sempre relativo, se torna muito momentâneo, muito circunstancial. No fim, não era tanto sobre mim. Acontece, que este texto é sobre mim (mas só?), assim como minha busca. Mas, e se, de fato, eu for demais em vários momentos? Na conversa com a minha ‘best’, eu falei do outro amigo que nem se interessa tanto por sexo assim. Então ela trouxe uma interpretação de Lacan: Difícil sentar ao lado de quem é livre. Desse modo, faz sentido que algumas pessoas sintam-se incomodadas. No fim, todo mundo pode incomodar todo mundo. Mas, da maneira como coloquei, fica parecendo que eu me entendo como livre, certo? Então, vamos elaborar isso. 

Em comparação a algumas pessoas, eu realmente acho que posso ser mais livre sim, no assunto sexualidade. Primeiro, eu não sou um homem hétero. Isso, por si só, já me obrigou a pensar minha sexualidade mais do que a maioria dos homens cis e heterosexuais contemporâneos a mim. Ainda, o assunto sexo sempre me interessou. Eu, dos três anos (idade na qual descobri como eram feitos os bebês) em diante, sempre me aproximei do assunto. Aos oito anos eu lia um livro de biologia do Telecurso 2000 e entendia termos como gônadas, espermatozóide, óvulo, fecundação, penetração, gestação e afins. Aos doze eu caçava, nos faróis do saber (bibliotecas públicas de Curitiba), livros que explicavam masturbação, partos, desejo sexual ou qualquer forma de saciar a curiosidade sobre o assunto. Na adolescência eu tinha conhecimento sobre ISTs (DSTs à época), métodos contraceptivos, riscos do contato com fluidos, problemas da má higiene genial para desenvolvimento de infecções. Eu claramente consumia toda porcaria rasa que passava na televisão sobre, e revirava os olhos às perguntas que eram óbvias, para mim, nos programas da tarde e da madrugada, como Programa Livre (SBT, 91-99) e Altas Horas (Globo, 99 em diante)  — gente, claro que sexo oral não engravida, o esperma vai ser digerido antes, pelo amor do seu deus. Eu também consumia revistas de curiosidades, coisas como: 150 perguntas e respostas sobre sexo. E mais muitas coisas. Era o único assunto que eu me interessava e consumia? Claro que não. Eu amava (e amo) ler e conhecer coisas. Tinha tanto interesse por sexualidade quanto por dinossauros, Pokémon, jogos, histórias em quadrinhos, mangá, química e comportamento humano. Saber das coisas e aprender é muito prazeroso. Me dá angústia não questionar os porquês das coisas, assim como os comos, quantos, os o quês e os ondes.

O que acontece, é que, na nossa sociedade ocidental americana, sexo não é conversado, quiçá discutido, livremente. Então, quando eu via que podia responder às dúvidas mais simples de quem estava ao meu redor, passei a ter mais prazer ao saber e falar do assunto. Ora, como homem LGBT+, eu tive que lidar com tudo que achava que sabia sobre mim mesmo. O fato de ter sido criado por uma família religiosa, a culpa cristã exalando em cada poro, e as questões de ter uma origem humilde, em que ninguém teve apreço ou tempo por conhecimento, fizeram minha jornada pessoal precisar de bastante aprendizado para me libertar de conceitos errados. Foi lendo muito artigo (como jovem adulto, dos 22 aos 25) que eu consegui entender que minha sexualidade não estava errada. Eu, mesmo com muita informação, fui me assumir pra mim mesmo muito tarde, já com vinte e cinco anos. E isso era só um começo: as questões da sexualidade experienciada tardiamente são comuns em gays, que acabam desenvolvendo comportamentos de risco para viver uma adolescência tardia. Sem contar coisas como descobrir-se sexualmente com um parceiro. Ainda, relações com o corpo, os pontos sobre a prática sexual em si, a falta de informação especializada sobre vivência e saúde gay, e tantos outros fatores são fundamentais ao entendimento de quem se identifica na sigla LGBTQIAPN+. Se a gente pensar um pouco, isso seria bem esperado, ainda mais num mundo em que o orgasmo feminino foi ‘descoberto’ há poucas décadas pelos homens. Dá pra imaginar, que pro cara que é heterossexual, que nunca teve a sexualidade questionada em si, nem precisou se justificar (para si mesmo ou para outros), que alguém que trate o assunto com naturalidade no dia a dia, isso seja algo potencialmente excessivo. No mais, acabo por ser alguém que gosta do assunto e está aberto a falar sobre. E a ouvir também. 

