Demasiado Demais

Minha vó sempre repetiu: “tudo que é demais, tudo que é exagero, faz mal”. Ela cumpre com essa máxima? Certamente que não. Minha avó, que amo muito, só para deixar claro, é mais do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Em todo caso, essa introdução não é para discorrer clichês e ditados ou lugares comuns. É para te trazer aqui pertinho de mim, pessoa que lê. Pra gente criar um laço, ter um momento gostoso nesse monte de palavras escolhidas ao acaso. Viu como já estamos mais íntimos agora que você sabe disso? Pois bem, sigamos como amálgamas. 

Final de 2024. Eu recebo uma avaliação sobre mim: de que sou excessivo  —  principalmente em um aspecto da sexualidade. Bem, essa avaliação veio de quem pode fazê-la, obviamente. Ao que tudo indica, há ainda outros que concordam com essa visão. Desde então eu tenho pensado muito no assunto. Ao invés de desassociar, eu assumi a possibilidade e comecei a pensar “e se eu sou excessivo mesmo?”. Será que isso seria simplesmente ruim? Se fosse, eu poderia fazer algo a respeito? Questões demais, autor de menos. Quiçá, as respostas precisassem ser entendidas. Para tanto, busquei amigas e amigos, levei para a terapia e busquei meus eus interiores, recorrendo a memórias e toda sorte de recursos que eu dispusesse. Fato é, eu fiquei impactado com isso. Assim, comecei uma jornada. 

Já adianto que não terminei. Talvez nunca termine. A vida é assim, no fim das contas. E isso é ótimo. Outrossim, se eu tivesse minhas respostas fechadas e prontas, certamente não me preocuparia com retornos que os outros me colocassem. Meu mundo seria um purgatório de certos e errados meus, tão prontamente eu quisesse ignorar a complexidade das coisas. E, se fosse assim, talvez eu fosse constantemente feliz (o que, na prática de quem é senciente e consciente, não é possível).

Quem não é o caos de vez em quando?
Foto por Finn Semmer

Seja como for, fui às amizades. Expus o ocorrido e pedi uma opinião sincera. Entre muitas respostas, meus amigos e minhas amigas trouxeram grandes momentos em que cometi gafes, em que falei mais do que precisava e até outros nos quais eu ofendi alguém. Um deleite relembrar e perpassar meus defeitos, saboreando as falhas e aceitando que fiz aquilo mesmo. Um deslumbre. Contudo, nenhum deles e nenhuma delas acha que eu seja demais. No geral, a percepção deles é a seguinte: você (autor aqui) é extrovertido, gosta de muitos assuntos, se sente confortável em falar com os outros. Em algumas vezes, se empolga muito, mas isso não é demais. Não é sempre. Não é, sequer, frequente. 

Com essas respostas, eu levantei mais perguntas do que antes. E o fato de eu não estar colocando-as aqui, é porque isso é um texto dissertativo (é?!) e não uma lista de perguntas (uma lista de perguntas pode ser dissertativa?  — acho que não… acho). Contudo, algumas são insumo desses parágrafos. Por exemplo, qual é a frequência em que falar demais me tornaria demais? E outra, demais em que sentido? Em falar demais, sem parar, tal como um rio desaguando informação sem cessar? Demais em interagir muito, ao ponto de causar desconforto no outro? Demais em fazer coisas demais? Me empolgar demais? Criticar demais? Rir demais? Listar demais? Ora, demais no quê?

De todos a quem recorri, um amigo e uma amiga foram um tanto quanto mais detalhados em suas respostas. Esse amigo disse que não sou excessivo ao ponto de criar desconforto aos outros, nem que eu seja inconveniente ou cause incômodo constantemente. Ele me lembrou de momentos em que fui exagerado em falar coisas fora de hora ou até mesmo fui grosseiro. Mas não tanto como qualquer outra pessoa pudesse ser. Assim, na qualidade de extrovertido, eu sou meramente mais comunicativo do que um apanhado de pessoas próximas. Dentre todas as respostas, a dele foi uma das mais completas e gerou uma reflexão interessante. Só que não ‘resolve’ tudo, afinal, há um contexto e é a convivência. 

