Era algum dia em 2011. Eu já não lembro o motivo exato, mas estávamos indo na casa de um dos integrantes daquele grupo. Que grupo? Bem, eram supostos amigos novos e eu. Acho que estávamos saindo de algum bar, barra, balada. Enfim, era madrugada e cruzávamos o bairro Alto da Glória de Curitiba, para chegar ao apartamento do meu amigo. Durante o caminho, fomos interceptados, muito de surpresa, por um grupo de torcedores do coritiba (sim, com letra minúscula, pois não faço questão de nome próprio para qualquer coisa). Os caras achavam que éramos de outra torcida organizada e queriam brigar. Felizmente, nada aconteceu, nós nos apressamos e chegamos no apartamento. Pensando bem hoje, aquele momento foi um risco desnecessário, porque um dos meninos estava gritando e chutando uma caixa de papelão (coisa que eu tinha sugerido para não fazer) e isso atraiu os abissais da torcida organizada. Pois é, gente que gosta de perder tempo atrai quem gosta de perder tempo. Críticas de lado, nós estávamos no apartamento e com muita fome. Não tínhamos dinheiro suficiente para pedir comida, além de ser madrugada, que por si só já é um limitante para estabelecimentos abertos. Assim, eu me propus a cozinhar algo (ser o único a se propor nem chegou a me chocar, mas ser o único que parecia saber cozinhar, isso me pareceu bizarro). Na casa tinha uma cebola, macarrão, leite, margarina, um nada de farinha de trigo e sal. Basicamente nada, mas deu para improvisar um molho branco e um macarrão.
Durante o preparo, eu fui cortar cebola. A faca que me foi dada não tinha fio. Sim, ela tinha um lado em que era possível imaginar um fio. Talvez fosse um fio platônico ou algo do tipo. Eu estava cansado, e o tijolo chamado faca estava esmagando a cebola e me fazendo chorar (o melhor favor daquele dia, pensando bem). Além de mim, havia mais outros jovens: o anfitrião, que estava focado em beber álcool; um amigo dele, que dizia ser bissexual e por quem eu tinha um “crush” leve; um cara com nome de três letras que fazia muito barulho; um outro cara que gostava de se gabar; e um último ser era um jovem que falava incansavelmente, sobre qualquer coisa, desde que fosse uma forma de reclamação. Nenhum deles ajudou a preparar, apenas um agradeceu, nenhum lavou a louça, todos reclamaram de alguma coisa. Além disso, eles eram um grupo de amigos entre si. Eu era um forasteiro. Pois bem, esse evento ficou no passado (como todos os outros, né?!)

Quando a amiga reclama até do ar que respira, mas faz zero coisas pra mudar. E você DEVE deixá-la reclamar pra você.
Agora vamos mudar um pouco o assunto. Prometo que logo volto ao relato e chegarei ao motivo de tê-lo escrito. Vamos falar sobre amizades. Você, caso tenha amigos ou amigas ou ambos, deve achar isso bom [amizade]. Ter alguém com quem você possa conversar, ser você mesmo, trocar ideias, viver momentos ou passar tempo de qualidade, é algo maravilhoso — somos seres sociais, enfim. Contudo, já parou para pensar por que você tem as amizades que tem? Acho que essa pergunta pode dizer bastante sobre quem somos e como vivemos. Mas vamos mais fundo. Vamos de contextualização.
Quero que você imagine alguém que é introvertido ou muito tímido. Alguém que não se aproxima muito facilmente de gente desconhecida. Agora imagine esse comportamento durante parte longa da vida. Acho que dá pra imaginar que a pessoa que for assim terá, muito provavelmente, uma sensação de ser sozinha ou de estar sozinha, caso não faça amizade com outrem. Agora, imagine que um dia, uma outra pessoa chegue nesta que é introvertida e se aproxime. De repente elas começam a passar tempo juntas e formar uma amizade. Legal né? Agora, e se essa outra pessoa, a que foi falar com a introvertida, é, na verdade, alguém bastante mandona, egocêntrica e que só quer outras pessoas perto para que possa delegar funções em sua vida. Será que a introvertida notaria esse lado ruim? E outra, será que ela se afastaria de alguém ruim, já que não tem outras amizades? Agora comece a pensar que tudo isso tem muitas camadas de complexidade. Ainda, pense em quantos tipos de pessoas enxergam amizade quando não há qualquer coisa além de abuso — imagine um traficante que se faz amigo de alguém em situação vulnerável, por exemplo. Não precisamos pensar em coisas extremas, mas elas são mais fáceis de entender e notar. Quanto a amizade é uma relação abusiva e sutil, a gente deixa passar. De fato, nós podemos deixar muita coisa passar, dado que tenhamos consideração por alguém. E isso pode ser terrível.