O que as pessoas esquecem, é que sexualidade permeia tudo. Pessoas queer não seriam mortas se a sexualidade delas não incomodasse. E não é o ato sexual de penetração (considerando que isso é uma modalidade que ocorre) ou qualquer prática que leve ao orgasmo (ou mero gozo). Sexualidade é tudo, bebê. É você se achando bonita ou feio em frente ao espelho. É seu gesto feminino de mexer as mãos e alinhá-las à cintura. É sua carinha fluída que atrai quem tem interesse. É sua masculinidade expressada por sua voz. E, obviamente, todos são fatores lidos pela lente da cultura e sociedade. E se estamos vivos no tempo de agora, nós iremos ser lidos pelo tempo de agora. A sexualidade está no cerne disso tudo. Na roupa, na entonação, nos gestos, na atração, no amor, na foda, no chá de bebê (gente, nós parabenizamos pessoas heterossexuais por terem transado e feito um feto), na forma do beijo, nos componentes do seu DNA. E eu sou só uma pessoa que enxerga sexualidade nisso tudo  — há outras. 

Então, sou eu excessivo, ou esse é só um desabafo inútil? Bem, não acho que desabafos sejam inúteis. Seja como for, eu sempre serei um pouquinho demais. Em alguns dias, bastante; em outros, pouco. Acho que o lance é ter consciência disso. Eu certamente irei comentar sobre sexualidade quando o assunto surgir. E certamente estarei com ouvidos dispostos quando alguém quiser me falar sobre. Preparado para acolher quando for preciso, e partilhar na hora em que for conveniente. Afinal, eu posso ajudar a resolver a dúvida ou a angústia de alguém  — nem que seja para recomendar um profissional. O que importa é que isso faz parte das interações humanas. Sexuadas ou não. No que tange qualquer assunto, eu sempre vou ser demais para alguém. E esse é o custo da convivência. Assim, quanto à sexualidade, concluo que eu só não sou uma ‘orelhinha virgem’. Agora, me conta, e você?
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Brigadeiro de festa

Este texto nasceu de uma conversa com um amigo do trabalho. Bem, isso era o que eu gostaria de dizer, mas está longe da verdade. Afinal, este texto é estrutura, tato, trabalho e esforço trôpego, quiçá, de seu autor. Contudo, a ideia foi concebida em uma conversa no trabalho, tão prazerosa quanto sua guloseima favorita. Embora o tema possua certa ductilidade em sua pretensão, pouco importa, pois é delicioso. Acontece que a conversa vasculhou em minhas memórias sensações de estimado valor, perscrutando reafirmações sobre meu próprio gosto, nessa constante autoavaliação duvidosa que nós nos fazemos só sempre. E sim, meu doce de festa favorito é o brigadeiro. 

Uma mesa decorada com muitas coisas, papéis e embalagens diversas. Enfeites, aqui e acolá, gente ansiosa, “mas não vão cantar parabéns logo?”, vozes tentando sussurrar obviedades que não podem ser ditas, crianças tamborilando pés e mãos e dentes de leite ou permanentes. Se para você esse cenário faz algum sentido, bem-vinda ou bem-vindo ao meu texto. Do contrário… constrangimento  —  ao menos para um dos lados.

Quando eu era pequeno, na década de 90, as pessoas faziam festas de aniversário. Elas aconteciam uma vez por ano (diferente dos “mêsversários” da atualidade) e começavam a partir de uma certa idade, quando a criança pudesse lembrar. Essas festas envolviam uma comoção familiar, em que precisava limpar a casa, liberar espaço, comprar insumos para fazer bolos, doces, salgados, buscando receitas antigas em cadernos, vizinhas, comadres ou compadres. As festas aconteciam, quase sempre, na casa do/da aniversariante, que seria a pessoa central do evento. Assim, o passo seguinte seriam os convites. A começar pelas tias e tios, primos, primas, e então aquela criatura de sexto grau de parentesco que nem se importa com quem faz aniversário, mas fica desolada se não for convidada, até chegar nos amigos e nas amigas que serão selecionadas a acrescentar no quórum de convivas. 

Como de praxe, vamos parar um pouco, quebrar o ritmo do texto e amolar a paciência de quem lê com questões (vamos? Estou falando de mim na terceira pessoa do plural? Estou eu considerando que a criatura que aqui lê estará comigo fazendo reflexões? Uma quebra dentro da quebra?). Vamos, não se aborreça comigo. Continuando! Se você leu os parágrafos acima, certamente viu que eu fiz um recorte de tempo, de classe, de posição social, de crença, de cultura e de idade, e até de alguns outros. Fazer recortes é bom, tanto quanto cortar uma fatia de bolo também o é. Dessarte, é importante salientar o significado disso na realidade: essa não era a realidade de muita gente. Festa de aniversário para pessoas que são órfãs, autistas, cadeirantes, ricas ou tristemente miseráveis são realidades que não conheci e, por isso, sou limitado a esboçar adequadamente aqui. Para além disso, há quem não comemore aniversários, como pessoas testemunhas de Jeová ou pessoas que escolhem não comemorar pois não veem nisso significados. Seja como for, meu texto não é sobre todas e todos, longe disso, é para mostrar um gosto mesmo que pode ser compartilhado contigo ou não. E também para que a gente possa olhar para algo que pode ser corriqueiro e ver que tem muito tempero para apreciar nesse recheio da vida. Seja como for, acho bom você se identificar em que ponto sua existência está no universo dos aniversários. Fez isso? Ande uma casa…