No passado, amigos que viveram comigo manifestaram a opinião de que era difícil viver comigo ou me acompanhar, porque eu simplesmente fazia coisas demais. Claro, no contexto em que dividia a casa com um amigo e eu cursava duas graduações ao mesmo tempo e dormia muito pouco para dar conta dessa rotina, certamente ele poderia ter essa impressão. Outros amigos comentavam que eu fazia parecer fácil ter diversas atividades simultâneas, mais graduações e vida social. Porém, apesar da visão incrível que tinham de mim, as comparações não eram boas. Primeiro, eu não tinha uma qualidade de vida tão boa para conseguir me dedicar às coisas que fazia  — eu dormia pouco. Eu até podia ver meus amigos e saía de vez em quando com amigas, mas isso era espaçado. Eu saí das redes sociais à época e eu vivia cansado e até estressado com pequenas coisas. Contudo, eu não reclamava das coisas. Sempre achei que reclamar por reclamar não ajuda, que no geral, atrapalha. Obviamente isso vem da minha vontade de me distanciar de quem fala “faça o que eu mando e não o que eu faço”, cuja vida era reclamação sem ação. Além disso, eu não faço muitas coisas ‘demais’. O tempo que eu uso para ler um mangá, escrever um texto, jogar RPG ou estudar, é o mesmo tempo que eu usaria para ver muitas coisas em um Instagram ou publicar coisas no X, finado Twitter. A quantidade de vezes que amigas iam à baladas e beijavam era uma quantidade superior em horas do que eu passava para estudar bioquímica ou história da alimentação. Eu não fazia demais e nem nunca fiz. Mas aí, se moro com quem quer se destacar no emprego, se aprofundar em muitos assuntos e se graduar em uma federal, mas que não consegue criar uma rotina de investir tempo para essas coisas, entretanto, consegue organizar 3 churrascos por mês, acho que a frustração dele não era comigo. Eu era o alvo. E nesse sentido, eu certamente sou demais se comparar do jeito enviesado. E, claro, o fato de que eu estava solteiro e sem ficar com outras ou outros, passou despercebido por esses amigos. Eu ainda tinha toda uma questão de sexualidade não resolvida, não explorada, não vivida e bem desentendida. E esse foi o ponto que aquela amiga do retorno interessante trouxe. 

Sabe quando a gente tem uma amiga boa, mas boa mesmo? Daquela que discute com a gente num nível de questionamento que não deixa a desejar? Que não recorre a respostas mágicas ou qualquer sorte de bobagem que não seja justamente a consequência dos nossos atos e a responsabilidade das nossas ações? Pois é, essa amiga é assim. Um debulho e maravilhosa. E foi com ela quem mais discuti. E aqui, antes do texto beirar uma intimidade muito preocupante, pessoa que me lê, vamos tomar medidas para não ser demais para você. A conversa com ela foi boa, levantando perguntas no processo. E o assunto da sexualidade obviamente veio à tona: já que eu poderia ser sexualizado demais. E isso é algo não incomum em homens gays (tem literatura, vídeos no Youtube, artigos na internet todinha que abordam o tema). Poderia até ser compulsão, quem sabe? Quem sabe eu mesmo não deixei de fazer ainda mais coisas porque estava ocupado pensando em ou exercendo sexo. Ora, certamente poderia ser uma possibilidade. Mas, quanto à compulsão, vou deixar para checar na terapia — só pra ter certeza, afinal, eu quero investigar todas as possibilidades  — e não nestes parágrafos. 

De onde veio esse questionamento, esse retorno? Ora, do incômodo de um parceiro, da convivência comigo. Para deixar o mundo ciente, de todos meus namoros, oito ao todo, eu só namorei duas pessoas extrovertidas. Não sei se eu tenho um tipo, mas aconteceu que o restante todinho compõe cores de timidez e notas de mostrar-se e expressar-se pouco em público. Em todo caso, eu sempre fui o mais falante e expressivo na relação. 

Agora, segundo meu parceiro, eu sexualizo demais as coisas. Os comentários, as piadas, os toques, a libido… É de eu ver um cara bonito e comentar, seja um ator ou um aleatório num café. É por dizer que faria fulano e ciclano e mais um bocado de isso e aquilo. É também sobre interagir virtualmente, durante viagens, no mesmo campo. A visão dele certamente captura uma frequência muito maior do que dos amigos. Mas aí, o convívio captura tudo, não é mesmo? E, para um introvertido, acho que pode ser demais, muitas das vezes. Durante as conversas com meu parceiro, após a avaliação dele sobre meu comportamento, questionei sobre quem concordava com essa opinião dele de que eu sou sexualizado demais. Eis que o concordante é um amigo além do introvertido, que, a meu ver, é muito desconectado da sexualidade. Aí, é claro que o sujeito se incomodaria, não? Um cachorro lambendo as próprias bolas iria incomodar por estar mais sintonizado do que ele.

