Demasiado Demais

Minha vó sempre repetiu: “tudo que é demais, tudo que é exagero, faz mal”. Ela cumpre com essa máxima? Certamente que não. Minha avó, que amo muito, só para deixar claro, é mais do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Em todo caso, essa introdução não é para discorrer clichês e ditados ou lugares comuns. É para te trazer aqui pertinho de mim, pessoa que lê. Pra gente criar um laço, ter um momento gostoso nesse monte de palavras escolhidas ao acaso. Viu como já estamos mais íntimos agora que você sabe disso? Pois bem, sigamos como amálgamas. 

Final de 2024. Eu recebo uma avaliação sobre mim: de que sou excessivo  —  principalmente em um aspecto da sexualidade. Bem, essa avaliação veio de quem pode fazê-la, obviamente. Ao que tudo indica, há ainda outros que concordam com essa visão. Desde então eu tenho pensado muito no assunto. Ao invés de desassociar, eu assumi a possibilidade e comecei a pensar “e se eu sou excessivo mesmo?”. Será que isso seria simplesmente ruim? Se fosse, eu poderia fazer algo a respeito? Questões demais, autor de menos. Quiçá, as respostas precisassem ser entendidas. Para tanto, busquei amigas e amigos, levei para a terapia e busquei meus eus interiores, recorrendo a memórias e toda sorte de recursos que eu dispusesse. Fato é, eu fiquei impactado com isso. Assim, comecei uma jornada. 

Já adianto que não terminei. Talvez nunca termine. A vida é assim, no fim das contas. E isso é ótimo. Outrossim, se eu tivesse minhas respostas fechadas e prontas, certamente não me preocuparia com retornos que os outros me colocassem. Meu mundo seria um purgatório de certos e errados meus, tão prontamente eu quisesse ignorar a complexidade das coisas. E, se fosse assim, talvez eu fosse constantemente feliz (o que, na prática de quem é senciente e consciente, não é possível).

Quem não é o caos de vez em quando?
Foto por Finn Semmer

Seja como for, fui às amizades. Expus o ocorrido e pedi uma opinião sincera. Entre muitas respostas, meus amigos e minhas amigas trouxeram grandes momentos em que cometi gafes, em que falei mais do que precisava e até outros nos quais eu ofendi alguém. Um deleite relembrar e perpassar meus defeitos, saboreando as falhas e aceitando que fiz aquilo mesmo. Um deslumbre. Contudo, nenhum deles e nenhuma delas acha que eu seja demais. No geral, a percepção deles é a seguinte: você (autor aqui) é extrovertido, gosta de muitos assuntos, se sente confortável em falar com os outros. Em algumas vezes, se empolga muito, mas isso não é demais. Não é sempre. Não é, sequer, frequente. 

Com essas respostas, eu levantei mais perguntas do que antes. E o fato de eu não estar colocando-as aqui, é porque isso é um texto dissertativo (é?!) e não uma lista de perguntas (uma lista de perguntas pode ser dissertativa?  — acho que não… acho). Contudo, algumas são insumo desses parágrafos. Por exemplo, qual é a frequência em que falar demais me tornaria demais? E outra, demais em que sentido? Em falar demais, sem parar, tal como um rio desaguando informação sem cessar? Demais em interagir muito, ao ponto de causar desconforto no outro? Demais em fazer coisas demais? Me empolgar demais? Criticar demais? Rir demais? Listar demais? Ora, demais no quê?

De todos a quem recorri, um amigo e uma amiga foram um tanto quanto mais detalhados em suas respostas. Esse amigo disse que não sou excessivo ao ponto de criar desconforto aos outros, nem que eu seja inconveniente ou cause incômodo constantemente. Ele me lembrou de momentos em que fui exagerado em falar coisas fora de hora ou até mesmo fui grosseiro. Mas não tanto como qualquer outra pessoa pudesse ser. Assim, na qualidade de extrovertido, eu sou meramente mais comunicativo do que um apanhado de pessoas próximas. Dentre todas as respostas, a dele foi uma das mais completas e gerou uma reflexão interessante. Só que não ‘resolve’ tudo, afinal, há um contexto e é a convivência. 

No passado, amigos que viveram comigo manifestaram a opinião de que era difícil viver comigo ou me acompanhar, porque eu simplesmente fazia coisas demais. Claro, no contexto em que dividia a casa com um amigo e eu cursava duas graduações ao mesmo tempo e dormia muito pouco para dar conta dessa rotina, certamente ele poderia ter essa impressão. Outros amigos comentavam que eu fazia parecer fácil ter diversas atividades simultâneas, mais graduações e vida social. Porém, apesar da visão incrível que tinham de mim, as comparações não eram boas. Primeiro, eu não tinha uma qualidade de vida tão boa para conseguir me dedicar às coisas que fazia  — eu dormia pouco. Eu até podia ver meus amigos e saía de vez em quando com amigas, mas isso era espaçado. Eu saí das redes sociais à época e eu vivia cansado e até estressado com pequenas coisas. Contudo, eu não reclamava das coisas. Sempre achei que reclamar por reclamar não ajuda, que no geral, atrapalha. Obviamente isso vem da minha vontade de me distanciar de quem fala “faça o que eu mando e não o que eu faço”, cuja vida era reclamação sem ação. Além disso, eu não faço muitas coisas ‘demais’. O tempo que eu uso para ler um mangá, escrever um texto, jogar RPG ou estudar, é o mesmo tempo que eu usaria para ver muitas coisas em um Instagram ou publicar coisas no X, finado Twitter. A quantidade de vezes que amigas iam à baladas e beijavam era uma quantidade superior em horas do que eu passava para estudar bioquímica ou história da alimentação. Eu não fazia demais e nem nunca fiz. Mas aí, se moro com quem quer se destacar no emprego, se aprofundar em muitos assuntos e se graduar em uma federal, mas que não consegue criar uma rotina de investir tempo para essas coisas, entretanto, consegue organizar 3 churrascos por mês, acho que a frustração dele não era comigo. Eu era o alvo. E nesse sentido, eu certamente sou demais se comparar do jeito enviesado. E, claro, o fato de que eu estava solteiro e sem ficar com outras ou outros, passou despercebido por esses amigos. Eu ainda tinha toda uma questão de sexualidade não resolvida, não explorada, não vivida e bem desentendida. E esse foi o ponto que aquela amiga do retorno interessante trouxe. 