Outro ponto que vou frizar e anunciar antes é que as festas que falei ali eram íntimas. Eram festas em casa, com limitações que as casas podem ter. Não eram salas alugadas em que tudo está pronto e encomendado e limpo, organizado, estéril, infértil, servil e distante. Também são com quitutes feitos em casa, a maioria, sem tantas embalagens, algoritmos de serviço para qual bandeja tem que aquecer e servir primeiro, mandando para o salão. As festas que estou falando são em casa, feitas 100% do esforço amador que deixa as lembranças juntinhas e aquecidas no coração. Claro que não faço juízo de valor sobre serem melhores do que outros modelos de festa. São apenas a minha preferência. E por fim, a festa só tem sentido quando quem aniversaria tem chance de aproveitar a própria festa (sinto muito, se um bebê que nem diferencia sons ainda está numa festa para ele mesmo, ou ela mesma, então a festa é para outra pessoa… talvez para um pai ou uma mãe biscoitar em rede social). Seja como for, uma festa tem que ser festiva. E tem que ter brigadeiro  —  ao menos se for pra mim.

A muvuca que eram as festas são lembranças divertidas. Dá para ver a fofoca ganhar vida, dá para passar vergonha cantando as músicas que sempre são listas peculiares e dá para quase tocar a ansiedade de quem quer comer logo os docinhos. E por falar em docinhos, é difícil dizer qual a gente quer primeiro se tiver variedade. Aqueles pratinhos que a gente empilha montanhas de doces nunca são suficientes para uma única jornada à mesa de doces. É preciso provar por partes. Eu sempre focava nos beijinhos e brigadeiros primeiro. Como nunca fui fã de coco, tem que começar pelo “pior”. Depois vem as delícias de olhos-de-sogra (um nome condenável), os cajuzinhos e os brigadeiros. Depois, dois amores (hummmmm) e brigadeiro (hummmmmm). Caso houvesse presente diversidades como gelatina colorida ou algum creme de maracujá, esse terceiro momento os contemplaria. E a sequência de passos era ir à mesa, pegar os doces, comer longe e repetir. De preferência longe do tio chato e fofoqueiro que fica controlando o quanto você vai comer. O melhor era quando havia mesas de docinhos e salgadinhos distribuídas, assim dava para intercalar aonde ir buscar, sem chamar atenção de parente chato de aniversariante. E sim, eu ia às festinhas para comer mesmo, que é a melhor parte. E por falar em comer (mais ainda), não posso deixar de lado os salgadinhos. Eu era amante dos mini quibes, dando moral de leve às mini-coxinhas. Claro que os amantes de bolinhas de queijo, os mini-croquetes, as mini-empadas, os pasteizinhos assados ou fritos e as empadas. O mundo dos salgadinhos de festa era à parte, e, confesso, minha parte favorita. Primeiro porque vinha antes do bolo, enquanto os docinhos eram liberados depois. Bolo…

Claro que não dá para falar de festa de aniversário e não falar de bolo. De todos, o meu favorito sempre foi o de chocolate com cobertura de chocolate. Na década de 90, era chamado de nega-maluca. E há um sentimento triste em relação à nomenclatura, que faz menção a um estereótipo de mulher negra, pois era meu bolo favorito em minha ignorância  —  quem dera eu puder mudar a história e associar o nome a um novo estereótipo, de mulher negra incrível que super os outros em tudo, tal como o bolo. Obviamente se eu pudesse mudar a história, mudaria outras coisas prioritárias, né? Então vamos superar a romantização de nome de bolo de agride. Em todo caso, esse também era o bolo mais comum nas festas em que fui ou mesmo tive. Assim como o brigadeiro era praticamente unânime. Há uma razão para isso, certamente: chama-se acesso. Se você nunca teve que se preocupar se iria ou não ter uma festa de aniversário até começar sua vida adulta, então esse texto não é para você. Lamento. Se suas preocupações eram com qual doce escolher, qual roupa usar e quem irá cantar na sua festinha, então esse texto também não é para você. Não no sentido de que estou te proibindo de ler  —  jamais, “friend”  —  mas em ser parte dele, de mim para você. Esse presente eu te nego (alguém tem que te negar algo, né?). E voltando a falar de acesso, isso está muito ligado ao sentimento de preciosismo para com essas festinhas. Quem já viu uma mãe e uma tia virarem uma noite, depois de um dia de trabalho, para enrolar brigadeiro e bater um bolo caseiro absolutamente delicioso, para um ser que não sabe o trabalho que dá fazer uma festa “com o que se tem”, sabe muito bem que o gosto desses docinhos são de “valorização”. Quem já viu um pai correr para pegar ingredientes, montar uma mesa e um brinquedo emprestado para que alguém da prole acordasse e pulasse de alegria no dia de seu aniversário, sabe dar valor ao esforço de uma festinha em casa. Quem já se mudou tanto que perdeu a noção dos dias, mas acordou no próprio aniversário com festa de aniversário na cama, com mãe, avó e duas tias, com brigadeiro de panela, coxinha, quibe e um bolo aprendido no dia anterior e tudo feito com muito empenho na madrugada  —  pois o trabalho era muito e o dinheiro nem sempre acompanhava  —  sabe como é uma delícia só ser lembrado quando já se tinha desistido da ideia de “fazer aniversário”. Brigadeiro, meu bem!!! Leite condensado, margarina ou manteiga, achocolatado ou cacau e uma panela. E pode ser o melhor doce do mundo, com significados que o cobrem até o fim dos tempos, granuladinhos. Como não amar?!