Sexuais demais.
Foto por Ketut Subiyanto

Após essa iluminação de quem tem essa visão, acho que o ‘demais’, sempre relativo, se torna muito momentâneo, muito circunstancial. No fim, não era tanto sobre mim. Acontece, que este texto é sobre mim (mas só?), assim como minha busca. Mas, e se, de fato, eu for demais em vários momentos? Na conversa com a minha ‘best’, eu falei do outro amigo que nem se interessa tanto por sexo assim. Então ela trouxe uma interpretação de Lacan: Difícil sentar ao lado de quem é livre. Desse modo, faz sentido que algumas pessoas sintam-se incomodadas. No fim, todo mundo pode incomodar todo mundo. Mas, da maneira como coloquei, fica parecendo que eu me entendo como livre, certo? Então, vamos elaborar isso. 

Em comparação a algumas pessoas, eu realmente acho que posso ser mais livre sim, no assunto sexualidade. Primeiro, eu não sou um homem hétero. Isso, por si só, já me obrigou a pensar minha sexualidade mais do que a maioria dos homens cis e heterosexuais contemporâneos a mim. Ainda, o assunto sexo sempre me interessou. Eu, dos três anos (idade na qual descobri como eram feitos os bebês) em diante, sempre me aproximei do assunto. Aos oito anos eu lia um livro de biologia do Telecurso 2000 e entendia termos como gônadas, espermatozóide, óvulo, fecundação, penetração, gestação e afins. Aos doze eu caçava, nos faróis do saber (bibliotecas públicas de Curitiba), livros que explicavam masturbação, partos, desejo sexual ou qualquer forma de saciar a curiosidade sobre o assunto. Na adolescência eu tinha conhecimento sobre ISTs (DSTs à época), métodos contraceptivos, riscos do contato com fluidos, problemas da má higiene genial para desenvolvimento de infecções. Eu claramente consumia toda porcaria rasa que passava na televisão sobre, e revirava os olhos às perguntas que eram óbvias, para mim, nos programas da tarde e da madrugada, como Programa Livre (SBT, 91-99) e Altas Horas (Globo, 99 em diante)  — gente, claro que sexo oral não engravida, o esperma vai ser digerido antes, pelo amor do seu deus. Eu também consumia revistas de curiosidades, coisas como: 150 perguntas e respostas sobre sexo. E mais muitas coisas. Era o único assunto que eu me interessava e consumia? Claro que não. Eu amava (e amo) ler e conhecer coisas. Tinha tanto interesse por sexualidade quanto por dinossauros, Pokémon, jogos, histórias em quadrinhos, mangá, química e comportamento humano. Saber das coisas e aprender é muito prazeroso. Me dá angústia não questionar os porquês das coisas, assim como os comos, quantos, os o quês e os ondes.

O que acontece, é que, na nossa sociedade ocidental americana, sexo não é conversado, quiçá discutido, livremente. Então, quando eu via que podia responder às dúvidas mais simples de quem estava ao meu redor, passei a ter mais prazer ao saber e falar do assunto. Ora, como homem LGBT+, eu tive que lidar com tudo que achava que sabia sobre mim mesmo. O fato de ter sido criado por uma família religiosa, a culpa cristã exalando em cada poro, e as questões de ter uma origem humilde, em que ninguém teve apreço ou tempo por conhecimento, fizeram minha jornada pessoal precisar de bastante aprendizado para me libertar de conceitos errados. Foi lendo muito artigo (como jovem adulto, dos 22 aos 25) que eu consegui entender que minha sexualidade não estava errada. Eu, mesmo com muita informação, fui me assumir pra mim mesmo muito tarde, já com vinte e cinco anos. E isso era só um começo: as questões da sexualidade experienciada tardiamente são comuns em gays, que acabam desenvolvendo comportamentos de risco para viver uma adolescência tardia. Sem contar coisas como descobrir-se sexualmente com um parceiro. Ainda, relações com o corpo, os pontos sobre a prática sexual em si, a falta de informação especializada sobre vivência e saúde gay, e tantos outros fatores são fundamentais ao entendimento de quem se identifica na sigla LGBTQIAPN+. Se a gente pensar um pouco, isso seria bem esperado, ainda mais num mundo em que o orgasmo feminino foi ‘descoberto’ há poucas décadas pelos homens. Dá pra imaginar, que pro cara que é heterossexual, que nunca teve a sexualidade questionada em si, nem precisou se justificar (para si mesmo ou para outros), que alguém que trate o assunto com naturalidade no dia a dia, isso seja algo potencialmente excessivo. No mais, acabo por ser alguém que gosta do assunto e está aberto a falar sobre. E a ouvir também. 

