Brigadeiro de festa

Este texto nasceu de uma conversa com um amigo do trabalho. Bem, isso era o que eu gostaria de dizer, mas está longe da verdade. Afinal, este texto é estrutura, tato, trabalho e esforço trôpego, quiçá, de seu autor. Contudo, a ideia foi concebida em uma conversa no trabalho, tão prazerosa quanto sua guloseima favorita. Embora o tema possua certa ductilidade em sua pretensão, pouco importa, pois é delicioso. Acontece que a conversa vasculhou em minhas memórias sensações de estimado valor, perscrutando reafirmações sobre meu próprio gosto, nessa constante autoavaliação duvidosa que nós nos fazemos só sempre. E sim, meu doce de festa favorito é o brigadeiro. 

Uma mesa decorada com muitas coisas, papéis e embalagens diversas. Enfeites, aqui e acolá, gente ansiosa, “mas não vão cantar parabéns logo?”, vozes tentando sussurrar obviedades que não podem ser ditas, crianças tamborilando pés e mãos e dentes de leite ou permanentes. Se para você esse cenário faz algum sentido, bem-vinda ou bem-vindo ao meu texto. Do contrário… constrangimento  —  ao menos para um dos lados.

Quando eu era pequeno, na década de 90, as pessoas faziam festas de aniversário. Elas aconteciam uma vez por ano (diferente dos “mêsversários” da atualidade) e começavam a partir de uma certa idade, quando a criança pudesse lembrar. Essas festas envolviam uma comoção familiar, em que precisava limpar a casa, liberar espaço, comprar insumos para fazer bolos, doces, salgados, buscando receitas antigas em cadernos, vizinhas, comadres ou compadres. As festas aconteciam, quase sempre, na casa do/da aniversariante, que seria a pessoa central do evento. Assim, o passo seguinte seriam os convites. A começar pelas tias e tios, primos, primas, e então aquela criatura de sexto grau de parentesco que nem se importa com quem faz aniversário, mas fica desolada se não for convidada, até chegar nos amigos e nas amigas que serão selecionadas a acrescentar no quórum de convivas. 

Como de praxe, vamos parar um pouco, quebrar o ritmo do texto e amolar a paciência de quem lê com questões (vamos? Estou falando de mim na terceira pessoa do plural? Estou eu considerando que a criatura que aqui lê estará comigo fazendo reflexões? Uma quebra dentro da quebra?). Vamos, não se aborreça comigo. Continuando! Se você leu os parágrafos acima, certamente viu que eu fiz um recorte de tempo, de classe, de posição social, de crença, de cultura e de idade, e até de alguns outros. Fazer recortes é bom, tanto quanto cortar uma fatia de bolo também o é. Dessarte, é importante salientar o significado disso na realidade: essa não era a realidade de muita gente. Festa de aniversário para pessoas que são órfãs, autistas, cadeirantes, ricas ou tristemente miseráveis são realidades que não conheci e, por isso, sou limitado a esboçar adequadamente aqui. Para além disso, há quem não comemore aniversários, como pessoas testemunhas de Jeová ou pessoas que escolhem não comemorar pois não veem nisso significados. Seja como for, meu texto não é sobre todas e todos, longe disso, é para mostrar um gosto mesmo que pode ser compartilhado contigo ou não. E também para que a gente possa olhar para algo que pode ser corriqueiro e ver que tem muito tempero para apreciar nesse recheio da vida. Seja como for, acho bom você se identificar em que ponto sua existência está no universo dos aniversários. Fez isso? Ande uma casa…

Outro ponto que vou frizar e anunciar antes é que as festas que falei ali eram íntimas. Eram festas em casa, com limitações que as casas podem ter. Não eram salas alugadas em que tudo está pronto e encomendado e limpo, organizado, estéril, infértil, servil e distante. Também são com quitutes feitos em casa, a maioria, sem tantas embalagens, algoritmos de serviço para qual bandeja tem que aquecer e servir primeiro, mandando para o salão. As festas que estou falando são em casa, feitas 100% do esforço amador que deixa as lembranças juntinhas e aquecidas no coração. Claro que não faço juízo de valor sobre serem melhores do que outros modelos de festa. São apenas a minha preferência. E por fim, a festa só tem sentido quando quem aniversaria tem chance de aproveitar a própria festa (sinto muito, se um bebê que nem diferencia sons ainda está numa festa para ele mesmo, ou ela mesma, então a festa é para outra pessoa… talvez para um pai ou uma mãe biscoitar em rede social). Seja como for, uma festa tem que ser festiva. E tem que ter brigadeiro  —  ao menos se for pra mim.

