Demasiado Demais

Minha vó sempre repetiu: “tudo que é demais, tudo que é exagero, faz mal”. Ela cumpre com essa máxima? Certamente que não. Minha avó, que amo muito, só para deixar claro, é mais do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Em todo caso, essa introdução não é para discorrer clichês e ditados ou lugares comuns. É para te trazer aqui pertinho de mim, pessoa que lê. Pra gente criar um laço, ter um momento gostoso nesse monte de palavras escolhidas ao acaso. Viu como já estamos mais íntimos agora que você sabe disso? Pois bem, sigamos como amálgamas. 

Final de 2024. Eu recebo uma avaliação sobre mim: de que sou excessivo  —  principalmente em um aspecto da sexualidade. Bem, essa avaliação veio de quem pode fazê-la, obviamente. Ao que tudo indica, há ainda outros que concordam com essa visão. Desde então eu tenho pensado muito no assunto. Ao invés de desassociar, eu assumi a possibilidade e comecei a pensar “e se eu sou excessivo mesmo?”. Será que isso seria simplesmente ruim? Se fosse, eu poderia fazer algo a respeito? Questões demais, autor de menos. Quiçá, as respostas precisassem ser entendidas. Para tanto, busquei amigas e amigos, levei para a terapia e busquei meus eus interiores, recorrendo a memórias e toda sorte de recursos que eu dispusesse. Fato é, eu fiquei impactado com isso. Assim, comecei uma jornada. 

Já adianto que não terminei. Talvez nunca termine. A vida é assim, no fim das contas. E isso é ótimo. Outrossim, se eu tivesse minhas respostas fechadas e prontas, certamente não me preocuparia com retornos que os outros me colocassem. Meu mundo seria um purgatório de certos e errados meus, tão prontamente eu quisesse ignorar a complexidade das coisas. E, se fosse assim, talvez eu fosse constantemente feliz (o que, na prática de quem é senciente e consciente, não é possível).

Quem não é o caos de vez em quando?
Foto por Finn Semmer

Seja como for, fui às amizades. Expus o ocorrido e pedi uma opinião sincera. Entre muitas respostas, meus amigos e minhas amigas trouxeram grandes momentos em que cometi gafes, em que falei mais do que precisava e até outros nos quais eu ofendi alguém. Um deleite relembrar e perpassar meus defeitos, saboreando as falhas e aceitando que fiz aquilo mesmo. Um deslumbre. Contudo, nenhum deles e nenhuma delas acha que eu seja demais. No geral, a percepção deles é a seguinte: você (autor aqui) é extrovertido, gosta de muitos assuntos, se sente confortável em falar com os outros. Em algumas vezes, se empolga muito, mas isso não é demais. Não é sempre. Não é, sequer, frequente. 

Com essas respostas, eu levantei mais perguntas do que antes. E o fato de eu não estar colocando-as aqui, é porque isso é um texto dissertativo (é?!) e não uma lista de perguntas (uma lista de perguntas pode ser dissertativa?  — acho que não… acho). Contudo, algumas são insumo desses parágrafos. Por exemplo, qual é a frequência em que falar demais me tornaria demais? E outra, demais em que sentido? Em falar demais, sem parar, tal como um rio desaguando informação sem cessar? Demais em interagir muito, ao ponto de causar desconforto no outro? Demais em fazer coisas demais? Me empolgar demais? Criticar demais? Rir demais? Listar demais? Ora, demais no quê?

De todos a quem recorri, um amigo e uma amiga foram um tanto quanto mais detalhados em suas respostas. Esse amigo disse que não sou excessivo ao ponto de criar desconforto aos outros, nem que eu seja inconveniente ou cause incômodo constantemente. Ele me lembrou de momentos em que fui exagerado em falar coisas fora de hora ou até mesmo fui grosseiro. Mas não tanto como qualquer outra pessoa pudesse ser. Assim, na qualidade de extrovertido, eu sou meramente mais comunicativo do que um apanhado de pessoas próximas. Dentre todas as respostas, a dele foi uma das mais completas e gerou uma reflexão interessante. Só que não ‘resolve’ tudo, afinal, há um contexto e é a convivência. 

