A quebra de protocolos e as xícaras de café!

“Por favor, não repare na bagunça.”
“Sinta-se em casa.”
“Aceita algo para beber?”
“Me desculpe por qualquer coisa”
“Quer jogar também?”
“Vamos marcar algo um dia desses.”

Quem nunca ouviu coisas assim? Se não as mesmas frases, outras similares. Considero, partindo de um contexto de vida em sociedade, impossível alguém não ter ouvido, senão falado, tais frases. São típicas frases dos infinitos protocolos sociais ao quais estamos submetidos. Nada mais do que um manual de como viver, certo?! Talvez. Protocolos se confundem com educação, boas maneiras, ou mesmo regras circunstanciais. Contudo, é preciso distinguir, aqui, do que vou falar. Meu foco, caro leitor, são aqueles que advém de uma limitação “imposta” e aceita para os comportamentos, não apenas falados, das pessoas em suas relações para com outrem. Sobretudo quando o contexto volta-se para uma relação humana.

Num primeiro momento, temos esses protocolos de rotina. Como a ideia de se desculpar, mesmo sem sabermos se fomos desagradáveis ou não. Ou de demonstrar humildade ao pedir que não deem atenção à nossa bagunça (que é outra forma de desculpa para algum comportamento ou situação). O intuito é não criar conflitos, através de uma educação treinada – que muitas vezes não condiz com o que queremos. Em numerosas situações comportamo-nos de acordo com os pressupostos culturalmente moldados, seja para não magoar, desapontar, irritar ou gerar desconforto. O que, até certo ponto, é bastante útil e benéfico, mesmo porque esses protocolos surgem de consensos coerentes em algum nível – já pensou se ninguém respeitasse espaços pessoais, privacidade no banheiro ou horários consensuais? Pense em alguém te visitando e mexendo nas suas xícaras favoritas, sem que você tenha deixado. Ou num passageiro dando pitacos na direção de um motorista de ônibus. Não teria sequer sentido.

 

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Não fale isso ou aquilo. Fale… nada, que tal?!

De certo, não estou aqui para discorrer sobre esses protocolos especificamente. Muito menos para abordar a tênue linha entre tais comportamentos e suas dependências morais (ou correlações…). Meu interesse engloba tudo que não deve ser feito, como “mandamento” social, bem como questionar o porquê disso ser assim. Por exemplo, sempre que conhecemos alguém e fazemos um novo amigo, temos uma série de atitudes inapropriadas para fazer ou falar — Legítimas proibições consensuais. Certos assuntos não categorizados, praticamente, como tabu. E nem são conteúdos envoltos por temas chocantes ou asquerosos, mas sim relacionados ao que somos e queremos de fato. Socialmente, parece muito mais fácil falar de cirurgias, serial killers, o sofrimento alheio, do que do que se sente lá no fundo.

Quando nos abrimos ou deixamos de lado todas as máscaras comportamentais, ficamos, nitidamente, vulneráveis, expostos e, possivelmente, mais inseguros. Entretanto, ao fazer isso criamos um ambiente insustentável para quem é desconhecido. Mas pense, quando um estranho se abre, como você reage? Categorizá-lo como louco é bem comum. Quem sabe de carente. De incomum? Quiçá, de estranho? Algo assim, na maioria dos casos. Isso, por um lado, é surpreendente. Claro que não remeto a pessoas que jogam detalhes sem contexto da própria vida, ou aqueles que vomitam a opinião quando não são chamados, nem mesmo quem assume o que não existe para um primeiro contato. Falo sobre ser honesto, partilhar a si mesmo, sem adotar uma conduta programada, bem aceita e de fácil digestão. Conhecer alguém que não achamos bonito não nos impede em fazer amizade. Contudo, essa informação “deve” ser mascarada, para o “bem” da relação, certo? Não sei. Claro que má educação não é o mesmo que sinceridade – até porque há diversas formas de fazer uma colocação. Todavia, abafar as próprias emoções não condiz com a saúde social que a psicologia prega. Nem com a individual. Outrossim, tudo isso se agrava quando conhecemos alguém por quem demonstramos interesse.