E assim como toda festa delícia no mundo chega ao fim, esse texto chegou ao seu final. Confesso que deu fome lembrar de tanta coisa boa. Mas deu mais trabalho pensar que toda a magia das lembranças envolve uma variedade de questões e problemáticas que não se encerram no próprio assunto. E, certamente, não estou invalidando outras formas de festas de aniversário. Só valorizando as que são recheadas de significado. Seja como for, não vejo a hora de poder fazer uma festinha íntima de novo. Pessoas que amamos, em casa, tudo feito à mão se possível (ok, dá pra encomendar alguma coisa de uma doceira local) e música bem estranha pra completar. Acho até que vou chamar o amigo que ajudou a criar este texto datado e combinar uma festinha de aniversário atrasada quando a vacina chegar. Eu fico com os brigadeiros, ele com os cajuzinhos e você com o café.

O dom e as 10 mil horas.

Minha amiga e eu estávamos conversando. Falávamos coisas triviais, de um comum provinciano e, quiçá, bucólico. Durante o diálogo, a irmã dela tornou-se assunto fazendo minha interlocutora lançar a seguinte afirmação: “Minha irmã desenha muito bem, cara! É dom!!!” Obviamente, eu discordei no instante seguinte. Mas ela insistiu: “Não, é dom sim!!! Veja bem, ela desenha desde pequena, todo dia, sabe?! E olha, ela ficou boa. Consegue capturar detalhes e fazer estilos diferentes. Sem ninguém a ensinar… Só pode ser dom!!!” Desisti de argumentar naquele instante (devemos conhecer batalhas perdidas, principalmente quando o momento não é adequado). Contudo, decidi escrever sobre aquilo que me mostram como “dom”. E não, minha amiga, não há isso em sua irmã.

sucesso-diferencas
Anos de prática… só poderia ser um dom?

Antes de esmigalhar expectativas agressivas, quero confessar que também já fui adepto de ideias simplistas, como “se alguém é muito bom (excepcional) em algo, é dom”, e isso não é necessariamente ruim. Afinal, faz-me entender um pouco a concepção de quem afirma tal ‘fenômeno”. Entretanto, ressalto que meu pensamento simplório consistia na falta de reflexão e numa zona de conforto estável, na qual bastava justificar algo com uma “não explicação” para não precisar me esforçar de verdade. Ainda, lembro que já acreditei em coelho da páscoa, Papai Noel e que leite com manga matava. Desse modo, podemos retomar a ideia central, de que dom é uma ladainha absurda.
Quando ouço coisas do tipo “tal garoto desenha muito bem, tem dom imenso”, “aquela bailarina tem o dom, mesmo”, “você tem o dom do conhecimento, por isso sabe tanto”, “você cozinha assim porque tem um dom”, eu fico oscilante entre tristeza e ira. No mau português fico enfurecido com “p”. Sabem por quê? Porque essas afirmações são absolutamente ofensivas. Além disso, essas frases têm mais coisas em comum: redundância abusiva dentro de um texto, uma visão restrita e superficial e uma desvalorização do esforço das pessoas que conseguem algum grau de excelência (ou mero destaque) naquilo que fazem bem. A grande verdade é que nunca ouvi uma história que realmente demonstrasse a noção de dom do senso comum, ou seja, nenhuma manifestação instantânea de habilidade que brotasse do próprio nada. Muito menos, a aquisição de técnicas sem uma enorme quantidade de esforço e energia envolvidos. Voltando à conversa com minha amiga, no momento em que ela proferiu “ela desenha desde pequena, todo dia” [acho que tinha um quase nessa frase… Faria todo sentido], a explicação já estava inclusa. A simples ideia de que alguém é bom em algo simplesmente porque “recebeu” isso, ou mesmo “herdou”, é absurda. Não passa de uma muleta.

