A dinastia do “mu” e a loucura das vacas

O dia foi cheio, como de praxe. Não tão produtivo, quanto cheio, mas é a vida. Sento em frente ao PC e adentro na rotina, de praxe e de redundância, para ler, ouvir, escrever e conjugar vários verbos no infinitivo, que imperam minha vida à escrivaninha. Assim, navegando com aleatoriedade pelas páginas, caio em vários contextos inundados de assuntos e argumentos “mu”. Desisto ­momentaneamente. Não tenho paciência para tanto mu, ainda mais se o dia que os precedeu fora cansativo. Desse modo, pego o celular – unidade de distração e entretenimento, que também recebe ligações. Abro os aplicativos das redes sociais, pra ver nada de novo. E muitos mus.

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Vamos explicar…

Muito bem, prevejo que muitos não ligarão a referência do “mu”. Para quem não sabe, um argumento mu é aquele que não significa nada, que não faz diferença, que não altera a vida, aquilo que nem tem significado muitas das vezes. Exatamente como a opinião de uma vaca: um “mu”. Além disso, é uma referência à FRIENDS, uma série apaixonante, na qual o personagem Joey explica o que é o argumento mu. Pois bem, penso que todos estejam situados ou, ao menos, tenham entendido.

Depois de tudo esclarecido, voltemos aos mus que me fizeram sair do computador, acessar redes do meu celular e geraram-me a ideia para este texto. A questão é que considero completamente absurdo o fato de tanta gente dar tanta importância aos assuntos mu. Pode até ser divertido discutir qual a cor do vestido, a importância existencial do paredão do BBB, o álbum vazado da Katy Perry ou da Marina and the Diamonds, a fantasia da Globeleza ou o resultado dos campeonatos estaduais de futebol.  Ou mesmo o júbilo dos “quilos” de paus de selfie que necessariamente devem ser compartilhados, das postagens constantes das lamentações relevantíssimas dos problemas da classe média alta, das emputeções completamente racionais sobre a defecação dos cachorros dos vizinhos na grama do prédio, das injustiças absolutamente injustas que afligem exclusivamente quem as têm (claro, né?!), dos comentários bem construídos em qualquer artigo, vídeo ou foto na internet, e de toda ideologia de boteco que muitos amam pregar (mas apenas pregar). Isso cansa, desgasta e desanima. E não pense você, caro leitor, que eu esteja atacando a trivialidade da vida ou sugerindo que todo mundo viva numa utópica de produção constante, buscando o bem da humanidade e do mundo. O cotidiano é importante, e muito. É que essas coisas não alteram significativamente a vida das pessoas. Além disso, não se pode esquecer que os impostos, as reuniões regionais para o planejamento dos bairros, as pesquisas científicas para desenvolver novos medicamentos ou aumentar a qualidade de vida, os conceitos de ética, os livros, a arte, a educação, a segurança, as reuniões avaliativas para o serviço de saúde e mais uma série de outros assuntos, quase virgens de tão pouco tocados pela massa que também os vive, fazem parte desse mesmo cotidiano. As decisões políticas e o surgimento de um novo remédio impactam a vida de todos. Então, por que “lúcifers” não recebem atenção igual ao vestido que muda de cor? Nem o conhecimento por trás do vestido ganha atenção, afinal, a partir do momento que surge uma explicação, fica chato, pedante, desgostoso, difícil… Ou mesmo a pesquisa do Miguel Nicolelis, que só teve foco por segundos efêmeros na copa mundial de futebol? Todos esses anos, nos quais ele se dedicou à pesquisa, não foram relevantes? Há uma desvalorização significativa para tais assuntos. Para qualquer coisa que não seja muito fácil, muito acessível.