A muvuca que eram as festas são lembranças divertidas. Dá para ver a fofoca ganhar vida, dá para passar vergonha cantando as músicas que sempre são listas peculiares e dá para quase tocar a ansiedade de quem quer comer logo os docinhos. E por falar em docinhos, é difícil dizer qual a gente quer primeiro se tiver variedade. Aqueles pratinhos que a gente empilha montanhas de doces nunca são suficientes para uma única jornada à mesa de doces. É preciso provar por partes. Eu sempre focava nos beijinhos e brigadeiros primeiro. Como nunca fui fã de coco, tem que começar pelo “pior”. Depois vem as delícias de olhos-de-sogra (um nome condenável), os cajuzinhos e os brigadeiros. Depois, dois amores (hummmmm) e brigadeiro (hummmmmm). Caso houvesse presente diversidades como gelatina colorida ou algum creme de maracujá, esse terceiro momento os contemplaria. E a sequência de passos era ir à mesa, pegar os doces, comer longe e repetir. De preferência longe do tio chato e fofoqueiro que fica controlando o quanto você vai comer. O melhor era quando havia mesas de docinhos e salgadinhos distribuídas, assim dava para intercalar aonde ir buscar, sem chamar atenção de parente chato de aniversariante. E sim, eu ia às festinhas para comer mesmo, que é a melhor parte. E por falar em comer (mais ainda), não posso deixar de lado os salgadinhos. Eu era amante dos mini quibes, dando moral de leve às mini-coxinhas. Claro que os amantes de bolinhas de queijo, os mini-croquetes, as mini-empadas, os pasteizinhos assados ou fritos e as empadas. O mundo dos salgadinhos de festa era à parte, e, confesso, minha parte favorita. Primeiro porque vinha antes do bolo, enquanto os docinhos eram liberados depois. Bolo…

Claro que não dá para falar de festa de aniversário e não falar de bolo. De todos, o meu favorito sempre foi o de chocolate com cobertura de chocolate. Na década de 90, era chamado de nega-maluca. E há um sentimento triste em relação à nomenclatura, que faz menção a um estereótipo de mulher negra, pois era meu bolo favorito em minha ignorância  —  quem dera eu puder mudar a história e associar o nome a um novo estereótipo, de mulher negra incrível que super os outros em tudo, tal como o bolo. Obviamente se eu pudesse mudar a história, mudaria outras coisas prioritárias, né? Então vamos superar a romantização de nome de bolo de agride. Em todo caso, esse também era o bolo mais comum nas festas em que fui ou mesmo tive. Assim como o brigadeiro era praticamente unânime. Há uma razão para isso, certamente: chama-se acesso. Se você nunca teve que se preocupar se iria ou não ter uma festa de aniversário até começar sua vida adulta, então esse texto não é para você. Lamento. Se suas preocupações eram com qual doce escolher, qual roupa usar e quem irá cantar na sua festinha, então esse texto também não é para você. Não no sentido de que estou te proibindo de ler  —  jamais, “friend”  —  mas em ser parte dele, de mim para você. Esse presente eu te nego (alguém tem que te negar algo, né?). E voltando a falar de acesso, isso está muito ligado ao sentimento de preciosismo para com essas festinhas. Quem já viu uma mãe e uma tia virarem uma noite, depois de um dia de trabalho, para enrolar brigadeiro e bater um bolo caseiro absolutamente delicioso, para um ser que não sabe o trabalho que dá fazer uma festa “com o que se tem”, sabe muito bem que o gosto desses docinhos são de “valorização”. Quem já viu um pai correr para pegar ingredientes, montar uma mesa e um brinquedo emprestado para que alguém da prole acordasse e pulasse de alegria no dia de seu aniversário, sabe dar valor ao esforço de uma festinha em casa. Quem já se mudou tanto que perdeu a noção dos dias, mas acordou no próprio aniversário com festa de aniversário na cama, com mãe, avó e duas tias, com brigadeiro de panela, coxinha, quibe e um bolo aprendido no dia anterior e tudo feito com muito empenho na madrugada  —  pois o trabalho era muito e o dinheiro nem sempre acompanhava  —  sabe como é uma delícia só ser lembrado quando já se tinha desistido da ideia de “fazer aniversário”. Brigadeiro, meu bem!!! Leite condensado, margarina ou manteiga, achocolatado ou cacau e uma panela. E pode ser o melhor doce do mundo, com significados que o cobrem até o fim dos tempos, granuladinhos. Como não amar?!