Sabe quando a gente tem uma amiga boa, mas boa mesmo? Daquela que discute com a gente num nível de questionamento que não deixa a desejar? Que não recorre a respostas mágicas ou qualquer sorte de bobagem que não seja justamente a consequência dos nossos atos e a responsabilidade das nossas ações? Pois é, essa amiga é assim. Um debulho e maravilhosa. E foi com ela quem mais discuti. E aqui, antes do texto beirar uma intimidade muito preocupante, pessoa que me lê, vamos tomar medidas para não ser demais para você. A conversa com ela foi boa, levantando perguntas no processo. E o assunto da sexualidade obviamente veio à tona: já que eu poderia ser sexualizado demais. E isso é algo não incomum em homens gays (tem literatura, vídeos no Youtube, artigos na internet todinha que abordam o tema). Poderia até ser compulsão, quem sabe? Quem sabe eu mesmo não deixei de fazer ainda mais coisas porque estava ocupado pensando em ou exercendo sexo. Ora, certamente poderia ser uma possibilidade. Mas, quanto à compulsão, vou deixar para checar na terapia — só pra ter certeza, afinal, eu quero investigar todas as possibilidades  — e não nestes parágrafos. 

De onde veio esse questionamento, esse retorno? Ora, do incômodo de um parceiro, da convivência comigo. Para deixar o mundo ciente, de todos meus namoros, oito ao todo, eu só namorei duas pessoas extrovertidas. Não sei se eu tenho um tipo, mas aconteceu que o restante todinho compõe cores de timidez e notas de mostrar-se e expressar-se pouco em público. Em todo caso, eu sempre fui o mais falante e expressivo na relação. 

Agora, segundo meu parceiro, eu sexualizo demais as coisas. Os comentários, as piadas, os toques, a libido… É de eu ver um cara bonito e comentar, seja um ator ou um aleatório num café. É por dizer que faria fulano e ciclano e mais um bocado de isso e aquilo. É também sobre interagir virtualmente, durante viagens, no mesmo campo. A visão dele certamente captura uma frequência muito maior do que dos amigos. Mas aí, o convívio captura tudo, não é mesmo? E, para um introvertido, acho que pode ser demais, muitas das vezes. Durante as conversas com meu parceiro, após a avaliação dele sobre meu comportamento, questionei sobre quem concordava com essa opinião dele de que eu sou sexualizado demais. Eis que o concordante é um amigo além do introvertido, que, a meu ver, é muito desconectado da sexualidade. Aí, é claro que o sujeito se incomodaria, não? Um cachorro lambendo as próprias bolas iria incomodar por estar mais sintonizado do que ele.

Sexuais demais.
Foto por Ketut Subiyanto

Após essa iluminação de quem tem essa visão, acho que o ‘demais’, sempre relativo, se torna muito momentâneo, muito circunstancial. No fim, não era tanto sobre mim. Acontece, que este texto é sobre mim (mas só?), assim como minha busca. Mas, e se, de fato, eu for demais em vários momentos? Na conversa com a minha ‘best’, eu falei do outro amigo que nem se interessa tanto por sexo assim. Então ela trouxe uma interpretação de Lacan: Difícil sentar ao lado de quem é livre. Desse modo, faz sentido que algumas pessoas sintam-se incomodadas. No fim, todo mundo pode incomodar todo mundo. Mas, da maneira como coloquei, fica parecendo que eu me entendo como livre, certo? Então, vamos elaborar isso. 

Em comparação a algumas pessoas, eu realmente acho que posso ser mais livre sim, no assunto sexualidade. Primeiro, eu não sou um homem hétero. Isso, por si só, já me obrigou a pensar minha sexualidade mais do que a maioria dos homens cis e heterosexuais contemporâneos a mim. Ainda, o assunto sexo sempre me interessou. Eu, dos três anos (idade na qual descobri como eram feitos os bebês) em diante, sempre me aproximei do assunto. Aos oito anos eu lia um livro de biologia do Telecurso 2000 e entendia termos como gônadas, espermatozóide, óvulo, fecundação, penetração, gestação e afins. Aos doze eu caçava, nos faróis do saber (bibliotecas públicas de Curitiba), livros que explicavam masturbação, partos, desejo sexual ou qualquer forma de saciar a curiosidade sobre o assunto. Na adolescência eu tinha conhecimento sobre ISTs (DSTs à época), métodos contraceptivos, riscos do contato com fluidos, problemas da má higiene genial para desenvolvimento de infecções. Eu claramente consumia toda porcaria rasa que passava na televisão sobre, e revirava os olhos às perguntas que eram óbvias, para mim, nos programas da tarde e da madrugada, como Programa Livre (SBT, 91-99) e Altas Horas (Globo, 99 em diante)  — gente, claro que sexo oral não engravida, o esperma vai ser digerido antes, pelo amor do seu deus. Eu também consumia revistas de curiosidades, coisas como: 150 perguntas e respostas sobre sexo. E mais muitas coisas. Era o único assunto que eu me interessava e consumia? Claro que não. Eu amava (e amo) ler e conhecer coisas. Tinha tanto interesse por sexualidade quanto por dinossauros, Pokémon, jogos, histórias em quadrinhos, mangá, química e comportamento humano. Saber das coisas e aprender é muito prazeroso. Me dá angústia não questionar os porquês das coisas, assim como os comos, quantos, os o quês e os ondes.

O que acontece, é que, na nossa sociedade ocidental americana, sexo não é conversado, quiçá discutido, livremente. Então, quando eu via que podia responder às dúvidas mais simples de quem estava ao meu redor, passei a ter mais prazer ao saber e falar do assunto. Ora, como homem LGBT+, eu tive que lidar com tudo que achava que sabia sobre mim mesmo. O fato de ter sido criado por uma família religiosa, a culpa cristã exalando em cada poro, e as questões de ter uma origem humilde, em que ninguém teve apreço ou tempo por conhecimento, fizeram minha jornada pessoal precisar de bastante aprendizado para me libertar de conceitos errados. Foi lendo muito artigo (como jovem adulto, dos 22 aos 25) que eu consegui entender que minha sexualidade não estava errada. Eu, mesmo com muita informação, fui me assumir pra mim mesmo muito tarde, já com vinte e cinco anos. E isso era só um começo: as questões da sexualidade experienciada tardiamente são comuns em gays, que acabam desenvolvendo comportamentos de risco para viver uma adolescência tardia. Sem contar coisas como descobrir-se sexualmente com um parceiro. Ainda, relações com o corpo, os pontos sobre a prática sexual em si, a falta de informação especializada sobre vivência e saúde gay, e tantos outros fatores são fundamentais ao entendimento de quem se identifica na sigla LGBTQIAPN+. Se a gente pensar um pouco, isso seria bem esperado, ainda mais num mundo em que o orgasmo feminino foi ‘descoberto’ há poucas décadas pelos homens. Dá pra imaginar, que pro cara que é heterossexual, que nunca teve a sexualidade questionada em si, nem precisou se justificar (para si mesmo ou para outros), que alguém que trate o assunto com naturalidade no dia a dia, isso seja algo potencialmente excessivo. No mais, acabo por ser alguém que gosta do assunto e está aberto a falar sobre. E a ouvir também. 