O que as pessoas esquecem, é que sexualidade permeia tudo. Pessoas queer não seriam mortas se a sexualidade delas não incomodasse. E não é o ato sexual de penetração (considerando que isso é uma modalidade que ocorre) ou qualquer prática que leve ao orgasmo (ou mero gozo). Sexualidade é tudo, bebê. É você se achando bonita ou feio em frente ao espelho. É seu gesto feminino de mexer as mãos e alinhá-las à cintura. É sua carinha fluída que atrai quem tem interesse. É sua masculinidade expressada por sua voz. E, obviamente, todos são fatores lidos pela lente da cultura e sociedade. E se estamos vivos no tempo de agora, nós iremos ser lidos pelo tempo de agora. A sexualidade está no cerne disso tudo. Na roupa, na entonação, nos gestos, na atração, no amor, na foda, no chá de bebê (gente, nós parabenizamos pessoas heterossexuais por terem transado e feito um feto), na forma do beijo, nos componentes do seu DNA. E eu sou só uma pessoa que enxerga sexualidade nisso tudo  — há outras. 

Então, sou eu excessivo, ou esse é só um desabafo inútil? Bem, não acho que desabafos sejam inúteis. Seja como for, eu sempre serei um pouquinho demais. Em alguns dias, bastante; em outros, pouco. Acho que o lance é ter consciência disso. Eu certamente irei comentar sobre sexualidade quando o assunto surgir. E certamente estarei com ouvidos dispostos quando alguém quiser me falar sobre. Preparado para acolher quando for preciso, e partilhar na hora em que for conveniente. Afinal, eu posso ajudar a resolver a dúvida ou a angústia de alguém  — nem que seja para recomendar um profissional. O que importa é que isso faz parte das interações humanas. Sexuadas ou não. No que tange qualquer assunto, eu sempre vou ser demais para alguém. E esse é o custo da convivência. Assim, quanto à sexualidade, concluo que eu só não sou uma ‘orelhinha virgem’. Agora, me conta, e você?
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Brigadeiro de festa

Este texto nasceu de uma conversa com um amigo do trabalho. Bem, isso era o que eu gostaria de dizer, mas está longe da verdade. Afinal, este texto é estrutura, tato, trabalho e esforço trôpego, quiçá, de seu autor. Contudo, a ideia foi concebida em uma conversa no trabalho, tão prazerosa quanto sua guloseima favorita. Embora o tema possua certa ductilidade em sua pretensão, pouco importa, pois é delicioso. Acontece que a conversa vasculhou em minhas memórias sensações de estimado valor, perscrutando reafirmações sobre meu próprio gosto, nessa constante autoavaliação duvidosa que nós nos fazemos só sempre. E sim, meu doce de festa favorito é o brigadeiro. 

Uma mesa decorada com muitas coisas, papéis e embalagens diversas. Enfeites, aqui e acolá, gente ansiosa, “mas não vão cantar parabéns logo?”, vozes tentando sussurrar obviedades que não podem ser ditas, crianças tamborilando pés e mãos e dentes de leite ou permanentes. Se para você esse cenário faz algum sentido, bem-vinda ou bem-vindo ao meu texto. Do contrário… constrangimento  —  ao menos para um dos lados.

Quando eu era pequeno, na década de 90, as pessoas faziam festas de aniversário. Elas aconteciam uma vez por ano (diferente dos “mêsversários” da atualidade) e começavam a partir de uma certa idade, quando a criança pudesse lembrar. Essas festas envolviam uma comoção familiar, em que precisava limpar a casa, liberar espaço, comprar insumos para fazer bolos, doces, salgados, buscando receitas antigas em cadernos, vizinhas, comadres ou compadres. As festas aconteciam, quase sempre, na casa do/da aniversariante, que seria a pessoa central do evento. Assim, o passo seguinte seriam os convites. A começar pelas tias e tios, primos, primas, e então aquela criatura de sexto grau de parentesco que nem se importa com quem faz aniversário, mas fica desolada se não for convidada, até chegar nos amigos e nas amigas que serão selecionadas a acrescentar no quórum de convivas. 

Como de praxe, vamos parar um pouco, quebrar o ritmo do texto e amolar a paciência de quem lê com questões (vamos? Estou falando de mim na terceira pessoa do plural? Estou eu considerando que a criatura que aqui lê estará comigo fazendo reflexões? Uma quebra dentro da quebra?). Vamos, não se aborreça comigo. Continuando! Se você leu os parágrafos acima, certamente viu que eu fiz um recorte de tempo, de classe, de posição social, de crença, de cultura e de idade, e até de alguns outros. Fazer recortes é bom, tanto quanto cortar uma fatia de bolo também o é. Dessarte, é importante salientar o significado disso na realidade: essa não era a realidade de muita gente. Festa de aniversário para pessoas que são órfãs, autistas, cadeirantes, ricas ou tristemente miseráveis são realidades que não conheci e, por isso, sou limitado a esboçar adequadamente aqui. Para além disso, há quem não comemore aniversários, como pessoas testemunhas de Jeová ou pessoas que escolhem não comemorar pois não veem nisso significados. Seja como for, meu texto não é sobre todas e todos, longe disso, é para mostrar um gosto mesmo que pode ser compartilhado contigo ou não. E também para que a gente possa olhar para algo que pode ser corriqueiro e ver que tem muito tempero para apreciar nesse recheio da vida. Seja como for, acho bom você se identificar em que ponto sua existência está no universo dos aniversários. Fez isso? Ande uma casa…