E assim como toda festa delícia no mundo chega ao fim, esse texto chegou ao seu final. Confesso que deu fome lembrar de tanta coisa boa. Mas deu mais trabalho pensar que toda a magia das lembranças envolve uma variedade de questões e problemáticas que não se encerram no próprio assunto. E, certamente, não estou invalidando outras formas de festas de aniversário. Só valorizando as que são recheadas de significado. Seja como for, não vejo a hora de poder fazer uma festinha íntima de novo. Pessoas que amamos, em casa, tudo feito à mão se possível (ok, dá pra encomendar alguma coisa de uma doceira local) e música bem estranha pra completar. Acho até que vou chamar o amigo que ajudou a criar este texto datado e combinar uma festinha de aniversário atrasada quando a vacina chegar. Eu fico com os brigadeiros, ele com os cajuzinhos e você com o café.

Hora do Café!

Não é de hoje que sou apreciador de cafés. Porém não é de sempre. Tudo começou, penso eu, durante a oitava série em meados de 2002, época de Bhaskara e introdução à química. Lembro agora, que o começo não foi por gosto, confesso, afinal, meu acesso ao café era pela infusão confusa que lembrava um chá, com um pó de pouca ou nenhuma qualidade. Contudo, havia necessidade, cuja razão pedia para cobrir madrugadas em trabalhos, pela primeira vez, porventura, esmerados. E assim passei a “usar” meu futuro amigo, combustível do despertar, algoz da minha atenção. Não foi fácil, acreditem. Eu sequer sabia aproveitar, e abusava de açúcar, produzindo esgares a cada gole. Deplorável da minha parte.

Essa relação, caríssimos, perdurou até pouco tempo após o término do ensino médio. Somente em 2007, época de cursinho, que evoluí para apreciador, capaz de experienciar um bom café, distinguir alguns nuances, detectar histórias palatáveis. Para tal, obtive ajuda dum gatilho inesperado num amigo improvável. Fora dentro do España Café que, com sugestões e estímulos do encantador barista, Giovani Bonfim, passei a provar formas diferentes para o, até então não tão amado, café.

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Mocha: Sabor divertido e aconchegante.

A primeira, e mais inesquecível, recomendação foi o moca (ou mocha). Para quem desconhece, é uma variação do café com leite, que abusa das diferenças de densidade dos compostos da bebida, para então dividi-la em camadas. Aqui, o chocolate repousa no fundo, criando uma base densa e aveludada. Sobre este, leite seguido de café, imediatamente coberto de chantilly. À primeira vista, parece mais apreciável com os olhos do que com as papilas, de apresentação reconfortante e modesta. Lembro perfeitamente de perguntar para o Giovani como eu iria beber aquilo. A resposta mais completa, depois do óbvio “como você quiser”, veio como a seguinte sugestão: “bata tudo com a colher, bem rápido, e experimente”. Incrível! A presença dos amargos de café e chocolate, enraizados no leite apaziguador, traz à boca suspiros. Ainda, uma doçura “chocolática” inunda as papilas e acolhe a alma. Juntos, degradam chantilly e efluem sabor. Bastou uma xícara para me render aquele mundo do café.

Irish Coffee: Elegante, sedutor, poderoso...
Irish Coffee: Elegante, sedutor, poderoso…

Logo os horizontes se expandiram. Vieram doppios e lungos, puros como anjos e fortes como o amor. Imortalizando xícaras e momentos. Acordando dias em prazeres jubilantes. Em outros momentos, não tão matutinos, vieram os maravilhosos correto e Irish coffee, deslumbrantes em sensações. O primeiro, fusiona licor (ou Whisky) à soberba líquida, enaltecendo os gostos residuais e marcando o paladar ao primeiro contato. O último, clássico irlandês, criação de Joe Sheridan, combina Whiskey (sim, há diferença com o Whisky), leite ou espuma de leite, e açúcar mascavo, tornando a experiência forte e o gosto marcante. O Irish é ousado ao trespassar o paladar, conquistando o estômago, quando nos esquente e energiza, sem remorsos. Outrossim vieram os espressos italianos, lattes, romanos, pannas e uma quase infinidade de variações. Destarte, o café fez-me feliz. Acordados no prazer e na devoção um ao outro.