muletas
Vou usar seu dom como uma desculpinha para minha preguiça…

Ao olharmos para os exemplos ao nosso redor, percebemos a coisa mais fantástica possível: todos podem ficar bons em algo, contanto que o pratiquem muito. Pense em todos os neuro-cirurgiões… Será que cada um deles nasceu dominando movimentos acurados? Ou tiveram que treinar muito para usar cada ferramenta, fazer cada incisão, sutura, curativo, avaliação, aprender a responder de acordo com o que o paciente está passando, para só então tentarem tudo isso numa cabeça humana e, muito tempo depois, tornarem-se bons, seguros, confiantes e até mesmo referência em suas áreas? A segunda opção parece mais palpável, não é? Mas a primeira pode ser mais gostosa de engolir. E isso é perigoso.
Sempre que alguém me fala que tenho o dom de cozinhar, visualizo um filme, mentalmente, de quando fiz um nhoque que virou um bloco gigante de massa cozida, ou quando incendiei a cozinha tentando fazer batata frita, das vezes em que assei carne e ora ficava antes do ponto [crua], ora seca e esturricada [eca!]. Passam também todas as
cenas das sobremesas fracassadas, em consistência ou sabor. O mesmo acontece quando falam sobre meu dom para escrever. Quem diz isso não tem ideia de quantas horas gastei lendo, escrevendo e reescrevendo textos de todo tipo. Não sabem que gastei um dia inteiro em uma maldita redação, durante o cursinho pré-vestibular, para que ela ficasse meramente adequada. Não consideram minhas horas de frustração por não entender quando o verbo é substantivado e as orações assindéticas que ficam sindéticas ao menor descuido. E as horas em claro, madrugadas a fio, escrevendo e revisando relatórios? As correções duras das professoras que queriam uma melhora minha? Nada disso é considerado. NADA!!! E a história não carece de exemplos: Beethoven estudou muito de música e fez um esforço absurdo, para mesmo surdo, continuar compondo e tocando; Jimi Hendrix calejou os dedos antes de ser reconhecido; Paul Bocuse não nasceu salteando, ele teve que aprender tudo aquilo que hoje ele ensina; Leandro Karnal gastou horas quase incontáveis, para muitas pessoas, lendo até dominar certos conhecimentos; Da Vinci era curioso e incansável na busca por novos aprendizados; Fiódor Dostoievski precisou ser alfabetizado e praticar bastante antes de tornar-se um marco na literatura. Nenhum desses, nem de outros exemplos, teve habilidades prontas, livres de prática ou treino. O contrário, contudo, é verdade – eles desenvolveram suas habilidades através do esforço excepcional que fizeram. Isso é muito mais surpreendente do que o “presente pronto” nas ideias de um senso comum.

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Praticar envolve lidar com fracasso. Quem sequer tenta, não fracassa…

Falar que alguém tem dom é o mesmo que caluniar essa pessoa. Acusá-la de preguiçosa. É afirmar que seu esforço para aprender e melhorar qualquer coisa vale tanto quanto o nada, pois ela já tem esse “algo pronto”, da mais bizarra origem que alguém puder pensar. Imputam-na de marasmo, indolência e madraçaria. E tudo isso é deveras triste. E o motivo para isso é simples: uma muleta. A ideia preconcebida sobre um talento nato e um diferencial herdado, ou recebido [dom], serve como remédio paliativo à preguiça de quem não quer se esforçar. Encabeça o hino dos indolentes. E isso é árduo de aceitar. Afinal, concordar com a ideia de que alguém só não é bom em algo porque não se esforça o suficiente pode dar calafrios. Mas é a mais pura realidade. Se uma pessoa tem condições e acesso a determinado tipo de prática (cozinhar, escrever, pensar, dançar, calcular, computar…) e não é minimamente boa, por desleixo ou descaso, então é bom ter uma desculpa à altura de sua sornice. No fim das contas, a pessoa comum não quer sair do conforto do pseudo-ócio [ócio verdadeiro é útil] para a rotina desgastante que pode torná-la boa em alguma coisa. Evidentemente que tal situação é aceita pela maioria – ao menos no Brasil que conheço, e noutros lugares para os quais viajei. A aceitação da mediocridade, do atraso, do suficiente, do “bom o bastante” e não do “bastante bom” é o que retroalimenta essa condição. Então o ser vulgar não se permite aceitar que não seja por dom que fulano canta tão bem e ciclano faz dissertações incríveis. É preciso ter dom para ser bom e aceito. As milhares de horas de dedicação de nada servem às mentes cativas. Pois quem se esforça tem dificuldade, e ter dificuldade é algo que quem tem dom não tem, e quem tem dom é melhor naquilo, justamente por tê-lo. O que não tem o menor cabimento.

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Aprimoramento não é algo fácil.