Outro ponto que vou frizar e anunciar antes é que as festas que falei ali eram íntimas. Eram festas em casa, com limitações que as casas podem ter. Não eram salas alugadas em que tudo está pronto e encomendado e limpo, organizado, estéril, infértil, servil e distante. Também são com quitutes feitos em casa, a maioria, sem tantas embalagens, algoritmos de serviço para qual bandeja tem que aquecer e servir primeiro, mandando para o salão. As festas que estou falando são em casa, feitas 100% do esforço amador que deixa as lembranças juntinhas e aquecidas no coração. Claro que não faço juízo de valor sobre serem melhores do que outros modelos de festa. São apenas a minha preferência. E por fim, a festa só tem sentido quando quem aniversaria tem chance de aproveitar a própria festa (sinto muito, se um bebê que nem diferencia sons ainda está numa festa para ele mesmo, ou ela mesma, então a festa é para outra pessoa… talvez para um pai ou uma mãe biscoitar em rede social). Seja como for, uma festa tem que ser festiva. E tem que ter brigadeiro  —  ao menos se for pra mim.

A muvuca que eram as festas são lembranças divertidas. Dá para ver a fofoca ganhar vida, dá para passar vergonha cantando as músicas que sempre são listas peculiares e dá para quase tocar a ansiedade de quem quer comer logo os docinhos. E por falar em docinhos, é difícil dizer qual a gente quer primeiro se tiver variedade. Aqueles pratinhos que a gente empilha montanhas de doces nunca são suficientes para uma única jornada à mesa de doces. É preciso provar por partes. Eu sempre focava nos beijinhos e brigadeiros primeiro. Como nunca fui fã de coco, tem que começar pelo “pior”. Depois vem as delícias de olhos-de-sogra (um nome condenável), os cajuzinhos e os brigadeiros. Depois, dois amores (hummmmm) e brigadeiro (hummmmmm). Caso houvesse presente diversidades como gelatina colorida ou algum creme de maracujá, esse terceiro momento os contemplaria. E a sequência de passos era ir à mesa, pegar os doces, comer longe e repetir. De preferência longe do tio chato e fofoqueiro que fica controlando o quanto você vai comer. O melhor era quando havia mesas de docinhos e salgadinhos distribuídas, assim dava para intercalar aonde ir buscar, sem chamar atenção de parente chato de aniversariante. E sim, eu ia às festinhas para comer mesmo, que é a melhor parte. E por falar em comer (mais ainda), não posso deixar de lado os salgadinhos. Eu era amante dos mini quibes, dando moral de leve às mini-coxinhas. Claro que os amantes de bolinhas de queijo, os mini-croquetes, as mini-empadas, os pasteizinhos assados ou fritos e as empadas. O mundo dos salgadinhos de festa era à parte, e, confesso, minha parte favorita. Primeiro porque vinha antes do bolo, enquanto os docinhos eram liberados depois. Bolo…

Claro que não dá para falar de festa de aniversário e não falar de bolo. De todos, o meu favorito sempre foi o de chocolate com cobertura de chocolate. Na década de 90, era chamado de nega-maluca. E há um sentimento triste em relação à nomenclatura, que faz menção a um estereótipo de mulher negra, pois era meu bolo favorito em minha ignorância  —  quem dera eu puder mudar a história e associar o nome a um novo estereótipo, de mulher negra incrível que super os outros em tudo, tal como o bolo. Obviamente se eu pudesse mudar a história, mudaria outras coisas prioritárias, né? Então vamos superar a romantização de nome de bolo de agride. Em todo caso, esse também era o bolo mais comum nas festas em que fui ou mesmo tive. Assim como o brigadeiro era praticamente unânime. Há uma razão para isso, certamente: chama-se acesso. Se você nunca teve que se preocupar se iria ou não ter uma festa de aniversário até começar sua vida adulta, então esse texto não é para você. Lamento. Se suas preocupações eram com qual doce escolher, qual roupa usar e quem irá cantar na sua festinha, então esse texto também não é para você. Não no sentido de que estou te proibindo de ler  —  jamais, “friend”  —  mas em ser parte dele, de mim para você. Esse presente eu te nego (alguém tem que te negar algo, né?). E voltando a falar de acesso, isso está muito ligado ao sentimento de preciosismo para com essas festinhas. Quem já viu uma mãe e uma tia virarem uma noite, depois de um dia de trabalho, para enrolar brigadeiro e bater um bolo caseiro absolutamente delicioso, para um ser que não sabe o trabalho que dá fazer uma festa “com o que se tem”, sabe muito bem que o gosto desses docinhos são de “valorização”. Quem já viu um pai correr para pegar ingredientes, montar uma mesa e um brinquedo emprestado para que alguém da prole acordasse e pulasse de alegria no dia de seu aniversário, sabe dar valor ao esforço de uma festinha em casa. Quem já se mudou tanto que perdeu a noção dos dias, mas acordou no próprio aniversário com festa de aniversário na cama, com mãe, avó e duas tias, com brigadeiro de panela, coxinha, quibe e um bolo aprendido no dia anterior e tudo feito com muito empenho na madrugada  —  pois o trabalho era muito e o dinheiro nem sempre acompanhava  —  sabe como é uma delícia só ser lembrado quando já se tinha desistido da ideia de “fazer aniversário”. Brigadeiro, meu bem!!! Leite condensado, margarina ou manteiga, achocolatado ou cacau e uma panela. E pode ser o melhor doce do mundo, com significados que o cobrem até o fim dos tempos, granuladinhos. Como não amar?!