O café é surpreendente. Concordo com Ducasse ao manifestar tal admiração, por um produto de tão vasta utilização, cuja sorte de variações é infindável. Cada uma das apenas quatro espécies, arábica, robusta, racemosa e libérica, apresenta características que alteram-se de acordo com a moagem, cultivo e torrefação dos grãos. Assim, o café assume dimensões colossais, servindo a todo e qualquer momento. Sua existência critica qualquer momento prévio, ausente de seus cuidados. Ele suprime o sono e zurzi à razão. Uma entidade sem necessidade de explicações, tal qual a causalidade de Kant. Sua única necessidade é sobrepujar os sentidos, ora como bebida, ora como insumo dos mais incríveis pratos. Sejam nos charutos de chocolates com mousse de café, pudins de café, bolachas, cremes, bolos, sorvetes, tiramisus, frapês… a lista não para. Seus prazeres competem com o sexo mais lascivo que puder imaginar, e como tal, esquenta, anima e desperta. E o café não tem, sequer precisa, de hora. Contudo…

Tiramisu, uma das muitas delícias feitas com café.
Tiramisu, uma das muitas delícias feitas com café.

Ontem à noite, no intervalos das atividades, fui comprar um café – um simplório e sedutor tradicional “passado”. Gentilmente pedi um café puro, preto como a morte, para estender um pouco mais a noite. A atendente desgostou, ecoando sua desaprovação nas míseras palavras seguintes: “café puro ‘essazoras’?!” – vomitando sarcasmo. Buscou a bebida com descaso, a contragosto, desfilando caretas. Fosse menos tranquilo, questionaria-a em alto e bom som. Entretanto, isso não é necessário. Há quem não entenda o deleite reverberante da bebida que esquenta o coração e preenche os sentimentos. A pobre alma não concebe o amado grão não prende-se no tempo, nem precisa da aprovação comum. Ao café basta a água quente e um recipiente no qual caiba altivez líquida, paixão quente, inquietação forte, gosto celeste e alma negra. Assim, peguei meu café. Bebi. Sorvi uma noite melhor. Agora, que tal uma caneca bem cheia de café? c[_]

Autor: Egon Sulivan

Mesa pra um…

Você adentra o restaurante, observa o panorama e vê um bom ambiente. Decide, então, comer ali. Um garçom se aproxima e pergunta “Mesa para quantos?”. Eu respondo “Para um!”. Nisso, o indivíduo parece entrar em parafuso e desencadeia incredulidade: “Tem certeza? Você não está esperando mais ninguém?”. Claro, eu entrei no estabelecimento para mentir, de certo. Ou melhor, me confundi. Certamente que não devolvi essa irreverência, mas a estranheza do rapaz – e não só dele, como de muitos outros antes, com os quais já fizera o mesmo pedido – era impressionante. Quando confirmei, o pobre homem parecia uma TV chuviscando, desolado com a informação. O fato de que iria jantar sozinho parecia indigesto.

O jantar solitário... Quase demonizado.
O jantar solitário… Quase demonizado.

Indiferente à opinião do garçom, sentei-me à mesa. Após fazer meu pedido, passei a notar alguns olhares, tanto de clientes quanto dos funcionários. Eu era convizinho à existência do aborrecimento comum! Naquele dia sei que fui estorvo. Ora o garçom bestificava-se com o cliente solitário em meio ao restaurante lotado, ora a bartender demonstrava expressões piedosas. Sem contar os clientes, que aparentavam alguma ansiedade. O desejo de todos coincidia, ao menos pelos que podia sentir, que eu terminasse logo e fosse embora. Não quis! Saquei meus talheres e contemplei minha experiência gastronômica. Com uma mensagem não verbal, mandando todos ao oitavo inferno de Mephistópheles, degustei com lascívia meu prato. Quando parti, ri ao notar o alívio alheio.