O que as pessoas esquecem, é que sexualidade permeia tudo. Pessoas queer não seriam mortas se a sexualidade delas não incomodasse. E não é o ato sexual de penetração (considerando que isso é uma modalidade que ocorre) ou qualquer prática que leve ao orgasmo (ou mero gozo). Sexualidade é tudo, bebê. É você se achando bonita ou feio em frente ao espelho. É seu gesto feminino de mexer as mãos e alinhá-las à cintura. É sua carinha fluída que atrai quem tem interesse. É sua masculinidade expressada por sua voz. E, obviamente, todos são fatores lidos pela lente da cultura e sociedade. E se estamos vivos no tempo de agora, nós iremos ser lidos pelo tempo de agora. A sexualidade está no cerne disso tudo. Na roupa, na entonação, nos gestos, na atração, no amor, na foda, no chá de bebê (gente, nós parabenizamos pessoas heterossexuais por terem transado e feito um feto), na forma do beijo, nos componentes do seu DNA. E eu sou só uma pessoa que enxerga sexualidade nisso tudo  — há outras. 

Então, sou eu excessivo, ou esse é só um desabafo inútil? Bem, não acho que desabafos sejam inúteis. Seja como for, eu sempre serei um pouquinho demais. Em alguns dias, bastante; em outros, pouco. Acho que o lance é ter consciência disso. Eu certamente irei comentar sobre sexualidade quando o assunto surgir. E certamente estarei com ouvidos dispostos quando alguém quiser me falar sobre. Preparado para acolher quando for preciso, e partilhar na hora em que for conveniente. Afinal, eu posso ajudar a resolver a dúvida ou a angústia de alguém  — nem que seja para recomendar um profissional. O que importa é que isso faz parte das interações humanas. Sexuadas ou não. No que tange qualquer assunto, eu sempre vou ser demais para alguém. E esse é o custo da convivência. Assim, quanto à sexualidade, concluo que eu só não sou uma ‘orelhinha virgem’. Agora, me conta, e você?
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Morte e o tapete na sala

Eu amo o calor nos dedos ao segurar uma caneca de café fresco, prontamente passado, num dia frio de outono. Sou completamente apaixonado pelas lentes embaçadas dos meus óculos ao tomar sopa à noite, sentado no sofá e conversando com pessoas que também apreciam sopa e notam que meus olhos desapareceram detrás duma película d’água condensada nas lentes. Considero maravilhoso a casualidade das risadas sem compromissos, de quando partilhamos o mesmo momento, sorvendo ternuras e aconchegos a goles de, quem sabe, um bom vinho. Penso eu que o frio me faz gostar disso, com as lembranças que começam na juventude da infância, quando minha mãe e avó comiam pinhão comigo em potes, enquanto todos dividíamos uma coberta aninhados num tapete. Essa foi uma prática que mantive no decorrer da vida. Sentar no chão, num tapete que não deixasse congelar a bunda e dividir cobertas e histórias com amigos e amigas. 


Foto por Brigitte Tohm em Pexels.com
Um café para esquentar as mãos e o coração.

Talvez você pense que eu esteja romantizando o tapete, o frio, os momentos, os amigos e tudo isso do que falei. E talvez você esteja certo. Contudo, vale lembrar que no decorrer dessas palavras, o autor sou eu e, assim, eu quem escolhi cada átomo semântico em toda minha plenitude de “dono” desse universo. Em todo caso, você pode estar certo sobre mim, mesmo depois dessa finta na linha anterior. E nesse caso, você, leitor, está com toda a razão, dentro de toda sua certeza. Mas e aí, para que serve sua certeza? O que dá para fazer com sua ela? Dá para se aquecer no inverno com sua certeza? Dá para encontrar a felicidade com ela? Fabricar tapetes? Salvar o mundo? Se salvar? Já pensou sobre isso? De qual é a serventia de sua certeza? Para além disso, quais delas são verdadeiras, confiáveis ou corretas? É complicado assumir “certezas”, pois é o mesmo que assumir algo ou um evento como infalível ou inevitável. Outrossim, existe algo que pode ser classificado assim, como imprescindível e certo? Bem, uma coisa existe… 

Certamente você deve ter inferido no final do parágrafo anterior que eu iria falar de morte  —  “olha só, o autor esbanjando certeza”, você pode pensar. Mas aqui nesse texto eu sou pleno, lembra? Caso não tenha chegado comigo na ideia de morte, eu falhei. E tudo bem. Mas ainda existe o título, que dá uma dica que pode ser assumida certa acerca do que eu vou falar: Morte. Essa é uma certeza provavelmente unânime em toda a história humana. É um assunto amplamente explorado, discorrido, evitado, temido, contemplado e ainda de interesse para todos. Seja como for, a gente sabe que um dia vai morrer. Disso dá pra ter certeza. E talvez essa seja, quiçá, a única grande certeza unânime. E justamente por isso é tão significativa. E a coisa mais incrível é que ela está relacionada a “só tudo”. Tudinho. A toda e qualquer “inteirice”. Total e plenamente.  

Quando a gente pensa em morte como o fim de algo, como a interrupção da vida e do que entendemos como vida, ela se torna um importante delimitador. Um marco que não pode ser ignorado, mas que é evitado a todo custo. Bem como tudo relacionado a isso. Se pensarmos nos estados que antecedem a chegada da morte, essas “coisas” passam a ser temidas. Veja a velhice, por exemplo, que é tratada, muito precocemente como o fim de tudo. Tal como uma sentença à vida funcional, ao desejo, ao útil, ao direito e à existência. Convivemos com a negação ao direito de viver a velhice, de adotar cabelos ou barbas brancas, de acharmos rugas bonitas em qualquer hipótese ou de cogitarmos desejar o que é velho ou de estarmos velhos e desejar qualquer coisa. Pois a velhice é marco do fim e é próxima à morte, e a única sensação possível aos velhos e às velhas e ao que é velho é uma ternura, uma nostalgia e um respeito com possíveis miríades de sentimentos compadecidos. Afinal, a velhice é o que está perto do fim, é um fim antes do fim derradeiro. 