E assim como toda festa delícia no mundo chega ao fim, esse texto chegou ao seu final. Confesso que deu fome lembrar de tanta coisa boa. Mas deu mais trabalho pensar que toda a magia das lembranças envolve uma variedade de questões e problemáticas que não se encerram no próprio assunto. E, certamente, não estou invalidando outras formas de festas de aniversário. Só valorizando as que são recheadas de significado. Seja como for, não vejo a hora de poder fazer uma festinha íntima de novo. Pessoas que amamos, em casa, tudo feito à mão se possível (ok, dá pra encomendar alguma coisa de uma doceira local) e música bem estranha pra completar. Acho até que vou chamar o amigo que ajudou a criar este texto datado e combinar uma festinha de aniversário atrasada quando a vacina chegar. Eu fico com os brigadeiros, ele com os cajuzinhos e você com o café.

2020 terças-feiras

O não indiferente ano de 2020 está acabando. Declarar isso significa deixar o texto datado, e é importante que assim seja. Além disso, esse é um texto bem pessoal, então se controle. Com o final do ano se aproximando, chegam as comemorações de ano novo. E confesso que a celebração da data está entre minhas favoritas. Acho que sempre gostei de “ano novo”. Bem, não sempre, mas desde que aprendi a gostar, por influência da minha mãe  —  pensa, eu como bebê de seis meses adorando ano novo, sendo que nem sabia quais eram os conceitos de novo ou de ano. Em todo caso, a festividade me agrada. Porém, contudo, todavia, entretanto, but… (pausa dramática)… a minha  perspectiva sobre a festividade mudou ao longo da minha história. 

Eu posso citar o ano de 2013 como o grande ano “divisor de águas”. Foi um ano horroroso em vários sentidos e eu não os explicarei aqui. Antes dele, eu amava toda a ilusão de recomeço do ano novo, a escolha de metas novas, todas as resoluções que eu poderia tomar, a festividade e tudo mais. Eu era um serzinho cheio de esperanças e boa vontade. Agora, depois dele, eu decidi que a cada ano eu teria uma única resolução, que seria algo para dar conta de cumprir. Isso funcionou e logo mais falarei sobre. O ponto que quero tratar aqui é que depois de 2013, os seis anos seguintes foram bem servidos de caos. 