Comer? Só se for acompanhado... Será?!
Comer? Só se for acompanhado… Será?!

Penso em como é comum ouvir afirmações do tipo “Á, eu não quero ir comer sozinho!” e outras derivações congruentes. Existe uma enorme resistência à experienciação solitária. Por um lado, entendo o quão bom ~quiçá melhor~ é rodear-se de amigos, familiares, pessoas a quem amamos ou mesmo ter aquela refeição romântica, com muitas intenções. Mas por outro lado, não vejo problema algum em comer sozinho. As duas situações deveriam ser igualmente aceitas. Infelizmente, não é o que ocorre.

Dado o contexto certo, igual ao meu caso no restaurante, comer sozinho passa mensagens “ruins”. Você pode ser visto como “o fracassado que tem ninguém” ou “o abandonado, desolado, descartado, pobrezinho e depressivo”. Ademais, adquire a característica de estorvo, transfigurando-se em incômodo aos presentes. Em parte, um único cliente ocupando uma única mesa (situação desnecessária, mas consensuada), significa uma redução da amplitude de clientela. Dessarte, não justifica a desaceitação.
Ninguém é obrigado a estar acompanhado.

Sim, você pode aproveitar ótimos momentos a sós.
Sim, você pode aproveitar ótimos momentos a sós.

O grande ponto é que qualquer um pode jantar sozinho, sem que isso signifique algo ruim. O prazer da experiência pode ser até maior, inclusive, já que a atenção não recebe competição. Seja para saborear um suculento mignon tenro, a cremosidade de um “gelato”, as texturas empilhadas duma tortilha ou o que for. Comer é um ato íntimo e não precisa ser compartilhado toda vez. Felizmente, surge uma tendência sem jantares a sós ~e isso ficará para outro dia. Seja você pedindo mesa para cem, dez ou um, não deixe de apreciar cada garfada.

Bom apetite. c[_]

A imoralidade do pão com ovo  

Não foram poucas as vezes que eu escutei afirmações discriminativas sobre minha comida. Comida chique, comida de pobre, comida de rico, de hipster, executiva, infantil, complicada (essa é, particularmente, muito boa) e algumas outras. Acho muito incrível que algumas pessoas vêem, nitidamente, essa distinção. Assim, penso na inutilidade de tal segregação aplicada, diretamente, sobre a comida. Mais curioso é que alguns assumem, como mandamentos, que não comem determinado tipo de comida, partindo de argumentos como  “isso é chique demais para mim”, “eu não vou comer isso, coisa de quem não tem condições” ou mesmo “isso é comida de bicho”. Eu adoraria perguntar aos “estômagos” dessas pessoas: você nota o quanto é gasto num prato? O que você acha ao comer o mesmo alimento que um animal de outra espécie come? Você acha que esse tomate valeu o investimento? Quando você come algo de outra classe, o que você faz para digerir? Se pudesse responder, certamente manifestaria, claramente, confusão com tais perguntas.

Prato feito (PF) - Alvo de intolerâncias contraditórias.
Prato feito (PF) – Alvo de intolerâncias contraditórias.

Tais “argumentos” (se é que poderia chamá-los assim) são, no mínimo, um delírio. Primeiro, porque muitos desses juízos não passam de uma interpretação intolerante da própria cultura, assumindo uma dicotomia inexistente ao cerne da comida, do comer, da vida e da gastronomia. É bastante compreensível que a comida seja influenciada, em sua criação e em seu consumo, pela cultura que a cerca e representa. Entretanto, não consigo aceitar (ou melhor, tolerar) essa “ladainha” de que comida pode ser distinguida entre pobre e rica, como se fosse mais um divisor de classes. Mas, antes de discorrer minha discordância, farei algumas colocações.