Felizmente, há outro lado. Quem melhora suas próprias capacidades, sabe o valor do empenho constante e não precisa de desculpas para repetir infinitamente uma mesma atividade, até que consiga dominá-la. Há até quem possa ter mais facilidades para algumas coisas, mas essa mísera vantagem desaparece à medida em que se aprofunda naquilo. Destarte, cabe a toda pessoa dedicar seu tempo aprimorando aquilo que desejar. O processo é lento, constante e laborioso. E ser excepcional está longe de ser o melhor em algo, mas, perto de superar limites e fazer coisas incríveis. E cada minuto é valioso [que piegas, não é?!]. Afinal, a diferença entre quem faz muito bem alguma coisa e quem não a faz direito está na quantidade de horas investidas. Da próxima vez que pensar que seu amigo desenhista é bom por dom, faça uma conta: se ele tiver 20 anos e investiu 1 hora por dia desenhando desde seus 4 aninhos, serão 6205 horas de prática. E certamente ele deve ter investido bem mais que isso. Então repense se acha justo chamar isso de dom. Talvez ele prefira um adjetivo mais coerente. E aqui, qualquer “extraordinário” já é formidável.
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A imoralidade do pão com ovo  

Não foram poucas as vezes que eu escutei afirmações discriminativas sobre minha comida. Comida chique, comida de pobre, comida de rico, de hipster, executiva, infantil, complicada (essa é, particularmente, muito boa) e algumas outras. Acho muito incrível que algumas pessoas vêem, nitidamente, essa distinção. Assim, penso na inutilidade de tal segregação aplicada, diretamente, sobre a comida. Mais curioso é que alguns assumem, como mandamentos, que não comem determinado tipo de comida, partindo de argumentos como  “isso é chique demais para mim”, “eu não vou comer isso, coisa de quem não tem condições” ou mesmo “isso é comida de bicho”. Eu adoraria perguntar aos “estômagos” dessas pessoas: você nota o quanto é gasto num prato? O que você acha ao comer o mesmo alimento que um animal de outra espécie come? Você acha que esse tomate valeu o investimento? Quando você come algo de outra classe, o que você faz para digerir? Se pudesse responder, certamente manifestaria, claramente, confusão com tais perguntas.

Prato feito (PF) - Alvo de intolerâncias contraditórias.
Prato feito (PF) – Alvo de intolerâncias contraditórias.

Tais “argumentos” (se é que poderia chamá-los assim) são, no mínimo, um delírio. Primeiro, porque muitos desses juízos não passam de uma interpretação intolerante da própria cultura, assumindo uma dicotomia inexistente ao cerne da comida, do comer, da vida e da gastronomia. É bastante compreensível que a comida seja influenciada, em sua criação e em seu consumo, pela cultura que a cerca e representa. Entretanto, não consigo aceitar (ou melhor, tolerar) essa “ladainha” de que comida pode ser distinguida entre pobre e rica, como se fosse mais um divisor de classes. Mas, antes de discorrer minha discordância, farei algumas colocações.

A primeira coisa é assumir que a alimentação é inerente ao ser humano, participando e construindo imensamente na caracterização cultural. Isso não pode, de maneira nenhuma, ser ignorado. Contudo, a segmentação de que tal prato ou receita sejam de determinada “casta” não passa de absurdos. Somos os mesmo animais, com as mesmas necessidades e a mesma capacidade de apreciar algo que possa ser bom. Isto posto, é importante ressaltar um segundo ponto: somos indivíduos com memória – memória gustativa — responsável por boa parte das nossas escolhas alimentares, sem saber o preço do prato, muito menos importando-se se outro bicho se alimenta daquilo. No máximo, influenciará na “sensibilidade gustativa”, ao saber que aquilo “é melhor” – como se fosse um alimento para o seu escopo pessoal. Eu simplesmente não aceito tão ridícula divisão, que rotula de maneira burra, diluindo a importância real da comida. Comer envolve outra perspectiva.

Sou "caipira" demais para comer essas coisas chiques... Tá bom?!
Sou “caipira” demais para comer essas coisas chiques… Tá bom?!

O mais relevante na gastronomia é a experiência. Nesse quesito repousa o grande significado, a maior resposta, o verdadeiro destino dos comensais. Não há preço que melhore o cheiro dum ovo de mil dias, quiçá a textura de um escargot ou a sensação aveludada de um bom pudim. As estrelas de um restaurante não substituem os sabores da infância, o prato do primeiro beijo, o pedaço de bolo feito por sua mãe, naquele dia em que tudo parecia sem gosto. Desse modo, podemos listar inúmeros alimentos, consumidos de diversas formas e por diversas pessoas que, graciosamente, quebra essa moral imposta. Qualquer que seja a idade, a renda, etnia ou tribo, é possível encontrar um alimento, transformado em prato, que será transcrito como experiência feliz.

Cheiro e textura exageradamente distintos.
Ovo de mil dias: Cheiro e textura exageradamente distintos.