No passado, amigos que viveram comigo manifestaram a opinião de que era difícil viver comigo ou me acompanhar, porque eu simplesmente fazia coisas demais. Claro, no contexto em que dividia a casa com um amigo e eu cursava duas graduações ao mesmo tempo e dormia muito pouco para dar conta dessa rotina, certamente ele poderia ter essa impressão. Outros amigos comentavam que eu fazia parecer fácil ter diversas atividades simultâneas, mais graduações e vida social. Porém, apesar da visão incrível que tinham de mim, as comparações não eram boas. Primeiro, eu não tinha uma qualidade de vida tão boa para conseguir me dedicar às coisas que fazia  — eu dormia pouco. Eu até podia ver meus amigos e saía de vez em quando com amigas, mas isso era espaçado. Eu saí das redes sociais à época e eu vivia cansado e até estressado com pequenas coisas. Contudo, eu não reclamava das coisas. Sempre achei que reclamar por reclamar não ajuda, que no geral, atrapalha. Obviamente isso vem da minha vontade de me distanciar de quem fala “faça o que eu mando e não o que eu faço”, cuja vida era reclamação sem ação. Além disso, eu não faço muitas coisas ‘demais’. O tempo que eu uso para ler um mangá, escrever um texto, jogar RPG ou estudar, é o mesmo tempo que eu usaria para ver muitas coisas em um Instagram ou publicar coisas no X, finado Twitter. A quantidade de vezes que amigas iam à baladas e beijavam era uma quantidade superior em horas do que eu passava para estudar bioquímica ou história da alimentação. Eu não fazia demais e nem nunca fiz. Mas aí, se moro com quem quer se destacar no emprego, se aprofundar em muitos assuntos e se graduar em uma federal, mas que não consegue criar uma rotina de investir tempo para essas coisas, entretanto, consegue organizar 3 churrascos por mês, acho que a frustração dele não era comigo. Eu era o alvo. E nesse sentido, eu certamente sou demais se comparar do jeito enviesado. E, claro, o fato de que eu estava solteiro e sem ficar com outras ou outros, passou despercebido por esses amigos. Eu ainda tinha toda uma questão de sexualidade não resolvida, não explorada, não vivida e bem desentendida. E esse foi o ponto que aquela amiga do retorno interessante trouxe. 

Sabe quando a gente tem uma amiga boa, mas boa mesmo? Daquela que discute com a gente num nível de questionamento que não deixa a desejar? Que não recorre a respostas mágicas ou qualquer sorte de bobagem que não seja justamente a consequência dos nossos atos e a responsabilidade das nossas ações? Pois é, essa amiga é assim. Um debulho e maravilhosa. E foi com ela quem mais discuti. E aqui, antes do texto beirar uma intimidade muito preocupante, pessoa que me lê, vamos tomar medidas para não ser demais para você. A conversa com ela foi boa, levantando perguntas no processo. E o assunto da sexualidade obviamente veio à tona: já que eu poderia ser sexualizado demais. E isso é algo não incomum em homens gays (tem literatura, vídeos no Youtube, artigos na internet todinha que abordam o tema). Poderia até ser compulsão, quem sabe? Quem sabe eu mesmo não deixei de fazer ainda mais coisas porque estava ocupado pensando em ou exercendo sexo. Ora, certamente poderia ser uma possibilidade. Mas, quanto à compulsão, vou deixar para checar na terapia — só pra ter certeza, afinal, eu quero investigar todas as possibilidades  — e não nestes parágrafos. 

De onde veio esse questionamento, esse retorno? Ora, do incômodo de um parceiro, da convivência comigo. Para deixar o mundo ciente, de todos meus namoros, oito ao todo, eu só namorei duas pessoas extrovertidas. Não sei se eu tenho um tipo, mas aconteceu que o restante todinho compõe cores de timidez e notas de mostrar-se e expressar-se pouco em público. Em todo caso, eu sempre fui o mais falante e expressivo na relação. 