A primeira coisa é assumir que a alimentação é inerente ao ser humano, participando e construindo imensamente na caracterização cultural. Isso não pode, de maneira nenhuma, ser ignorado. Contudo, a segmentação de que tal prato ou receita sejam de determinada “casta” não passa de absurdos. Somos os mesmo animais, com as mesmas necessidades e a mesma capacidade de apreciar algo que possa ser bom. Isto posto, é importante ressaltar um segundo ponto: somos indivíduos com memória – memória gustativa — responsável por boa parte das nossas escolhas alimentares, sem saber o preço do prato, muito menos importando-se se outro bicho se alimenta daquilo. No máximo, influenciará na “sensibilidade gustativa”, ao saber que aquilo “é melhor” – como se fosse um alimento para o seu escopo pessoal. Eu simplesmente não aceito tão ridícula divisão, que rotula de maneira burra, diluindo a importância real da comida. Comer envolve outra perspectiva.

Sou "caipira" demais para comer essas coisas chiques... Tá bom?!
Sou “caipira” demais para comer essas coisas chiques… Tá bom?!

O mais relevante na gastronomia é a experiência. Nesse quesito repousa o grande significado, a maior resposta, o verdadeiro destino dos comensais. Não há preço que melhore o cheiro dum ovo de mil dias, quiçá a textura de um escargot ou a sensação aveludada de um bom pudim. As estrelas de um restaurante não substituem os sabores da infância, o prato do primeiro beijo, o pedaço de bolo feito por sua mãe, naquele dia em que tudo parecia sem gosto. Desse modo, podemos listar inúmeros alimentos, consumidos de diversas formas e por diversas pessoas que, graciosamente, quebra essa moral imposta. Qualquer que seja a idade, a renda, etnia ou tribo, é possível encontrar um alimento, transformado em prato, que será transcrito como experiência feliz.

Cheiro e textura exageradamente distintos.
Ovo de mil dias: Cheiro e textura exageradamente distintos.

Nesse ponto temos o pão, quase um rei dos alimentos acessíveis, customizados, incorporados, modificados, adaptados, inclusos, caros, baratos, sofisticados, simples, anacrônicos e do que mais o pão quiser. Pão é pão e é irredutível, capaz de acolher gostos tão distintos quanto suas possibilidades. Não obstante, temos um grande aliado em congruência, “divacidade” e deliciosidade que, outrossim, faz papilas saltitarem: o ovo. Ambos são magnânimos na gastronomia, protagonizando entradas, guarnições e sobremesas. Colorem os lanches da tarde e enriquecem cafés da manhã, indecorosos às dietas e às afirmações pífias de que comida se divide em avaliações rasas. Juntos, chegam à soberba, com gosto eloquente e conceito humilde. Eis que temos o pão com ovo – e que os veganos me desculpem, mas não posso diminuir o significado desse insumo.

Tão bom...
Tão bom…

Penso que muitos possam ficar desacreditados com minha afirmação. Mas acalmem-se, eu explicarei. O pão com ovo é imoral à moral que defini, naquilo que observei. Simples assim. Ele é fácil de fazer e de agradar. Serve para gostos distintos, feito com diferentes ingredientes, tipos e técnicas de cocção. Pense numa ciabatta inundada pela gema suculenta do ovo, agregando cor e somando gosto ao sanduíche. Talvez prefira ovos mexidos com um pão caseiro tostado na manteiga, fazendo a manhã se render na sua boca. Ainda, há quem resista à maciez de um pão de leite com ovos mexidos cremosos?! É preciso certo esforço. Como não querer um pão francês com ovo na chapa, um croissant recheado com ovos picantes ou poché com pão australiano?! Dessa forma, quem pode afirmar qual é menos importante, mais chique ou “tribal” que outro? Além desses, outras delícias rebelam-se contra essa moral deturpada, como o brigadeiro, o macarrão, a coxinha, as farofas, os bolos, as compotas e muitas outras formas de prazer e experiência.

Do boteco à cozinha de Alain Ducasse, comer é uma experiência, que pode ser positiva em qualquer lugar. Tudo depende do quão disposto você está em aproveitar e do quão justo fora a forma como conseguiu. A comida pode se encaixar como simples, trivial, alta, baixa ou gourmet (que certamente serão tópicos futuros), mas nenhuma é melhor que a outra, ao tratarmos da experiência em potencial. Assim, é inconcebível se limitar por noções distorcidas. Independente do tamanho da fome, cabe a você render-se a sabores novos, apreciar antigos ou sentir o gosto presente. Qualquer posição limitadora é desnecessária. Bem como aquela moral.

Uma viagem… e gastronômica!