Contudo, como David Foster Wallace nos lembra em um de seus magníficos ensaios, antes de morrermos propriamente, experienciaremos a morte muitas vezes. Quem dá valor à memória, terá em seu primeiro esquecimento um marco de uma primeira morte. Ao valorizarmos um artefato tecnológico, morreremos a cada avanço tecnológico novo do qual desistimos de acompanhar. Quando almejamos corpos deliciosos, seja lá o que isso for, morreremos muitas e muitas vezes com o tempo transformando em ruína toda possibilidade de alcance do ideal inalcançável de delícia. Nem para quem aprecia a inteligência deixará de suportar as mortes repetidas aos passos do colapso da mente. E absolutamente tudo isso acontecerá, de uma forma ou de outra, de acordo com o que acharmos importante. A morte faz parte constante da vida  —  para morrer, basta estar vivo, certo?  —  e deveríamos viver em paz com isso. Talvez… 

Uma das melhores formas para se lidar com a morte, em um sentido de tirar o medo e entendê-la, estão as expressões artísticas. Dentre as inúmeras obras que falam de morte, gosto de uma música em particular: Aquarela, de Toquinho (Antonio Pecci Filho). Nesse momento seu semblante pode ter se alterado. Digo, deve ter se alterado. “Como assim essa música é sobre morte?”, você deve ter pensado. Bem, a música fala claramente sobre como o futuro é desconhecido, ao mesmo tempo que afirma que as coisas irão descolorir, ou seja, chegar ao fim  —  a música também carrega fortes metáforas sobre a morte dos eventos do “Brasil de 64”, mesmo “sendo” de 1983. E essa música linda fala, em tom suave e bonito, de um dos maiores tormentos humanos, que é o fim das coisas. E, sinceramente, é justificável ter medo, pois é uma experiência que ninguém pode repetir, além de ter ninguém para contar como foi. 

Agora chegamos a um ponto complicado dessa reflexão. Afinal, é difícil falar de morte sem pisar em áreas tomadas pela religião. E aqui eu não tomarei quaisquer pontos ou investirei tempo discorrendo sobre fé ou dogmas ou quiçá quaisquer atributos do domínio mitológico. E sabe por quê? Porque eu não estou interessado em certezas. E a religião, seja ela qual for, te dá isso: certezas. E agora, se você amarrou bem as coisas, deve sacar que esse parágrafo entra em conflito com um lá do começo. Pois é, um deles precisa estar errado, do contrário, entramos em uma contradição lógica. Deixo isso para que você decida. Até porque, eu sou soberano apenas no meu texto. Sobre sua própria vida, só você e seu próprio fim são coisas certas. 

No fim, enquanto o fim não encerra o que tem que terminar, quero sentar num tapete macio, olhar meus amigos, meu parceiro, minhas amigas, minha família, minha gata, meus bonecos, meu café e meu pinhão, rir porque ainda posso e é permitido. Dividir o tapete, uma única coberta e todo o momento que puder. Para mim, isso está muito bom. Não precisa ser sempre, pode ser só de vez em quando. E é justamente por ser tão incerto quando poderemos repetir isso, que os momentos ganham mais valor. Até lá, eu tento. O quê? Não importa… mas tenho certeza de que farei isso. E para o que serve minha certeza? Para nada.

A Posição na Conchinha e a Distância entre as Batatas Fritas

Qual é a primeira coisa que vem à mente quando alguém nos pergunta “o que é o amor?”? Muitas são as possibilidades, afinal muitas são suas formas e tipos, não é mesmo, pessoa!? O amor é algo bastante complexo, cujas definições possíveis têm confrontado aceitações e conflitado ideias pelo tempo. Entretanto este texto está muito longe de trazer alguma definição sobre o que é o amor. Contudo, numa sequência conflitante de negações de sentenças, tal qual nossas lutas internas também o são, não é impossível seu surgimento, mesmo ambiguamente. Agora, voltemos aos trilhos. Eu acabara de falar que havia formas de amar e tipos de amor, antes de devanear acerca do que eu mesmo afirmei. Dessarte, se há morfologias e categorias diferentes, podemos levantar perguntas diversas sobre esse conceito confuso e complicado, mais turvo que este parágrafo, tão conhecido, difundido, discorrido e estufado de achismos e empirismos e eufemismos e “inconclusões finais”. Então, deixe-me perguntar também. Qual a distância do amor?
Qual a distância do amor, pessoa? Um metro? Vinte centímetros? Dez anos-luz? O espaço entre as costas e a barriga na posição de conchinha? Como mensuramos isso?Há fita métrica para tal? Ele tem peso? Data? Validade? E se tem, como saber? Dá pra estender? Pode-se aumentar? E o gosto? Seria mais doce, como paçoca, ou meio azedinho como notas de maracujá? Existiu um primeiro amor, que gerou os outros todos? Podemos nos confundir com o que ele é ou seria? E se não existir? Qual nome dar pra todas as coisas que confundimos com ele? Troca-se? Dá pra dar? Gasta-se? O amor dorme? Por mais estranhas que pareçam tais perguntas, são coisas com as quais quem ama acaba lidando. Nos numerosos tutoriais sobre como é amar e o que é o amor, encontramos muito mais do mesmo do que o Renato Russo encontrou. Há quem diga que amar deve ser assim, ora fácil, ora dolorido. Existem outros que esclarecem coisas que sequer sabíamos que eram dúvidas ou preocupações. Tudo muito importante. Tudo muito profundo. Quase tudo pouco prático. Isso é um sintoma ou uma consequência? Que seja.

fofura
Amar é só abraçar e coisas boas. É só fácil… será?

Colocando os pés no chão, lugar comum bastante fácil de entender, podemos tentar pensar sobre o amor em si. Geralmente alvo da mineração dos tutoriais e suas observações inteligentes e sofisticadas que não cessam temores: o convívio; disto devemos lembrar, com absoluta sobriedade, que existe um custo de convivência para cada ser vivente na Terra. Jé pensou sobre isso? Qual o custo para viver contigo? Será que você exige o cumprimento de regras rígidas ou determina a existência necessária de caos e que ninguém deva controlar outros? Sua rotina é fácil? E seus medos, o quão eles podem assombrar quem está contigo? Sua bagagem emocional interfere até qual ponto na relação? Você é confortável com outra pessoa? Você fica confortável consigo mesmo? É preciso ter quanta paciência para lidar contigo? Você, pessoa, permite que alguém se abra a você em até que ponto? E as expectativas, você as têm ou as cria ou as vive? Sejam quais forem os outros questionamentos, é inegável a existência desse custo de convivência. Sempre que vejo alguém despejando carência nas redes sociais, nas conversas dos bares e em reclamações íntimas, geralmente eu vejo que, do comportamento queixoso de “eu não encontra alguém pra mim”, há uma cornucópia de atitudes que não dão segurança para que outra pessoa chegue e queira ficar. Até porque, qual o sentido de perder tempo reclamando ou falando de felicidade se você pode ir lá e só viver a felicidade? Reclamar do mundo, de tudo e de todos, e ser a encarnação daquilo que se reclama não ajuda. As pessoas são frias… mas e você, o quão receptivo consegue ser? Ninguém quer nada sério… em que parte acham a seriedade em você? As pessoas cobram isso e aquilo, querem rótulos, querem esteriótipos, querem querer quero queria que que o quê… e você já disse o que quer? Á, mas os outros não sabem o que querem… e você sabe? É importante buscar saber. Ou não…
Antes que você, leitor paciente, desanime do amor ou do texto, dada a rispidez do último parágrafo, deixe-me contar-lhe algo bom: amar não é fácil. E isso é ótimo. Amar envolve exposição, entrega, resolução, vontade, determinação e tem um custo bem alto. A parte ótima? É que amor correspondido é aconchegante, acolhedor, restaurador, compreensivo e mais tantas coisas que colocam sentido em nossas vidas, que seria necessário enfileirar mais palavras do que átomos de H ao redor da Terra. As ações começam a ser planejadas pensando-se noutra pessoa, não por obrigação ou formalidade, mas por vontade pura. O individualismo cai, mesmo pra quem é individualista. E há egoísmo e altruísmo, em proporções conflitantes o tempo todo. E, acima de tudo, é bem assustador desejar tamanha entrega e ter tanta aceitação por alguém que não a nós mesmos. E todo esse processo de aceitação pessoal, de saber o ônus de nossa existência na vida de alguém, de buscar o entendimento de coisas que não possuem respostas prontas ou fáceis ou definitivas, é exaustivo. Mas vale cada dia vivido. Requer coragem e aceitar que certos medos vão surgir. E quando  se começa a viver um amor, o acúmulo de trivialidades absolutamente relevantes é necessário. Quem vai abraçar na conchinha? Falar que quer ser abraçado, sem ser julgado como carente, ou que quer abraçar, sem qualquer sentença tacanha, ou mesmo que sente calor quando vai dormir e busca-se ficar o mais próximo que aguentar é o que demarca o amor. Cada gesto insignificante, mas que é pensado para alguém além de si mesmo, transborda o amor. Grandes gestos são fáceis de fazer, pois tem começo e meio e fim. Amar tem início confuso, meio interminável e fim imaginário. E só se ama todo dia, em cada planejamento, vontade de estar junto, dividir momentos, perguntar coisas, ser só o que se pode ser. E isso, pessoa, é difícil. Mas quando deitamos de conchinha, ou não, abraçando ou não, quando somos amados, sentindo toda nossa fragilidade sendo cuidada por alguém, encontramos a melhor posição da vida.