Aí, chega alguém e pergunta: mas por que isso está assim? Bem, é porque vivemos na dinastia do mu. Chegamos, como espécie, a uma era esplêndida, da qual podemos extrair muito conhecimento, acessar diversas fontes de informação e compartilhar, em tempo real, da cultura global. Entretanto, o mu imperou. Nada que não seja superficial é inibido. Estudar cansa e não é algo que se deva fazer por prazer. Ler prazerosamente é uma atividade destinada aos livros de romances, quadrinhos e revistas. O jornal é coisa do passado, pois a dedicação deve ser exclusivamente on-line, para notícias curtas, preferencialmente compartilhadas em links mais concisos, atrativos e passíveis de confusão. O mu não deve ter significado, ora. E nessa dinastia, até a política foi devorada por coxismos e mortadelices, girando em suposições pouco explicadas. A saúde é para os enfermos e os pobres, não é uma preocupação de quem está saudável, exceto se for famoso, rico e obeso, pois isso é mais importante do que qualquer doença vulgar.  A gastronomia é uma piada pra gourmetização, sem nenhuma preocupação com movimentos que tentam desenvolver uma cultura igual aquelas europeias, admiradas por piadistas do raio gourmetizador. O nicho nerd é mercado fútil para vender camisetas de heróis só conhecidos nas adaptações do cinema.  Não escapam áreas do poderio do mu. Tudo deve ser consumido pelo superficialismo facilitador.

Assim, vivendo nessa vida tragada pelo turbilhão de mus, eu tenho pena das vacas. Ora, decretar que “mu” é um argumento pouco significativo é usar as vacas como referência à ignorância. Entretanto, as coitadas não têm culpa alguma daquilo que fazemos. Foram escravizadas como animais-comida, podendo assim reproduzir-se desenfreadamente – o que aumenta consideravelmente a emissão local de gases na atmosfera – ao passo que não têm perspectiva alguma sobre a natureza em si. Ainda, sofrem de uma ambiguidade existencial profunda, na qual são comida e animais de culto. Pense só, se a vaca nasce na Índia ela é privilegiada por toda a vida, enquanto as que nascem na Europa ou na América serão pobres coitadas devoradas ou, pior ainda, desperdiçadas como vida e como alimento. Viver como vaca é viver em conflito. É passar a vida à vontade alheia de quem só quer sua produção, sem se importar com o que você quer fazer com as próprias tetas. Acho que toda vaca queria ser só “de estimação” nessa concepção limitada que lhes é assegurada. Imagine só, como é difícil ser vaca. Nessa dicotomia de certo e errado, onde não é possível ser vegetariano sem ser chato, onívoro sem ser mau e irônico sem ser ofensivo. É enlouquecedor. Talvez essa loucura delas tenha desenvolvido as doenças de uma própria loucura. Seja uma proteína descontrolada ou uma bactéria mais resistente, são essas as tentativas de revolta. Isso porque não ensinaram o suicídio pras vacas…

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Claro que isso acontece somente com as vacas. Elas são burras, inferiores, minoria e devem ser subjugadas, não é?! Não que seja bem assim, mas também não deixa de ser… Depende de como você enxerga o quadro. Ou do quanto do quadro você enxerga. Se eu fosse vaca, eu estaria louco. Ou eu estou louco. Ou estou vaca?! Só sei que a dinastia prossegue. E nesse turbilhão de mus, divididos entre essas duas espécies, um deles é mera comunicação animal. O outro é de quem se negou a escolher. Um tipo mais nocivo de gado.

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Deu “tilt”?! Bem vind@…

Uma viagem… e gastronômica!

Antes que você, leitor, perscrute o blog numa busca infalível sobre conhecimentos ou referências gastronômicas, quero que entenda (e possivelmente compartilhe) a forma de pensar deste que escreve. Não vejo uma forma melhor de exemplificar como percebo a comida, senão com uma boa comparação. Imagine que agora você fará duas viagens, para o mesmo lugar e pelo mesmo período de tempo, divergindo apenas no que fará.