Antes que você, leitor, perscrute o blog numa busca infalível sobre conhecimentos ou referências gastronômicas, quero que entenda (e possivelmente compartilhe) a forma de pensar deste que escreve. Não vejo uma forma melhor de exemplificar como percebo a comida, senão com uma boa comparação. Imagine que agora você fará duas viagens, para o mesmo lugar e pelo mesmo período de tempo, divergindo apenas no que fará.

Na primeira vez você embarcará num avião, rumo a uma ilha. Você entra na aeronave, escolhe um passatempo, como ver um filme ou ler uma revista. O avião pousa e você pega um táxi no aeroporto e vai para seu hotel. Segue sua rotina – manhã: acordar, desejum, praia, almoço; tarde: praia ou alguma atividade intelectual; noite: jantar, televisão e sono. No término da viagem, faz o trajeto para casa. Agora, a outra viagem. Você entra no avião e vai para o seu assento, onde começa a folhear uma revista, lê um pouco e, inquietamente, começa a reparar à sua volta. Percebe uma criança tentando equilibrar a refeição na bandeja da poltrona da frente, uma senhora que conta, naturalmente, histórias para o passageiro ao lado dela sem preocupar-se com o interesse. Vê ainda a aeromoça fofocar para uma colega sobre a roupa de uma estrangeira extravagante. Sente o cheiro da comida sendo aquecida para a refeição vindoura. Interagindo com o nicho no avião, o tempo passa de forma fluida e o pouso chega a ser surpresa. No aeroporto você “puxa” conversa com uma mulher na fila para pegar suas bagagens, por tempo suficiente para ter um contato provisório na ilha. Chegando ao hotel você decide conhecer a cidade como ela realmente é (depois de acomodar-se e devorar alguns petiscos no bar). Além de andar, correr, se perder, nadar, conversar e fazer mil coisas, sem uma rotina certa, até o momento de voltar. Então, qual viagem você achou mais atraente? Em qual das duas você ficou interessado? Escolheu a segunda?!Pensamos o mesmo!

A mesma situação se reflete na alimentação. Você pode entrar em um restaurante, pedir seu prato, comer, pagar a conta e ir embora, ou você pode entrar, sentar, conversar com o garçom, notar o enxoval, ler o cardápio, receber o prato, degustar o sabor e o gosto e a beleza, para apenas então pensar em ir embora. A escolha de ter uma experiência gastronômica é sua. Ter a sensação reverberante do prazer de alimentar-se bem e confortavelmente ou apenas comer o trivial “gostoso”. Cabe a você decidir se degustará um confit du canard a cada mordida, percebendo a maciez da carne e o sabor do aroma suave das ervas empregadas ou se comerá apenas um prato “chique” e “caro”. É ainda sua escolha sentir a crocância de um pão francês quentinho, recheado de manteiga derretida à temperatura certa que se mescla ao recheio de um ovo frito, com gema mole certamente, para que esta inunde e nutra o miolo do pão, mesclando os sabores dos ingredientes com suas manhãs. Insisto ainda que é da obrigação de quem come notar a suculência de uma fruta fresca, o cheiro do café recém-passado, sentir as texturas contrapostas de uma tortilha, que empilha prazer divertido paras os fãs da diversidade matinal. Indo um pouco além, é impossível não notar que é o cliente, de qualquer estabelecimento, quem fica responsável em escolher o que comerá. Assim, deduzo que esta responsabilidade se expande na escolha de saborear a pasta regada ao molho de sua preferência, ou de sorver a bebida (que, espero eu, estar na temperatura adequada ao consumo) e saborear sua essência combinada com o prato pedido. Ou mesmo sobre aquele brownie indecoroso às dietas, ousando ser irreverente com as outras sobremesas, pois tamanho é o poder do cacau bem preparado, para, finalmente voltar satisfeito à própria casa.

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Brownie… genialidade simples.

É de seu livre arbítrio ter, a cada refeição, uma sensação que a fará especial. Não importa sua escolha, desde que sinta prazer em comer. Assim como você pode transformar qualquer viagem numa rotina sem significado, suas refeições também podem sofrer esta avaria. Então, convenhamos, comer é bom demais para deixar tal situação acontecer, certo?! Agora se prepare, arrume as malas e encha a boca d’água, pois onde há gastronomia nós iremos visitar. c[_].

Vamos?
Vamos?