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Essa referência é autoexplicativa.

Tudo bem, mas e qual a distância do amor? Essa pergunta, especificamente, desprovida de sentido romântico e iludido, bem como fundamento adequado ao raciocínio refinadíssimo humano, me trouxe a esse texto. Para tantas pessoas que perguntei isso, obtive respostas diversas. Enfurecidas, energéticas, risonhas e vagas. Como se tocasse numa ferida exposta. Senti medos alheios e curiosidades genuínas. Contudo, a única resposta que aceitei é que essa distância é a mesma entre as batatas fritas. Quando pedimos uma porção, estando juntos de alguém, e temos a plena convicção de que o outro sabe que o consideramos nessa decisão, sabemos, por alguma razão, que isso parece certo e bom. É a distância entre cada palito de batata, que é pedido sabendo que não é só pra si mesmo, pois não é um pedido egoísta e controlador, que mensura a distância do amor. Se a porção acabar, pediremos outra. É a distância ao saber que qualquer movimento a muda, mas que na prática ela se mantém igual. É o sentimento ao nos depararmos com a certeza de que cada porção pedida será compartilhada, aproveitada e completamente dividida, pela vida toda, sem o medo de acabarem. Mas então, você pessoa, percebe que não existe uma distância estabelecida e certa entre as batatas… Desse modo, assim como você queria, a distância do amor é uma metáfora bem sólida. Nada além disso. Agora, vai lá e divida o resto da sua vida com quem você ama. E até mais. c[_]

O dom e as 10 mil horas.

Minha amiga e eu estávamos conversando. Falávamos coisas triviais, de um comum provinciano e, quiçá, bucólico. Durante o diálogo, a irmã dela tornou-se assunto fazendo minha interlocutora lançar a seguinte afirmação: “Minha irmã desenha muito bem, cara! É dom!!!” Obviamente, eu discordei no instante seguinte. Mas ela insistiu: “Não, é dom sim!!! Veja bem, ela desenha desde pequena, todo dia, sabe?! E olha, ela ficou boa. Consegue capturar detalhes e fazer estilos diferentes. Sem ninguém a ensinar… Só pode ser dom!!!” Desisti de argumentar naquele instante (devemos conhecer batalhas perdidas, principalmente quando o momento não é adequado). Contudo, decidi escrever sobre aquilo que me mostram como “dom”. E não, minha amiga, não há isso em sua irmã.

sucesso-diferencas
Anos de prática… só poderia ser um dom?

Antes de esmigalhar expectativas agressivas, quero confessar que também já fui adepto de ideias simplistas, como “se alguém é muito bom (excepcional) em algo, é dom”, e isso não é necessariamente ruim. Afinal, faz-me entender um pouco a concepção de quem afirma tal ‘fenômeno”. Entretanto, ressalto que meu pensamento simplório consistia na falta de reflexão e numa zona de conforto estável, na qual bastava justificar algo com uma “não explicação” para não precisar me esforçar de verdade. Ainda, lembro que já acreditei em coelho da páscoa, Papai Noel e que leite com manga matava. Desse modo, podemos retomar a ideia central, de que dom é uma ladainha absurda.
Quando ouço coisas do tipo “tal garoto desenha muito bem, tem dom imenso”, “aquela bailarina tem o dom, mesmo”, “você tem o dom do conhecimento, por isso sabe tanto”, “você cozinha assim porque tem um dom”, eu fico oscilante entre tristeza e ira. No mau português fico enfurecido com “p”. Sabem por quê? Porque essas afirmações são absolutamente ofensivas. Além disso, essas frases têm mais coisas em comum: redundância abusiva dentro de um texto, uma visão restrita e superficial e uma desvalorização do esforço das pessoas que conseguem algum grau de excelência (ou mero destaque) naquilo que fazem bem. A grande verdade é que nunca ouvi uma história que realmente demonstrasse a noção de dom do senso comum, ou seja, nenhuma manifestação instantânea de habilidade que brotasse do próprio nada. Muito menos, a aquisição de técnicas sem uma enorme quantidade de esforço e energia envolvidos. Voltando à conversa com minha amiga, no momento em que ela proferiu “ela desenha desde pequena, todo dia” [acho que tinha um quase nessa frase… Faria todo sentido], a explicação já estava inclusa. A simples ideia de que alguém é bom em algo simplesmente porque “recebeu” isso, ou mesmo “herdou”, é absurda. Não passa de uma muleta.