Agora, segundo meu parceiro, eu sexualizo demais as coisas. Os comentários, as piadas, os toques, a libido… É de eu ver um cara bonito e comentar, seja um ator ou um aleatório num café. É por dizer que faria fulano e ciclano e mais um bocado de isso e aquilo. É também sobre interagir virtualmente, durante viagens, no mesmo campo. A visão dele certamente captura uma frequência muito maior do que dos amigos. Mas aí, o convívio captura tudo, não é mesmo? E, para um introvertido, acho que pode ser demais, muitas das vezes. Durante as conversas com meu parceiro, após a avaliação dele sobre meu comportamento, questionei sobre quem concordava com essa opinião dele de que eu sou sexualizado demais. Eis que o concordante é um amigo além do introvertido, que, a meu ver, é muito desconectado da sexualidade. Aí, é claro que o sujeito se incomodaria, não? Um cachorro lambendo as próprias bolas iria incomodar por estar mais sintonizado do que ele.

Sexuais demais.
Foto por Ketut Subiyanto

Após essa iluminação de quem tem essa visão, acho que o ‘demais’, sempre relativo, se torna muito momentâneo, muito circunstancial. No fim, não era tanto sobre mim. Acontece, que este texto é sobre mim (mas só?), assim como minha busca. Mas, e se, de fato, eu for demais em vários momentos? Na conversa com a minha ‘best’, eu falei do outro amigo que nem se interessa tanto por sexo assim. Então ela trouxe uma interpretação de Lacan: Difícil sentar ao lado de quem é livre. Desse modo, faz sentido que algumas pessoas sintam-se incomodadas. No fim, todo mundo pode incomodar todo mundo. Mas, da maneira como coloquei, fica parecendo que eu me entendo como livre, certo? Então, vamos elaborar isso. 

Em comparação a algumas pessoas, eu realmente acho que posso ser mais livre sim, no assunto sexualidade. Primeiro, eu não sou um homem hétero. Isso, por si só, já me obrigou a pensar minha sexualidade mais do que a maioria dos homens cis e heterosexuais contemporâneos a mim. Ainda, o assunto sexo sempre me interessou. Eu, dos três anos (idade na qual descobri como eram feitos os bebês) em diante, sempre me aproximei do assunto. Aos oito anos eu lia um livro de biologia do Telecurso 2000 e entendia termos como gônadas, espermatozóide, óvulo, fecundação, penetração, gestação e afins. Aos doze eu caçava, nos faróis do saber (bibliotecas públicas de Curitiba), livros que explicavam masturbação, partos, desejo sexual ou qualquer forma de saciar a curiosidade sobre o assunto. Na adolescência eu tinha conhecimento sobre ISTs (DSTs à época), métodos contraceptivos, riscos do contato com fluidos, problemas da má higiene genial para desenvolvimento de infecções. Eu claramente consumia toda porcaria rasa que passava na televisão sobre, e revirava os olhos às perguntas que eram óbvias, para mim, nos programas da tarde e da madrugada, como Programa Livre (SBT, 91-99) e Altas Horas (Globo, 99 em diante)  — gente, claro que sexo oral não engravida, o esperma vai ser digerido antes, pelo amor do seu deus. Eu também consumia revistas de curiosidades, coisas como: 150 perguntas e respostas sobre sexo. E mais muitas coisas. Era o único assunto que eu me interessava e consumia? Claro que não. Eu amava (e amo) ler e conhecer coisas. Tinha tanto interesse por sexualidade quanto por dinossauros, Pokémon, jogos, histórias em quadrinhos, mangá, química e comportamento humano. Saber das coisas e aprender é muito prazeroso. Me dá angústia não questionar os porquês das coisas, assim como os comos, quantos, os o quês e os ondes.