Na primeira vez você embarcará num avião, rumo a uma ilha. Você entra na aeronave, escolhe um passatempo, como ver um filme ou ler uma revista. O avião pousa e você pega um táxi no aeroporto e vai para seu hotel. Segue sua rotina – manhã: acordar, desejum, praia, almoço; tarde: praia ou alguma atividade intelectual; noite: jantar, televisão e sono. No término da viagem, faz o trajeto para casa. Agora, a outra viagem. Você entra no avião e vai para o seu assento, onde começa a folhear uma revista, lê um pouco e, inquietamente, começa a reparar à sua volta. Percebe uma criança tentando equilibrar a refeição na bandeja da poltrona da frente, uma senhora que conta, naturalmente, histórias para o passageiro ao lado dela sem preocupar-se com o interesse. Vê ainda a aeromoça fofocar para uma colega sobre a roupa de uma estrangeira extravagante. Sente o cheiro da comida sendo aquecida para a refeição vindoura. Interagindo com o nicho no avião, o tempo passa de forma fluida e o pouso chega a ser surpresa. No aeroporto você “puxa” conversa com uma mulher na fila para pegar suas bagagens, por tempo suficiente para ter um contato provisório na ilha. Chegando ao hotel você decide conhecer a cidade como ela realmente é (depois de acomodar-se e devorar alguns petiscos no bar). Além de andar, correr, se perder, nadar, conversar e fazer mil coisas, sem uma rotina certa, até o momento de voltar. Então, qual viagem você achou mais atraente? Em qual das duas você ficou interessado? Escolheu a segunda?!Pensamos o mesmo!

A mesma situação se reflete na alimentação. Você pode entrar em um restaurante, pedir seu prato, comer, pagar a conta e ir embora, ou você pode entrar, sentar, conversar com o garçom, notar o enxoval, ler o cardápio, receber o prato, degustar o sabor e o gosto e a beleza, para apenas então pensar em ir embora. A escolha de ter uma experiência gastronômica é sua. Ter a sensação reverberante do prazer de alimentar-se bem e confortavelmente ou apenas comer o trivial “gostoso”. Cabe a você decidir se degustará um confit du canard a cada mordida, percebendo a maciez da carne e o sabor do aroma suave das ervas empregadas ou se comerá apenas um prato “chique” e “caro”. É ainda sua escolha sentir a crocância de um pão francês quentinho, recheado de manteiga derretida à temperatura certa que se mescla ao recheio de um ovo frito, com gema mole certamente, para que esta inunde e nutra o miolo do pão, mesclando os sabores dos ingredientes com suas manhãs. Insisto ainda que é da obrigação de quem come notar a suculência de uma fruta fresca, o cheiro do café recém-passado, sentir as texturas contrapostas de uma tortilha, que empilha prazer divertido paras os fãs da diversidade matinal. Indo um pouco além, é impossível não notar que é o cliente, de qualquer estabelecimento, quem fica responsável em escolher o que comerá. Assim, deduzo que esta responsabilidade se expande na escolha de saborear a pasta regada ao molho de sua preferência, ou de sorver a bebida (que, espero eu, estar na temperatura adequada ao consumo) e saborear sua essência combinada com o prato pedido. Ou mesmo sobre aquele brownie indecoroso às dietas, ousando ser irreverente com as outras sobremesas, pois tamanho é o poder do cacau bem preparado, para, finalmente voltar satisfeito à própria casa.

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Brownie… genialidade simples.

É de seu livre arbítrio ter, a cada refeição, uma sensação que a fará especial. Não importa sua escolha, desde que sinta prazer em comer. Assim como você pode transformar qualquer viagem numa rotina sem significado, suas refeições também podem sofrer esta avaria. Então, convenhamos, comer é bom demais para deixar tal situação acontecer, certo?! Agora se prepare, arrume as malas e encha a boca d’água, pois onde há gastronomia nós iremos visitar. c[_].

Vamos?
Vamos?