Nesse ponto temos o pão, quase um rei dos alimentos acessíveis, customizados, incorporados, modificados, adaptados, inclusos, caros, baratos, sofisticados, simples, anacrônicos e do que mais o pão quiser. Pão é pão e é irredutível, capaz de acolher gostos tão distintos quanto suas possibilidades. Não obstante, temos um grande aliado em congruência, “divacidade” e deliciosidade que, outrossim, faz papilas saltitarem: o ovo. Ambos são magnânimos na gastronomia, protagonizando entradas, guarnições e sobremesas. Colorem os lanches da tarde e enriquecem cafés da manhã, indecorosos às dietas e às afirmações pífias de que comida se divide em avaliações rasas. Juntos, chegam à soberba, com gosto eloquente e conceito humilde. Eis que temos o pão com ovo – e que os veganos me desculpem, mas não posso diminuir o significado desse insumo.

Tão bom...
Tão bom…

Penso que muitos possam ficar desacreditados com minha afirmação. Mas acalmem-se, eu explicarei. O pão com ovo é imoral à moral que defini, naquilo que observei. Simples assim. Ele é fácil de fazer e de agradar. Serve para gostos distintos, feito com diferentes ingredientes, tipos e técnicas de cocção. Pense numa ciabatta inundada pela gema suculenta do ovo, agregando cor e somando gosto ao sanduíche. Talvez prefira ovos mexidos com um pão caseiro tostado na manteiga, fazendo a manhã se render na sua boca. Ainda, há quem resista à maciez de um pão de leite com ovos mexidos cremosos?! É preciso certo esforço. Como não querer um pão francês com ovo na chapa, um croissant recheado com ovos picantes ou poché com pão australiano?! Dessa forma, quem pode afirmar qual é menos importante, mais chique ou “tribal” que outro? Além desses, outras delícias rebelam-se contra essa moral deturpada, como o brigadeiro, o macarrão, a coxinha, as farofas, os bolos, as compotas e muitas outras formas de prazer e experiência.

Do boteco à cozinha de Alain Ducasse, comer é uma experiência, que pode ser positiva em qualquer lugar. Tudo depende do quão disposto você está em aproveitar e do quão justo fora a forma como conseguiu. A comida pode se encaixar como simples, trivial, alta, baixa ou gourmet (que certamente serão tópicos futuros), mas nenhuma é melhor que a outra, ao tratarmos da experiência em potencial. Assim, é inconcebível se limitar por noções distorcidas. Independente do tamanho da fome, cabe a você render-se a sabores novos, apreciar antigos ou sentir o gosto presente. Qualquer posição limitadora é desnecessária. Bem como aquela moral.

A dinastia do “mu” e a loucura das vacas

O dia foi cheio, como de praxe. Não tão produtivo, quanto cheio, mas é a vida. Sento em frente ao PC e adentro na rotina, de praxe e de redundância, para ler, ouvir, escrever e conjugar vários verbos no infinitivo, que imperam minha vida à escrivaninha. Assim, navegando com aleatoriedade pelas páginas, caio em vários contextos inundados de assuntos e argumentos “mu”. Desisto ­momentaneamente. Não tenho paciência para tanto mu, ainda mais se o dia que os precedeu fora cansativo. Desse modo, pego o celular – unidade de distração e entretenimento, que também recebe ligações. Abro os aplicativos das redes sociais, pra ver nada de novo. E muitos mus.

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Vamos explicar…

Muito bem, prevejo que muitos não ligarão a referência do “mu”. Para quem não sabe, um argumento mu é aquele que não significa nada, que não faz diferença, que não altera a vida, aquilo que nem tem significado muitas das vezes. Exatamente como a opinião de uma vaca: um “mu”. Além disso, é uma referência à FRIENDS, uma série apaixonante, na qual o personagem Joey explica o que é o argumento mu. Pois bem, penso que todos estejam situados ou, ao menos, tenham entendido.