muletas
Vou usar seu dom como uma desculpinha para minha preguiça…

Ao olharmos para os exemplos ao nosso redor, percebemos a coisa mais fantástica possível: todos podem ficar bons em algo, contanto que o pratiquem muito. Pense em todos os neuro-cirurgiões… Será que cada um deles nasceu dominando movimentos acurados? Ou tiveram que treinar muito para usar cada ferramenta, fazer cada incisão, sutura, curativo, avaliação, aprender a responder de acordo com o que o paciente está passando, para só então tentarem tudo isso numa cabeça humana e, muito tempo depois, tornarem-se bons, seguros, confiantes e até mesmo referência em suas áreas? A segunda opção parece mais palpável, não é? Mas a primeira pode ser mais gostosa de engolir. E isso é perigoso.
Sempre que alguém me fala que tenho o dom de cozinhar, visualizo um filme, mentalmente, de quando fiz um nhoque que virou um bloco gigante de massa cozida, ou quando incendiei a cozinha tentando fazer batata frita, das vezes em que assei carne e ora ficava antes do ponto [crua], ora seca e esturricada [eca!]. Passam também todas as
cenas das sobremesas fracassadas, em consistência ou sabor. O mesmo acontece quando falam sobre meu dom para escrever. Quem diz isso não tem ideia de quantas horas gastei lendo, escrevendo e reescrevendo textos de todo tipo. Não sabem que gastei um dia inteiro em uma maldita redação, durante o cursinho pré-vestibular, para que ela ficasse meramente adequada. Não consideram minhas horas de frustração por não entender quando o verbo é substantivado e as orações assindéticas que ficam sindéticas ao menor descuido. E as horas em claro, madrugadas a fio, escrevendo e revisando relatórios? As correções duras das professoras que queriam uma melhora minha? Nada disso é considerado. NADA!!! E a história não carece de exemplos: Beethoven estudou muito de música e fez um esforço absurdo, para mesmo surdo, continuar compondo e tocando; Jimi Hendrix calejou os dedos antes de ser reconhecido; Paul Bocuse não nasceu salteando, ele teve que aprender tudo aquilo que hoje ele ensina; Leandro Karnal gastou horas quase incontáveis, para muitas pessoas, lendo até dominar certos conhecimentos; Da Vinci era curioso e incansável na busca por novos aprendizados; Fiódor Dostoievski precisou ser alfabetizado e praticar bastante antes de tornar-se um marco na literatura. Nenhum desses, nem de outros exemplos, teve habilidades prontas, livres de prática ou treino. O contrário, contudo, é verdade – eles desenvolveram suas habilidades através do esforço excepcional que fizeram. Isso é muito mais surpreendente do que o “presente pronto” nas ideias de um senso comum.

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Praticar envolve lidar com fracasso. Quem sequer tenta, não fracassa…

Falar que alguém tem dom é o mesmo que caluniar essa pessoa. Acusá-la de preguiçosa. É afirmar que seu esforço para aprender e melhorar qualquer coisa vale tanto quanto o nada, pois ela já tem esse “algo pronto”, da mais bizarra origem que alguém puder pensar. Imputam-na de marasmo, indolência e madraçaria. E tudo isso é deveras triste. E o motivo para isso é simples: uma muleta. A ideia preconcebida sobre um talento nato e um diferencial herdado, ou recebido [dom], serve como remédio paliativo à preguiça de quem não quer se esforçar. Encabeça o hino dos indolentes. E isso é árduo de aceitar. Afinal, concordar com a ideia de que alguém só não é bom em algo porque não se esforça o suficiente pode dar calafrios. Mas é a mais pura realidade. Se uma pessoa tem condições e acesso a determinado tipo de prática (cozinhar, escrever, pensar, dançar, calcular, computar…) e não é minimamente boa, por desleixo ou descaso, então é bom ter uma desculpa à altura de sua sornice. No fim das contas, a pessoa comum não quer sair do conforto do pseudo-ócio [ócio verdadeiro é útil] para a rotina desgastante que pode torná-la boa em alguma coisa. Evidentemente que tal situação é aceita pela maioria – ao menos no Brasil que conheço, e noutros lugares para os quais viajei. A aceitação da mediocridade, do atraso, do suficiente, do “bom o bastante” e não do “bastante bom” é o que retroalimenta essa condição. Então o ser vulgar não se permite aceitar que não seja por dom que fulano canta tão bem e ciclano faz dissertações incríveis. É preciso ter dom para ser bom e aceito. As milhares de horas de dedicação de nada servem às mentes cativas. Pois quem se esforça tem dificuldade, e ter dificuldade é algo que quem tem dom não tem, e quem tem dom é melhor naquilo, justamente por tê-lo. O que não tem o menor cabimento.

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Aprimoramento não é algo fácil.

Felizmente, há outro lado. Quem melhora suas próprias capacidades, sabe o valor do empenho constante e não precisa de desculpas para repetir infinitamente uma mesma atividade, até que consiga dominá-la. Há até quem possa ter mais facilidades para algumas coisas, mas essa mísera vantagem desaparece à medida em que se aprofunda naquilo. Destarte, cabe a toda pessoa dedicar seu tempo aprimorando aquilo que desejar. O processo é lento, constante e laborioso. E ser excepcional está longe de ser o melhor em algo, mas, perto de superar limites e fazer coisas incríveis. E cada minuto é valioso [que piegas, não é?!]. Afinal, a diferença entre quem faz muito bem alguma coisa e quem não a faz direito está na quantidade de horas investidas. Da próxima vez que pensar que seu amigo desenhista é bom por dom, faça uma conta: se ele tiver 20 anos e investiu 1 hora por dia desenhando desde seus 4 aninhos, serão 6205 horas de prática. E certamente ele deve ter investido bem mais que isso. Então repense se acha justo chamar isso de dom. Talvez ele prefira um adjetivo mais coerente. E aqui, qualquer “extraordinário” já é formidável.
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Mesa pra um…

Você adentra o restaurante, observa o panorama e vê um bom ambiente. Decide, então, comer ali. Um garçom se aproxima e pergunta “Mesa para quantos?”. Eu respondo “Para um!”. Nisso, o indivíduo parece entrar em parafuso e desencadeia incredulidade: “Tem certeza? Você não está esperando mais ninguém?”. Claro, eu entrei no estabelecimento para mentir, de certo. Ou melhor, me confundi. Certamente que não devolvi essa irreverência, mas a estranheza do rapaz – e não só dele, como de muitos outros antes, com os quais já fizera o mesmo pedido – era impressionante. Quando confirmei, o pobre homem parecia uma TV chuviscando, desolado com a informação. O fato de que iria jantar sozinho parecia indigesto.

O jantar solitário... Quase demonizado.
O jantar solitário… Quase demonizado.

Indiferente à opinião do garçom, sentei-me à mesa. Após fazer meu pedido, passei a notar alguns olhares, tanto de clientes quanto dos funcionários. Eu era convizinho à existência do aborrecimento comum! Naquele dia sei que fui estorvo. Ora o garçom bestificava-se com o cliente solitário em meio ao restaurante lotado, ora a bartender demonstrava expressões piedosas. Sem contar os clientes, que aparentavam alguma ansiedade. O desejo de todos coincidia, ao menos pelos que podia sentir, que eu terminasse logo e fosse embora. Não quis! Saquei meus talheres e contemplei minha experiência gastronômica. Com uma mensagem não verbal, mandando todos ao oitavo inferno de Mephistópheles, degustei com lascívia meu prato. Quando parti, ri ao notar o alívio alheio.