O que acontece, é que, na nossa sociedade ocidental americana, sexo não é conversado, quiçá discutido, livremente. Então, quando eu via que podia responder às dúvidas mais simples de quem estava ao meu redor, passei a ter mais prazer ao saber e falar do assunto. Ora, como homem LGBT+, eu tive que lidar com tudo que achava que sabia sobre mim mesmo. O fato de ter sido criado por uma família religiosa, a culpa cristã exalando em cada poro, e as questões de ter uma origem humilde, em que ninguém teve apreço ou tempo por conhecimento, fizeram minha jornada pessoal precisar de bastante aprendizado para me libertar de conceitos errados. Foi lendo muito artigo (como jovem adulto, dos 22 aos 25) que eu consegui entender que minha sexualidade não estava errada. Eu, mesmo com muita informação, fui me assumir pra mim mesmo muito tarde, já com vinte e cinco anos. E isso era só um começo: as questões da sexualidade experienciada tardiamente são comuns em gays, que acabam desenvolvendo comportamentos de risco para viver uma adolescência tardia. Sem contar coisas como descobrir-se sexualmente com um parceiro. Ainda, relações com o corpo, os pontos sobre a prática sexual em si, a falta de informação especializada sobre vivência e saúde gay, e tantos outros fatores são fundamentais ao entendimento de quem se identifica na sigla LGBTQIAPN+. Se a gente pensar um pouco, isso seria bem esperado, ainda mais num mundo em que o orgasmo feminino foi ‘descoberto’ há poucas décadas pelos homens. Dá pra imaginar, que pro cara que é heterossexual, que nunca teve a sexualidade questionada em si, nem precisou se justificar (para si mesmo ou para outros), que alguém que trate o assunto com naturalidade no dia a dia, isso seja algo potencialmente excessivo. No mais, acabo por ser alguém que gosta do assunto e está aberto a falar sobre. E a ouvir também. 

O que as pessoas esquecem, é que sexualidade permeia tudo. Pessoas queer não seriam mortas se a sexualidade delas não incomodasse. E não é o ato sexual de penetração (considerando que isso é uma modalidade que ocorre) ou qualquer prática que leve ao orgasmo (ou mero gozo). Sexualidade é tudo, bebê. É você se achando bonita ou feio em frente ao espelho. É seu gesto feminino de mexer as mãos e alinhá-las à cintura. É sua carinha fluída que atrai quem tem interesse. É sua masculinidade expressada por sua voz. E, obviamente, todos são fatores lidos pela lente da cultura e sociedade. E se estamos vivos no tempo de agora, nós iremos ser lidos pelo tempo de agora. A sexualidade está no cerne disso tudo. Na roupa, na entonação, nos gestos, na atração, no amor, na foda, no chá de bebê (gente, nós parabenizamos pessoas heterossexuais por terem transado e feito um feto), na forma do beijo, nos componentes do seu DNA. E eu sou só uma pessoa que enxerga sexualidade nisso tudo  — há outras. 

Então, sou eu excessivo, ou esse é só um desabafo inútil? Bem, não acho que desabafos sejam inúteis. Seja como for, eu sempre serei um pouquinho demais. Em alguns dias, bastante; em outros, pouco. Acho que o lance é ter consciência disso. Eu certamente irei comentar sobre sexualidade quando o assunto surgir. E certamente estarei com ouvidos dispostos quando alguém quiser me falar sobre. Preparado para acolher quando for preciso, e partilhar na hora em que for conveniente. Afinal, eu posso ajudar a resolver a dúvida ou a angústia de alguém  — nem que seja para recomendar um profissional. O que importa é que isso faz parte das interações humanas. Sexuadas ou não. No que tange qualquer assunto, eu sempre vou ser demais para alguém. E esse é o custo da convivência. Assim, quanto à sexualidade, concluo que eu só não sou uma ‘orelhinha virgem’. Agora, me conta, e você?
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Tirania amarga em pele de boa intenção

Você conhece anime? Caso não, anime é o desenho animado japonês (que tem suas características próprias e um universo inteiro relacionado). Caso você conheça, entenda, aventure-se e seja uma pessoa focada na “causa dos animes”, relaxe, esse texto não é sobre isso. Em todo caso, existe uma personagem de um anime que possui um golpe com o nome de “cascada”, cuja pronúncia da personagem fica igual a leitura da palavra em nosso português brasileiro (muito parecido com cascata). Muito que bem! Certo dia, eu estava no carro de uma tia minha, e começou a tocar uma música de uma artista chamada Cascada. Olha só! Assim que reconheci a música, veio a mente o golpe da personagem de anime que citei, e eu, como criatura empolgada que sou, imitei a personagem falando “cascaaada” (tentando uma entonação igual e tudo mais). Minha tia prontamente corrigiu minha pronúncia, me lembrando que se fala “casqueida”, porque é uma pronúncia em inglês e ai Lúciferes de mim, tolo ignorante que precisava ser iluminado, não ter aprendido isso ainda. A ironia ali é que ela corrigiu uma coisa que não estava errada, já que meu intento era pronunciar o que eu pronunciei, imitando uma personagem que ela não teria como saber. Pois é, irônico. Mas esse não é meu ponto aqui. Eu quero atentar ao fato de que ela estava absolutamente pronta para me corrigir e, como a conheço, tudo para “me ajudar”. Lindo, não?! Definitivamente não, e aqui vamos nós. 