Chegamos então ao grande ponto dessa narrativa prolixa: “a relação de afetividade entre indivíduos que mutuamente se gostaram”. Creio que seja de conhecimento comum a empolgação em conhecer alguém que desperta toda nossa atenção, atrai nossos corpos, cativa o interesse, seduz a concentração ou traz certos sorrisos. Nesses casos, os protocolos podem ser grandes inimigos. Quem nunca ouviu amigos aconselharem a não falar de ex-relacionamentos, de sexo, de gostos estranhos, de comportamentos incomuns, de histórias de família… Não obstante, é recomendado também não falar demais, não dar muita atenção, não encarar muito nos olhos, não ligar no dia seguinte e nem tecer elogios muito significativos. E dar mais de um passo de cada veze? Jamais. Falar que está gostando? Não pode. Perguntar se o encontro foi bom? Nunquinha. Sexo antes do quinto encontro? Nem pensar. Muito menos toda e qualquer coisa que demonstre muito interesse noutrem. Desse modo, meus caros, a relação é cozida em banho Maria à temperatura ambiente.

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Não existe um jeito certo de agir… Só o que aceitamos, é claro.

 

Agora, falando sobre a realidade que me cerca, posso piorar um pouco essa situação. Curitiba é uma cidade de relações efêmeras, rápidas, confusas, turbulentas e muitas vezes atrofiadas. Se não for casual, deve-se demonstrar isso com toda uma sequência de normas tácitas, que custam a aprender. Caso seja, há subgrupos de normas a cumprir, também. Assim há protocolos para todas as situações. E todo mundo fica perdido, nisso. Essa cidade em que pessoas só se falam, mas não querem se conhecer, coleciona histórias de insucessos e frustrações. Por quê? Ora, porque ninguém diz o que quer. E quem diz é interpretado como carente ou libertino. No fim das contas, para um relacionamento surgir, ele deve ser mais eficiente do que uma fecundação num útero seco sendo alvo de espermatozoides sem cauda. Claro, há quem consegue. Existem pessoas que cumprem os protocolinhos e conseguem belas histórias de amor ou amizade. Também existe quem não se encaixa nesse padrão comportamental. Mas parece que isso é exceção. Nesse bairrismo mental, as pessoas dificultam a aproximação dos outros, sendo que só os loucos e mais problemáticos atravessam toda essa cerimônia. Muitas vezes causando “traumas” que fazem com que os protocolos sejam mais valorizados. Desse modo, aquela xícara de café velha só é trocada por quem conhece muito bem a nova. Ou não?!

E o que acontece quando a gente quebra os protocolos? O que surge quando se fala “nossa, estou gostando muito de te conhecer”, “Do nada, senti saudades”, “te achei bonito de verdade”, “você me fez bem”, “eu queria te ver”? Será que isso é o mesmo que selar as chances de desenvolver uma relação? Ou é melhor esconder qualquer emoção e revelar no “momento certo”? Será então tudo está fadado a não dar certo se assumirmos as coisas? Falar pra alguém que esse nos dá tesão é pecado? Admitir que o nervosismo é maior, pela mera presença de alguém é o mesmo que condenar-se? Aceitar e partilhar a própria fragilidade é ruim? Fazer tudo isso significa que há algo de errado com quem faz? Estaríamos condenados ao limbo, por isso? Sinceramente? Não sei. A única coisa que sei é que quando os dois lados quebram protocolos, tudo parece menos assustador. A sensação é de que nada está perdido. Quando aquele olhar cúmplice é lançado sobre você, e ambos assumem a “culpa”, é libertador. Mas isto, caríssimos, é outra história. Respeitando o protocolo da boa escrita, irei. E desculpe por qualquer coisa, seja por quebrar minhas xícaras ou nossas conclusões. c[_]

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O que acontece quando os “protocolos” são quebrados?

Autor: Egon Sulivan Stevani

Um mar de pensamentos verdes…

Desde Kant a maturidade é discutida pelo mar de cabeças afoitas por saber como nosso espécime se desenvolve. Nada se definiu, não obstante muito se criou com base em uma interpretação das declarações desse filósofo: ser maduro é ser autônomo. Por exemplo, a famosa Síndrome de Peter Pan. Tal síndrome demonstra a imaturidade de uma geração cuja independência se adquire após os 30 anos. Contudo, o objetivo deste texto é ilustrar como tal raciocínio é equivocado.

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Nada definiu.