Eu sempre tive uma vida cheia de imprevistos. Isso é uma consequência direta de ter nascido na minha família, com quase incontáveis mudanças (de casa, cidade, estado…), um membro efetivamente facínora que deságua problemas nos demais familiares e acasos incessantes. Porém nos últimos seis anos as coisas intensificaram-se. Acho que não tive um único mês sem ter alguma mensagem de manhã sobre algum problema perturbador, alguma histeria dramática, alguma doença inesperada, comigo ou com alguém próximo. Nesse período, entre as coisas que aconteceram, dá pra citar as mais marcantes. Eu me assumi abertamente não heterossexual; Passei por um término com um cara que contraiu HIV durante o namoro (sabe-se lá como) e eu fiquei um ano fazendo exames até ter certeza que estava negativo mesmo (considerando todas as janelas imunológicas que li na literatura biomédica). E meu medo nem era o de conviver com o vírus, mas com as pessoas ao saberem; Eu tive meses de desordem “visceral”, e até hoje não sei o porquê, até porque a grana estava “curta” para ir a médicos e o tempo também era escasso. Felizmente passou, mas confesso que fazer prova de algoritmos II com seu corpo se contorcendo de dor, não é legal; Eu ingressei numa segunda graduação (que tem disciplina a de algoritmos), com meus três motivos sólidos à época; Minha mãe passou por um acidente e um tratamento para problemas pulmonares (que pelo que ela descreveu, parecia câncer e pode ter sido), em outro país, o que significa que eu podia fazer nada pra ajudar; Eu comecei a namorar e nós decidimos morar juntos, e tudo isso foi uma jornada para eu me abrir mais e compartilhar as coisas de dentro da minha cabeça; Um “parente” falsificou minha assinatura, alugou um apartamento, não pagou e eu ganhei uma dívida descomunal, uma dor de cabeça imensa e brigas com minha mãe para solucionar isso (e essa é apenas uma das tramoias que ele fez); Minha vó passou por mais de uma cirurgia, cujo processo todo englobou um monte de gente, salientando a disfuncionalidade familiar na família na qual eu nasci; Eu tive um cisto na “maçã do rosto”, que fiz acompanhamento por um ano (sem muita gente saber), até descobrir que teria que remover cirurgicamente. Cirurgia bem desagradável, posso dizer; Em um momento no meio disso tudo, tive minha primeira crise de ansiedade, antes de uma prova de estatística, e acabei deixando a matéria de lado; Eu tive que colocar aparelho nos dentes, logo depois que um molar trincou ao meio, pouco antes de ter que tratar o canal desse dente às pressas. Mas usar aparelho é algo tranquilo; Jogue aí também vários imprevistos, discussões familiares das quais eu nem estava presente e mesmo assim paguei um ônus, uma dose de homofobia velada (vinda das conexões de sangue, claro), conflitos com o fato de eu ser ateu numa família “mística”, uma lesão permanente no ombro, consumo de medicação para evitar complicações crônicas, caixa d’água furando e infiltrando meu telhado, reformas que não poderiam se adiadas e mais uma variedade de coisas menores semanalmente. Semanalmente.

Nossa, que parágrafo longo este último, né? Calma, respira, tá tudo bem. Agora, antes que você ache que foram anos ruins e tudo mais, despreocupe-se. Tudo isso e mais outras coisas aconteceram, sim, mas também muitas coisas boas estiveram presentes. E toda dificuldade superada nos deixa mais forte, certo? Claro que não. Essa coisa de ficar forte ou fraco deveria parar de ser propagada. O que acontece, é que a gente muda quando superamos coisas difíceis. Além disso, mudanças podem ser boas ou ruins. A gente pode se tornar insensível ou desenvolver mais empatia, por exemplo. Seja como for, a gente muda. E mudando, muda-se a visão sobre coisas como a passagem de ano novo. Nesse momento eu espero que você se pergunte, ou ao menos tenha se perguntado, porque eu listei todas essas coisas. E foi para falar, com um bom contexto comparativo, que 2020 está acabando. E que, para mim, foi um ano com certa ironia existencial. 

2020 não foi fácil e, por isso, foi historicamente marcante.
Foto por Anna Shvets em Pexels.com

Este ano foi o da pandemia, obrigando mudanças nas pessoas. Coisas antes que pareciam óbvias, mas não eram levadas a sério, como trabalhar em casa para vários tipos de funções, foram necessárias (e olha só, com vários aspectos positivos). Foi neste ano que saúde mental foi um assunto mais conversado (não muito compreendido, mas paciência) devido à sua necessidade, bem como todo mundo quase teve que ficar em casa, na obrigação de viver com as pessoas com quem se mora junto. Não poder sair, ter de usar máscara, sentir o medo disseminado, não saber qual a atitude certa para isso ou aquilo, entre tantas outras coisas, são condições desesperadoras para muita gente. Num cenário geral, 2020 foi péssimo e difícil. Para quem vive no Brasil houve o agravante de um governo incompetente na gestão adequada de um país. Entretanto, para mim, este foi um ano “bem bom”, ironicamente. E olha que eu passei por todas as coisas ali do começo deste parágrafo, assim como você. Por exemplo, morri de preocupações com minha mãe longe, tive minha produtividade testada constantemente (com vários fracassos nesse aspecto) e minha dupla do meu trabalho de conclusão de curso sumiu (espero que você esteja bem). Seja como for, foi neste período também que eu tive o privilégio de poder parar, pensar sobre minha própria vida, entender melhor algumas coisas e desafogar vários sentimentos. Esse ano está acabando muito melhor do que começou. E foi nele que minha vida se estabilizou sem tantas surpresas desagradáveis, sem tanto caos. Joguei muita romantização fora, muito lixo emocional também e tudo o que sobrou foram mudanças. E mudanças que gostei.