Quantas vezes você já presenciou alguém corrigindo outra pessoa, explicando como fazer ou falar ou escrever ou executar algo corretamente, e a pessoa corrigida não se mostrou confortável? Se eu responder minha própria pergunta, lançarei um retumbante “INÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚMERAS!!!”  —  como nota, caso você não veja esse tipo de situação, fica o convite à reflexão sobre como você age com as pessoas. Essa situação é, no mínimo, chata. Enquanto que, no máximo, é uma forma de violência abusiva que pode produzir traumas. Mas não nos apressemos. Primeiro, vale lembrar que aprendizado é algo dolorido, sofrido em níveis diferentes para pessoas diferentes, e que correções são bem-vindas quando o momento é propício. Além disso, a forma como a correção deve ser feita é muito importante. Em todo caso, ser corrigido não é fácil, mesmo que seja necessário em muitos momentos. Ainda, a gente não aprende a lidar bem com o erro  —  se aprendesse, talvez muita coisa fosse mais fácil pra muita gente. Partindo desse saber, continuemos. 

“Não importa se eu entendi o que você disse. Você tem que falar do jeito certo!”
Foto por Alex Green em Pexels.com

Espera! Te enganei. Me desculpe. Mal falei para continuarmos com o assunto norteador e já farei outra interrupção. Mas é importante, eu prometo. Eu preciso fazer um mea-culpa sobre isso. Durante muito tempo eu fui um pedante gramatical. Isso deve-se a soma de muitos fatores, como eu ter me empenhado muito para estudar minha língua mãe, em eu não ter tido confiança em me comunicar em outras línguas, em eu achar que tinha uma obrigação existencial em saber completamente o português e em outras coisas que talvez eu nem tenha entendido ainda. Contudo, eu era um pedante seletivo. Eu cobrava ou corrigia pessoas conforme eu achasse pertinente. Por exemplo, eu corrigia colegas universitários sem muitas preocupações, pois achava que qualquer um numa universidade deveria ser minimamente claro e acurado ao comunicar-se na língua mãe, por texto ou fala. Ainda, eu jamais me peguei corrigindo pessoas que eu sabia que nunca haviam estudado formalmente. De qualquer forma, eu achava que minha forma de pensar fazia sentido e me dava a liberdade para “reparar o erro alheio”. Que tolice achar que se está certo, não é mesmo?! Com o tempo, o que eu aprendi foi que minha visão era limitada, eu desconsiderava um universo de variáveis e, pior ainda, eu devo ter minado a motivação e a vontade de aprender de pessoas com as quais eu agi assim. Você, que me lê, pense! Eu cheguei a magoar uma pessoa que eu amo ao corrigir uma falta de vírgula para separar um vocativo. O que eu ganhei com isso? Nada (ok, eu ganhei o aprendizado, mas poderia ter aprendido antes, sem precisar magoar outra pessoa). Seja como for, eu tive um know how em ser pedante  —  conhecimento de causa aqui. Ainda, sempre há quem sabe coisas que você não sabe e ninguém chegará a saber tudo sobre um assunto, então, não há justificativas para ser constantemente pedante. Bom, chega de desvios e de tantos pronomes pessoais autorreferentes. 