Sabe quando você está cercado de pessoas e mesmo assim se sente sozinho? Caso não saiba, isso existe. Eu era uma pessoa assim. Fui assim durante bastante tempo. Eu tive épocas com amigos que não queriam saber o que eu queria fazer, exceto o que eu queria fazer dentro do que eles quisessem fazer. Chato, né? O grupo que eu citei nos dois primeiros parágrafos navegava nessas águas turbulentas. Nenhum deles se importava comigo, exatamente. Eu não estava incluído. Eu só estava junto. Felizmente, novamente, eu cortei o contato. Eu já tinha passado por vários momentos de conflito e confronto com supostas amizades, com quem eu sofri luto de perda e pude aprender bastante. Amigos têm que te deixar à vontade para que você possa ser você mesmo. Tem que ter liberdade para discutir, discordar e crescer juntos. Deve ser uma “via de mão dupla”. Amizade não deveria te cansar, te exigir, te exaurir e não te fornecer uma troca justa (de emoções, de tempo, de concessões, de sentimentos, de tudo que for possível). Seja como for, esses exemplos todos vêm da minha experiência. E eu tive muitas formas de amizade durante meu crescimento como pessoa. Agora, e quem não teve? E quem teve pouquíssimos amigos ou amigas durante a vida? Como saber se esses amigos ou essas amigas são boas para você? Aqui está uma boa pergunta, não acha?
Existe uma série que eu amo, chamada Being Erica. É uma série canadense, em que a protagonista faz tratamento com um psicólogo que permite reviver, literalmente, seus momentos de arrependimento na vida. Num dos episódios, ela é confrontada com a ideia de que a relação dela com uma certa amiga é ruim. Ela leva um bom tempo para perceber que a outra não se importava com ela e usava da protagonista para fazer suas próprias coisas. E é mais ou menos por aí que eu gostaria de chegar. A gente muitas vezes se apega a quem não nos dá um pingo de valor. Essa afirmação, mesmo que pareça um recorte de livros de autoajuda dos anos 90, é sobre algo corriqueiro. E a gente não quer parar pra pensar sobre o quanto nossas queridas amizades podem nos ser nocivas. Ou será que pensa? Ainda, e se a gente for esse amigo nocivo a alguém? Responsabilidade emocional é algo que podia ser mais disseminado. Não é porque faz gozar, que vale mais do que meia hora.
Acho que esse texto não foi dos melhores. Mas quem sou eu para alegar isso, ainda mais no próprio texto, não é mesm?!. Eu digo isso porque eu permeei por assuntos diversos e só pincelei minhas visões. Fique à vontade para discordar e escrever em seu próprio blog a respeito do assunto. Sinceramente, o assunto é bastante complicado, muito complexo e eu não sou especialista para tecer certezas aqui ou em qualquer lugar. Porém, se a gente tiver que ser especialista sobre tudo antes de tomar decisões, ninguém vai viver mais um único minutos. Então não é bem por aí. Entretanto, cada um tem sua própria história (obviamente) e, possivelmente, sua própria noção de amizade boa ou profícua. E, qualquer um, às vezes, pode estar cercado por quem não faz sentido, achando que está com amigos novos. Pode achar até que está se divertindo, quando na verdade está assustado porque eles não o ouvem e chutam caixas de papelão que irá atrair facínoras uniformizados. E isso não é bom. Bom é ter amigos que te escutam, que prestam atenção, que fazem por você o que eles podem e você faz o mesmo por eles, e cuja relação é mutuamente benéfica. Da próxima vez que te convidaram para ir num bar qualquer e depois disso forem para algum lugar, e reclamarem de você sem terem feito qualquer coisa para sanar quaisquer problemas possíveis, simplesmente desapegue. Você não merece menos do que uma relação de igualdade. Ao menos eu gosto de pensar que sim. No mais, há tipos diferentes de amizade, cuja distinção eu não fiz aqui neste texto não tão bom assim. Mas não serei eu quem falará de todas elas. Eu escreverei só sobre o que eu quiser e puder. Na próxima vez eu trarei um texto bom, que fale sobre comida. Texto bom é sobre comida — e até o macarrão deste texto estava ruim. c[_]