Comer? Só se for acompanhado... Será?!
Comer? Só se for acompanhado… Será?!

Penso em como é comum ouvir afirmações do tipo “Á, eu não quero ir comer sozinho!” e outras derivações congruentes. Existe uma enorme resistência à experienciação solitária. Por um lado, entendo o quão bom ~quiçá melhor~ é rodear-se de amigos, familiares, pessoas a quem amamos ou mesmo ter aquela refeição romântica, com muitas intenções. Mas por outro lado, não vejo problema algum em comer sozinho. As duas situações deveriam ser igualmente aceitas. Infelizmente, não é o que ocorre.

Dado o contexto certo, igual ao meu caso no restaurante, comer sozinho passa mensagens “ruins”. Você pode ser visto como “o fracassado que tem ninguém” ou “o abandonado, desolado, descartado, pobrezinho e depressivo”. Ademais, adquire a característica de estorvo, transfigurando-se em incômodo aos presentes. Em parte, um único cliente ocupando uma única mesa (situação desnecessária, mas consensuada), significa uma redução da amplitude de clientela. Dessarte, não justifica a desaceitação.
Ninguém é obrigado a estar acompanhado.

Sim, você pode aproveitar ótimos momentos a sós.
Sim, você pode aproveitar ótimos momentos a sós.

O grande ponto é que qualquer um pode jantar sozinho, sem que isso signifique algo ruim. O prazer da experiência pode ser até maior, inclusive, já que a atenção não recebe competição. Seja para saborear um suculento mignon tenro, a cremosidade de um “gelato”, as texturas empilhadas duma tortilha ou o que for. Comer é um ato íntimo e não precisa ser compartilhado toda vez. Felizmente, surge uma tendência sem jantares a sós ~e isso ficará para outro dia. Seja você pedindo mesa para cem, dez ou um, não deixe de apreciar cada garfada.

Bom apetite. c[_]

A imoralidade do pão com ovo  

Não foram poucas as vezes que eu escutei afirmações discriminativas sobre minha comida. Comida chique, comida de pobre, comida de rico, de hipster, executiva, infantil, complicada (essa é, particularmente, muito boa) e algumas outras. Acho muito incrível que algumas pessoas vêem, nitidamente, essa distinção. Assim, penso na inutilidade de tal segregação aplicada, diretamente, sobre a comida. Mais curioso é que alguns assumem, como mandamentos, que não comem determinado tipo de comida, partindo de argumentos como  “isso é chique demais para mim”, “eu não vou comer isso, coisa de quem não tem condições” ou mesmo “isso é comida de bicho”. Eu adoraria perguntar aos “estômagos” dessas pessoas: você nota o quanto é gasto num prato? O que você acha ao comer o mesmo alimento que um animal de outra espécie come? Você acha que esse tomate valeu o investimento? Quando você come algo de outra classe, o que você faz para digerir? Se pudesse responder, certamente manifestaria, claramente, confusão com tais perguntas.

Prato feito (PF) - Alvo de intolerâncias contraditórias.
Prato feito (PF) – Alvo de intolerâncias contraditórias.

Tais “argumentos” (se é que poderia chamá-los assim) são, no mínimo, um delírio. Primeiro, porque muitos desses juízos não passam de uma interpretação intolerante da própria cultura, assumindo uma dicotomia inexistente ao cerne da comida, do comer, da vida e da gastronomia. É bastante compreensível que a comida seja influenciada, em sua criação e em seu consumo, pela cultura que a cerca e representa. Entretanto, não consigo aceitar (ou melhor, tolerar) essa “ladainha” de que comida pode ser distinguida entre pobre e rica, como se fosse mais um divisor de classes. Mas, antes de discorrer minha discordância, farei algumas colocações.

A primeira coisa é assumir que a alimentação é inerente ao ser humano, participando e construindo imensamente na caracterização cultural. Isso não pode, de maneira nenhuma, ser ignorado. Contudo, a segmentação de que tal prato ou receita sejam de determinada “casta” não passa de absurdos. Somos os mesmo animais, com as mesmas necessidades e a mesma capacidade de apreciar algo que possa ser bom. Isto posto, é importante ressaltar um segundo ponto: somos indivíduos com memória – memória gustativa — responsável por boa parte das nossas escolhas alimentares, sem saber o preço do prato, muito menos importando-se se outro bicho se alimenta daquilo. No máximo, influenciará na “sensibilidade gustativa”, ao saber que aquilo “é melhor” – como se fosse um alimento para o seu escopo pessoal. Eu simplesmente não aceito tão ridícula divisão, que rotula de maneira burra, diluindo a importância real da comida. Comer envolve outra perspectiva.

Sou "caipira" demais para comer essas coisas chiques... Tá bom?!
Sou “caipira” demais para comer essas coisas chiques… Tá bom?!

O mais relevante na gastronomia é a experiência. Nesse quesito repousa o grande significado, a maior resposta, o verdadeiro destino dos comensais. Não há preço que melhore o cheiro dum ovo de mil dias, quiçá a textura de um escargot ou a sensação aveludada de um bom pudim. As estrelas de um restaurante não substituem os sabores da infância, o prato do primeiro beijo, o pedaço de bolo feito por sua mãe, naquele dia em que tudo parecia sem gosto. Desse modo, podemos listar inúmeros alimentos, consumidos de diversas formas e por diversas pessoas que, graciosamente, quebra essa moral imposta. Qualquer que seja a idade, a renda, etnia ou tribo, é possível encontrar um alimento, transformado em prato, que será transcrito como experiência feliz.

Cheiro e textura exageradamente distintos.
Ovo de mil dias: Cheiro e textura exageradamente distintos.

Nesse ponto temos o pão, quase um rei dos alimentos acessíveis, customizados, incorporados, modificados, adaptados, inclusos, caros, baratos, sofisticados, simples, anacrônicos e do que mais o pão quiser. Pão é pão e é irredutível, capaz de acolher gostos tão distintos quanto suas possibilidades. Não obstante, temos um grande aliado em congruência, “divacidade” e deliciosidade que, outrossim, faz papilas saltitarem: o ovo. Ambos são magnânimos na gastronomia, protagonizando entradas, guarnições e sobremesas. Colorem os lanches da tarde e enriquecem cafés da manhã, indecorosos às dietas e às afirmações pífias de que comida se divide em avaliações rasas. Juntos, chegam à soberba, com gosto eloquente e conceito humilde. Eis que temos o pão com ovo – e que os veganos me desculpem, mas não posso diminuir o significado desse insumo.