Acho que todo mundo (considerando o universo de pessoas que possam vir a ler esse texto) que aprendeu alguma coisa e que foi corrigido no processo, tem experiências quanto a isso. A maioria das vezes, penso eu, são experiências indiferentes, como em um professor explicando uma regra que alguém usou errado, uma mãe falando como passar o rolo de tinta na parede para não respingar muito, um amigo corrigindo como você amarra o cadarço que sempre solta. Outras vezes, a correção vem de um jeito que nos fascina e abre a mente a uma nova perspectiva, deixando-nos maravilhados em conseguir fazer aquilo certo. Entretanto, há vezes em que a correção simplesmente é ruim. Ruim por causar desconforto além do inevitável, ruim por ser horrível e desmotivar, criando uma associação negativa toda vez que se volta àquele fazer, ou ruim por não ser o momento ou a uma forma adequada de correção. 

Quando penso no assunto, lembro de uma professora que repetia “elogie em público, corrija em particular”. E isso, em muitos momentos, está certo, no sentido de que o elogio pode ser propagado com raro impacto negativo, enquanto a crítica pode ser ruim. Claro que essa diretriz em forma de provérbio (não, não está em forma de provérbio, mas eu gosto dessa palavra e quis usá-la aqui) não resolve o assunto. Mas pode ser um bom passo inicial para pensar. Quando pondero em perguntas sobre esse problema de corrigir desenfreadamente, a primeira que me vem à mente é “por que existem tantas pessoas prontas para corrigir os outros imediatamente?” Sempre tem um colega no tatame para ensinar a postura certa de uma técnica marcial, mesmo quando você está tentando entender o movimento do seu corpo antes mesmo de aplicar a tal técnica. A todo momento há uma pessoa muito bem intencionada em corrigir sua pronúncia em uma palavra de língua estrangeira, que você vai descobrir mais tarde que há mais de uma forma correta de pronúncia — segundo alguma gramática. Em todo tempo há uma amiga para corrigir a forma como você explica uma coisa que você sabe. Perpetuamente há um cônjuge disposto a endireitar a mesa que você pôs. Eternamente há a tia que te “ensina” como falar certo. 

“Se a analogia da motivação ser como uma chama faz sentido, então a crítica pode ser o vento, que apaga ou alastra. Muito óbvio? Muito clichê? Muito explicado? Preciso criticar minha originalidade, já volto…”
Foto por Bithin raj em Pexels.com

Obviamente é impossível retirar desconforto do aprendizado, evitar sofrimento em qualquer circunstância ou garantir a felicidade e segurança alheia. E certamente não é necessário aprender a motivar a todos, como se cada um precisasse tornar-se mestre em didática de ensino e correção. Longe disso. Contudo, não vejo a menor necessidade em buscar suavizar o processo. Se essa fosse a norma, acho que muito menos pessoas desistiriam de aprender coisas novas por se sentirem menores do que são. Ainda, como parece ser muito frequente a quantidade de pessoas dispostas a corrigir sem o menor tato, mesmo quando uma única experiência mina sua vontade, o acúmulo de correções pode fazer isso. Pensemos em estudantes que desenvolvem ódio por matemática ou desistem de aprender um idioma a fundo ou desmotivam-se em estudar um instrumento musical. Claramente professores podem influenciar com mais peso ao pensarmos em educação formal de algo, mas todo mundo pode apagar a chama de interesse de alguém.

A vida pode se tornar muito amarga, se a todo momento há alguém te avaliando. O aprendizado fica difícil, laborioso e traumático. Às vezes, quando alguém não desiste e aprende mesmo com correções ríspidas fora de lugar, há grande chance da pessoa querer cobrar dos outros o que cobraram dela. Afinal, somos a continuação dos seres anteriores a nós, condenados a repetir e imitar quando não pensamos direito  —  ou não aprendemos direito. E no fim, existe algum benefício em tornar o outro em sobrevivente do inferno que nós mesmos impomos? Há algum benefício em desconsiderar o sentimento alheio e pulverizar certezas sobre nossos semelhantes? O que há de bom na tirania? Se existe um meio para que possamos melhorar como seres sencientes e conscientes, talvez deva ser nossa obrigação buscar isso. Ou não. Por ora, eu não quero pegar a pedra do caminho para atirar em alguém. Eu só quero pensar em novos caminhos. c[_]