Depois de tudo esclarecido, voltemos aos mus que me fizeram sair do computador, acessar redes do meu celular e geraram-me a ideia para este texto. A questão é que considero completamente absurdo o fato de tanta gente dar tanta importância aos assuntos mu. Pode até ser divertido discutir qual a cor do vestido, a importância existencial do paredão do BBB, o álbum vazado da Katy Perry ou da Marina and the Diamonds, a fantasia da Globeleza ou o resultado dos campeonatos estaduais de futebol.  Ou mesmo o júbilo dos “quilos” de paus de selfie que necessariamente devem ser compartilhados, das postagens constantes das lamentações relevantíssimas dos problemas da classe média alta, das emputeções completamente racionais sobre a defecação dos cachorros dos vizinhos na grama do prédio, das injustiças absolutamente injustas que afligem exclusivamente quem as têm (claro, né?!), dos comentários bem construídos em qualquer artigo, vídeo ou foto na internet, e de toda ideologia de boteco que muitos amam pregar (mas apenas pregar). Isso cansa, desgasta e desanima. E não pense você, caro leitor, que eu esteja atacando a trivialidade da vida ou sugerindo que todo mundo viva numa utópica de produção constante, buscando o bem da humanidade e do mundo. O cotidiano é importante, e muito. É que essas coisas não alteram significativamente a vida das pessoas. Além disso, não se pode esquecer que os impostos, as reuniões regionais para o planejamento dos bairros, as pesquisas científicas para desenvolver novos medicamentos ou aumentar a qualidade de vida, os conceitos de ética, os livros, a arte, a educação, a segurança, as reuniões avaliativas para o serviço de saúde e mais uma série de outros assuntos, quase virgens de tão pouco tocados pela massa que também os vive, fazem parte desse mesmo cotidiano. As decisões políticas e o surgimento de um novo remédio impactam a vida de todos. Então, por que “lúcifers” não recebem atenção igual ao vestido que muda de cor? Nem o conhecimento por trás do vestido ganha atenção, afinal, a partir do momento que surge uma explicação, fica chato, pedante, desgostoso, difícil… Ou mesmo a pesquisa do Miguel Nicolelis, que só teve foco por segundos efêmeros na copa mundial de futebol? Todos esses anos, nos quais ele se dedicou à pesquisa, não foram relevantes? Há uma desvalorização significativa para tais assuntos. Para qualquer coisa que não seja muito fácil, muito acessível.

Aí, chega alguém e pergunta: mas por que isso está assim? Bem, é porque vivemos na dinastia do mu. Chegamos, como espécie, a uma era esplêndida, da qual podemos extrair muito conhecimento, acessar diversas fontes de informação e compartilhar, em tempo real, da cultura global. Entretanto, o mu imperou. Nada que não seja superficial é inibido. Estudar cansa e não é algo que se deva fazer por prazer. Ler prazerosamente é uma atividade destinada aos livros de romances, quadrinhos e revistas. O jornal é coisa do passado, pois a dedicação deve ser exclusivamente on-line, para notícias curtas, preferencialmente compartilhadas em links mais concisos, atrativos e passíveis de confusão. O mu não deve ter significado, ora. E nessa dinastia, até a política foi devorada por coxismos e mortadelices, girando em suposições pouco explicadas. A saúde é para os enfermos e os pobres, não é uma preocupação de quem está saudável, exceto se for famoso, rico e obeso, pois isso é mais importante do que qualquer doença vulgar.  A gastronomia é uma piada pra gourmetização, sem nenhuma preocupação com movimentos que tentam desenvolver uma cultura igual aquelas europeias, admiradas por piadistas do raio gourmetizador. O nicho nerd é mercado fútil para vender camisetas de heróis só conhecidos nas adaptações do cinema.  Não escapam áreas do poderio do mu. Tudo deve ser consumido pelo superficialismo facilitador.

Assim, vivendo nessa vida tragada pelo turbilhão de mus, eu tenho pena das vacas. Ora, decretar que “mu” é um argumento pouco significativo é usar as vacas como referência à ignorância. Entretanto, as coitadas não têm culpa alguma daquilo que fazemos. Foram escravizadas como animais-comida, podendo assim reproduzir-se desenfreadamente – o que aumenta consideravelmente a emissão local de gases na atmosfera – ao passo que não têm perspectiva alguma sobre a natureza em si. Ainda, sofrem de uma ambiguidade existencial profunda, na qual são comida e animais de culto. Pense só, se a vaca nasce na Índia ela é privilegiada por toda a vida, enquanto as que nascem na Europa ou na América serão pobres coitadas devoradas ou, pior ainda, desperdiçadas como vida e como alimento. Viver como vaca é viver em conflito. É passar a vida à vontade alheia de quem só quer sua produção, sem se importar com o que você quer fazer com as próprias tetas. Acho que toda vaca queria ser só “de estimação” nessa concepção limitada que lhes é assegurada. Imagine só, como é difícil ser vaca. Nessa dicotomia de certo e errado, onde não é possível ser vegetariano sem ser chato, onívoro sem ser mau e irônico sem ser ofensivo. É enlouquecedor. Talvez essa loucura delas tenha desenvolvido as doenças de uma própria loucura. Seja uma proteína descontrolada ou uma bactéria mais resistente, são essas as tentativas de revolta. Isso porque não ensinaram o suicídio pras vacas…

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Claro que isso acontece somente com as vacas. Elas são burras, inferiores, minoria e devem ser subjugadas, não é?! Não que seja bem assim, mas também não deixa de ser… Depende de como você enxerga o quadro. Ou do quanto do quadro você enxerga. Se eu fosse vaca, eu estaria louco. Ou eu estou louco. Ou estou vaca?! Só sei que a dinastia prossegue. E nesse turbilhão de mus, divididos entre essas duas espécies, um deles é mera comunicação animal. O outro é de quem se negou a escolher. Um tipo mais nocivo de gado.

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Deu “tilt”?! Bem vind@…