Tão bom...
Tão bom…

Penso que muitos possam ficar desacreditados com minha afirmação. Mas acalmem-se, eu explicarei. O pão com ovo é imoral à moral que defini, naquilo que observei. Simples assim. Ele é fácil de fazer e de agradar. Serve para gostos distintos, feito com diferentes ingredientes, tipos e técnicas de cocção. Pense numa ciabatta inundada pela gema suculenta do ovo, agregando cor e somando gosto ao sanduíche. Talvez prefira ovos mexidos com um pão caseiro tostado na manteiga, fazendo a manhã se render na sua boca. Ainda, há quem resista à maciez de um pão de leite com ovos mexidos cremosos?! É preciso certo esforço. Como não querer um pão francês com ovo na chapa, um croissant recheado com ovos picantes ou poché com pão australiano?! Dessa forma, quem pode afirmar qual é menos importante, mais chique ou “tribal” que outro? Além desses, outras delícias rebelam-se contra essa moral deturpada, como o brigadeiro, o macarrão, a coxinha, as farofas, os bolos, as compotas e muitas outras formas de prazer e experiência.

Do boteco à cozinha de Alain Ducasse, comer é uma experiência, que pode ser positiva em qualquer lugar. Tudo depende do quão disposto você está em aproveitar e do quão justo fora a forma como conseguiu. A comida pode se encaixar como simples, trivial, alta, baixa ou gourmet (que certamente serão tópicos futuros), mas nenhuma é melhor que a outra, ao tratarmos da experiência em potencial. Assim, é inconcebível se limitar por noções distorcidas. Independente do tamanho da fome, cabe a você render-se a sabores novos, apreciar antigos ou sentir o gosto presente. Qualquer posição limitadora é desnecessária. Bem como aquela moral.

Mudanças obsolescentes  

Quando foi a última vez que analisou sua ansiedade? Eu toco frequentemente nesse assunto, quando converso comigo mesmo, principalmente em épocas de prova, ou quando está para sair um episódio novo de um anime ou capítulo de uma série. Inclusive, durante a leitura de um bom livro, acabo com ansiar o capítulo seguinte, sem terminar o atual. Assim, através dessas e doutras constatações, percebo a necessidade em controlar minha ansiedade. Entretanto, para contê-la verdadeiramente, preciso descobrir como e quando se manifesta. Desse modo, o autoconhecimento torna-se essencial – mas fique tranqüilo, pois o levarei numa viagem pelo “eu” do autor.

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Será que eu passei?! Eles vão casar? Uma semana até o próximo episódio?!

Bem, talvez você tenha respirado e pensado em si mesmo, nesse primeiro parágrafo. Quem sabe se identificado com algo. Ou não… Independente disso, ansiedade é algo comum e, se pensar bem, ensinado. Depois de refletir bastante, percebi que sua manifestação é sazonal, previsível e, muitas vezes, injustificável. Na maioria das vezes, quando ficar ansioso não extrapola quaisquer limites saudáveis, temos uma fonte clara daquilo que nos leva ao estado inquietante. Geralmente é a iminência de uma situação muito desejada, como as notas de uma prova, o resultado das ações de uma personagem, a resposta para uma declaração de amor ou qualquer coisa que desperte curiosidade e vontade. Sendo que, todas essas são justificáveis.  Contudo, há outra forma de ansiedade que me chamou a atenção – e esta é passível de condicionamento: a ansiedade programável.

Acredito eu, caro leitor, que já tenha observado algumas propagandas durante a vida. Desse modo, certamente já constatou a existência de várias “necessidades” consagradas para uma vida de qualidade. Ora, simplesmente há itens que você “precisa” ter para ser feliz ou estar bem ou ser melhor. Claramente, a atualização desses mesmos itens, ou versões melhoradas, é imprescindível à existência humana. Sendo assim, é inexequível passar seus dias com objetos e sistemas obsoletos. É necessário mudar. Mudar para o melhor. Mudar para o maior, o ótimo, o mais rápido, o mais incrível, cool, cult, cute, subarashi, sugoi, kawaii e inédito. Mudar sempre, constantemente, impreterível e indubitavelmente, para o mesmo!

É, você não leu errado. A maioria absoluta das mudanças vendidas e da alimentação para a ansiedade intrínseca ao ser humano, não passam de um bom blefe, de validade curta. E tal validade deve ser curta, para que a próxima melhoria seja realmente necessária. Somos constantemente expostos a melhorias para todas as tecnologias que nos cercam. Contudo, não percebemos (e isso seria problemático ao sistema atual) que a durabilidade das coisas caiu e, além disso, as constantes atualizações e as versões melhoradas estão cadê vez mais próximas do lançamento de suas antecessoras. Ainda, e mais triste, o aspecto obsolescente dessas mudanças é transferido para outras áreas. Assim, o cansaço por inércia é cada vez mais intenso e fácil de “conseguir”. Seja por sermos naturalmente ansiosos – ao menos em parte – por mudanças, ou pela pressão sócio-cultural, que adere ao dia a dia.

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Quer dizer que, na maioria das vezes, eu fico ansioso por nada?! Tipo… induzido?!

Acontece, entretanto, que a vida é uma sequência de repetições, de lugares comuns e constantes. Todos que já fizeram sexo sabem que a repetição não é um problema. Beijar dezenas de centenas de vezes @ namorad@ não é, nem de longe, ruim. Ler o mesmo livro, jogar diversas vezes as fases do Mário, muitas partidas de truco ou mesmo repetir partidas de xadrez. Claro que, cada vez que você faz uma dessas coisas, você não a faz igual à última, mas não deixa de ser a mesma coisa – se deixasse, relacionamentos não cairiam na monotonia e um jogo nunca se tornaria enjoativo. Agora, se a vida é feita de “mesmices”, por que sentimos vontade de mudanças? Ademais, mudanças reais são custosas, demoradas e desgastantes. O que permite que sejamos enganados é a confusão entre os tipos de mudança a as coisas que mudam.

Ansiamos por mudanças, pois temos curiosidades e sentimos prazer ao quebrar a rotina. Queremos coisas surpreendentes, inesperadas e novas, fora do que está ao nosso alcance. Claramente, muito do que queremos e buscamos não passa de brevidades pontuais. Todavia, nos ensinam a desejar uma mudança pronta, a comprar a fuga da rotina. Tudo mera ilusão, um descaso com os intelectos fragilizados – de mais bombardeios culturais, de marketing e moral sem ética. Logo, ao final do dia, não sabemos se fizemos a compra “certa” ou se realmente queríamos aquilo que “precisávamos”, incertos de nossas atitudes, porém calados pelo desconhecimento de que fomos coagidos àquilo. Hesitantes, não concluímos se a ansiedade sôfrega valeu o resultado. Então caímos, satisfeitos ou não, esgotados. Tudo, para esperar a próxima ansiedade, da tão sonhada mesma mudança.

Amanhã lançam o novo modelo de celular...
Amanhã lançam o novo modelo de celular…