Com o vindouro 2021, vou manter minha tradição de uma única resolução. Uma só é mais do que suficiente para dar trabalho. E isso, claro, não implica em não ter metas e objetivos. Mas a resolução é a parte mágica da qual dá para tirar proveito, afinal. Em 2014 minha resolução foi de terminar coisas que comecei ou de abandoná-las. E olha, foi bem bom isso. 2015 eu decidi ser mais gentil com as pessoas, enquanto em 2016 eu queria ter uma rotina produtiva e diária (tolo de mim). 2017 foi a vez de fazer coisas mesmo com medo, o que nem funcionou muito, mas deu boa. 2018 decidi não ficar perdendo tempo com coisas que não me seriam úteis ou boas  —  adeus redes sociais. 2019 eu queria melhorar minhas “soft skills”, mas fracassei (fiz isso no ano seguinte). Esse ano eu busquei ser mais gentil comigo mesmo, e tô indo bem. Enfim, cada resolução é uma tentativa de ser uma pessoa um pouco melhor, tentando fazer isso de forma mais realista.  

Imagine aqui uma citação do gato de Alice no País das Maravilhas, nessa imagem linda, que pode ou não ter a ver com o texto.
Foto por Filippo Peisino em Pexels.com

“Então, o que você quer dizer, autor?” Ora, quero dizer que as coisas mudam. Algumas vezes ficam mais fáceis, outras mais difíceis. Eu tive muitos privilégios na vida, confesso, mas poucos não acoplados com alguma chantagem emocional ou uma cobrança robusta. Em todo caso, eu cresci em meio a um caos, oriundo da minha família, e para não cortar relações, permaneci próximo o suficiente para não desaparecer e minimizar conflitos. Assim, no ano em que o mundo se sentiu obrigado a ter que mudar os planos, eu me senti numa terça-feira. E compartilhar isso com outras pessoas, essa sensação de estar cansado de estar cansado, tem seu lado bom. Claro, ver um lado positivo nesse 2020 não compensa o sofrimento de tantas vidas perdidas, em momento algum. Inclusive, pessoas próximas morreram neste ano, e deixaram um vazio nas vidas de quem os conhecia. Em todo caso, está acabando. E por sorte e pelo esforço de muita gente em não disseminar mais ainda a doença, estamos vivos para escrever ou ler algo como isso aqui. Finalmente, nessa conclusão que “nem conclui”, eu desejo um ano novo bom para todos  —  até para o abjeto ser que há cinco anos está protegido em camadas espessas de justificativas e indiretamente permanece em minha vida. Desejo um 2021 melhor, mais agradável que seu antecessor. E que mesmo que tudo pareça incrivelmente problemático, com a quantidade de tempo certa dá para melhorar. Feliz ano novo, muito bom humor, mudanças positivas, momentos reconfortante, aconchego e um feliz café. c[_]

Caminho de pedras

Que Bilac me perdoe, todavia, quero o turbilhão da rua. Observo as ruas, percebo os movimentos, noto os acontecimentos. Escrevo como um deambulante, capto sensações avulsas e lapido-as até que tenham forma. Desculpem-me, caros leitores, por, várias vezes, tal forma não ser agradável. Além disso, não posso deixar de pedir perdão por minha lente estar, inúmeras vezes, quebrada. Meu texto possui um conteúdo torto, afinal minha escrita é a multidão, o barulho, o turbilhão.
Que continue a me perdoar, contudo, não sou um ourives. Não moldo palavras nem as faço joias. Posso dizer que as escolho num irrequieto, angustiado, dolorido, labutado e raciocinado dedilhar ou mover de mãos. Minhas frases, meus caros, são o caminho o qual desejo que percorram; as pedras, elas são as palavras. As palavras no meio do caminho; não as deixo para atordoá-lo, atormentá-lo – talvez um pouco – porém, deixo-as para formar uma construção sólida para que vossa pessoa possa caminhar meu texto e, quando necessário, para que tropece em suas pedras. Em suma, para que declare: “Tinha uma pedra no meio do caminho” ou “No meio do caminho tinha uma pedra”; qual das frases ficará em suas retinas fatigadas não serei eu a escolher, caro leitor. Assim sendo, meu texto o faz escolher um caminho e uma pedra, ambos a atormentá-lo. Dessa forma, não sou um ourives, sou um construtor, um daqueles torto, que nascem gauche na vida.
Assim sendo, leitor, eu teria parado de ler na primeira linha, afinal, tudo o que deve saber é: que o parnasiano me perdoe. Entretanto, que autor não quer leitores? Eu seria um desses, provavelmente, por preferir um lirismo louco, conturbado, cheio de adversativas e de concessivas. Conquanto essa seja minha produção, racionalidade precede minhas construções, pedra por pedra cada uma num lugar exato, numa ordem calculada, numa interpretação ambígua. Dito isso, como um deambulante, estou a observar qual será a pedra no seu caminho.

Autor: Jope Leão Lobo.