 

Caiu-se ao abismo do entendimento comum que essa Síndrome é representada apenas pelo adulto cuja idade avançada pressuporia independência, porém ele ainda vive com os pais. Equívoco. Aquele impertinente do facebook, do instagram o qual posta várias selfies sem sentido e até constrangedoras, impondo, portanto, aos olhos alheios uma imagem no mínimo repulsiva, é um peter pan. O menino que nunca cresce se estagnou na idade da formação do Ego, tempo esse em que a criança não tem sentido de mundo interior e exterior, em outras palavras, ela acha que o mundo inteiro é ela assim como é dela. Assim sendo, esse adulto garoto crê ser o mundo ele próprio, logo, porque não postar o que bem desejar, já que tudo é ele, inclusive aqueles olhos alheios. Identificou alguém entre seus amigos virtuais? Posso asseverar a possibilidade de esse ser energúmeno não morar com os pais, pode, inclusive, dispor de um emprego razoável, consequentemente, de uma renda satisfatória. Quem sabe até o considere uma pessoa madura. Todavia, é certo a viabilidade de encontrar alhures uma mulher ou homem maduros não só em idade cuja dependência de algum familiar lhe é pesarosa. Obviamente este último não possui um comportamento reprovável nas redes sociais. Apesar disso, o oceano comum acredita piamente que dos dois o segundo possui a Síndrome citada só pelo fato dele não apresentar em seus bens uma casa enquanto o primeiro, por ter uma moradia própria, não contém nenhuma característica do garoto que não cresce. Para deixar claro, aviso que não é objetivo desse texto discorrer sobre psicologia, logo a Síndrome de Peter Pan exprime uma complexidade maior que a aqui apresentada, porém já é informação necessária para sairmos do senso comum.

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O oceano comum acredita piamente que…

Cai-me à memória, passando a outro assunto, um evento intrigante. Nas minhas deambulações observo uma mulher, provavelmente mãe, e uma menina de aparentemente 7 anos. Ambas prestes a atravessar a rua quando a criança para, Por que parou menina? Vamos logo, ouço com dificuldade, Mas o sinal está verde e é pros carros passarem, responde a pequenina. Com uma resposta brusca, Não está vindo carro nenhum, vamos logo menina, entrementes à fala, um movimento abrupto no qual a mão da mãe agarra o braço da criança e a puxa. Depois do ocorrido, martelou-me a mente um questionamento: quem foi a mais matura? A pequena que estava a seguir as regras de trânsito ou a adulta que estava a burlá-las? Kant pode esclarecer essa questão. Para ele a maturidade advém do esclarecimento, ou seja, quando faço uso do meu entendimento sem necessitar de um tutor, logo, sou autônomo, possuo minhas próprias ideias e princípios a partir dos ensinamentos recebidos outrora e buscados por mim mesmo quando atinjo a maioridade. No caso da menina, o tutor ensinaria que os carros passam quando o sinaleiro apresenta a cor verde, logo, a autonomia seria ter uma opinião formada sobre o que fazer quando o sinal apresenta essa cor, por conseguinte, fazer uso próprio dessa informação buscando um comportamento apropriado por si mesmo, sem auxílio externo. Tendo isso em mente, é possível deduzir que a menina é madura, ao menos nesse aspecto. Pode-se pensar que a mãe também apresenta tal maturidade, afinal, assim como a criança, ela também apresenta uma opinião formada sobre tal regra. Contudo, tal atitude é um reflexo, uma cópia da atitude de qualquer indivíduo, portanto, não pode ser denominada como autonomia, já que tal palavra tem origem grega – autos significa próprio, nomia vem de nomos que pode designar normas- e representa aquele que possui norma própria. Para Kant, a diferença entre o maduro e o imaturo é justamente que aquele apresenta seus próprios caminhos, sua própria opinião e conduta, enquanto este não tem tal capacidade, pois copia o comportamento do oceano previsível. Constata-se por meio desse evento, então, que a menina era mais madura que a própria mãe.

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Copia o comportamento do oceano previsível

Dito isso, pode-se deduzir que a economia influencia como pensamos a maturidade. Por primeiro, o adulto só é maduro quando tem um emprego que lhe forneça renda suficiente para comprar uma casa e ser independente. Por segundo, seguindo a mesma lógica apresentada anteriormente, uma criança não pode ser madura, afinal, depende financeiramente de alguém (assim como o adulto que mora com algum parente). Além disso, entende-se a frase “ser maduro é ser autônomo” como aquele que é independente economicamente. Percebe-se, a luz de Kant, a falha de tal raciocínio sobre a maturidade. Portanto, não dependam de um tutor, colham a informação recebida, ponderem sobre ela, busquem outras fontes sobre o assunto em questão, formem opinião própria e, o mais importante, fujam da conclusão massificada, pressurizada que lhes entregam. 

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Fuja do oceano previsível. 
Autor: Jope Leão Lobo.