Tirania amarga em pele de boa intenção

Você conhece anime? Caso não, anime é o desenho animado japonês (que tem suas características próprias e um universo inteiro relacionado). Caso você conheça, entenda, aventure-se e seja uma pessoa focada na “causa dos animes”, relaxe, esse texto não é sobre isso. Em todo caso, existe uma personagem de um anime que possui um golpe com o nome de “cascada”, cuja pronúncia da personagem fica igual a leitura da palavra em nosso português brasileiro (muito parecido com cascata). Muito que bem! Certo dia, eu estava no carro de uma tia minha, e começou a tocar uma música de uma artista chamada Cascada. Olha só! Assim que reconheci a música, veio a mente o golpe da personagem de anime que citei, e eu, como criatura empolgada que sou, imitei a personagem falando “cascaaada” (tentando uma entonação igual e tudo mais). Minha tia prontamente corrigiu minha pronúncia, me lembrando que se fala “casqueida”, porque é uma pronúncia em inglês e ai Lúciferes de mim, tolo ignorante que precisava ser iluminado, não ter aprendido isso ainda. A ironia ali é que ela corrigiu uma coisa que não estava errada, já que meu intento era pronunciar o que eu pronunciei, imitando uma personagem que ela não teria como saber. Pois é, irônico. Mas esse não é meu ponto aqui. Eu quero atentar ao fato de que ela estava absolutamente pronta para me corrigir e, como a conheço, tudo para “me ajudar”. Lindo, não?! Definitivamente não, e aqui vamos nós. 

Quantas vezes você já presenciou alguém corrigindo outra pessoa, explicando como fazer ou falar ou escrever ou executar algo corretamente, e a pessoa corrigida não se mostrou confortável? Se eu responder minha própria pergunta, lançarei um retumbante “INÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚMERAS!!!”  —  como nota, caso você não veja esse tipo de situação, fica o convite à reflexão sobre como você age com as pessoas. Essa situação é, no mínimo, chata. Enquanto que, no máximo, é uma forma de violência abusiva que pode produzir traumas. Mas não nos apressemos. Primeiro, vale lembrar que aprendizado é algo dolorido, sofrido em níveis diferentes para pessoas diferentes, e que correções são bem-vindas quando o momento é propício. Além disso, a forma como a correção deve ser feita é muito importante. Em todo caso, ser corrigido não é fácil, mesmo que seja necessário em muitos momentos. Ainda, a gente não aprende a lidar bem com o erro  —  se aprendesse, talvez muita coisa fosse mais fácil pra muita gente. Partindo desse saber, continuemos. 

“Não importa se eu entendi o que você disse. Você tem que falar do jeito certo!”
Foto por Alex Green em Pexels.com

Espera! Te enganei. Me desculpe. Mal falei para continuarmos com o assunto norteador e já farei outra interrupção. Mas é importante, eu prometo. Eu preciso fazer um mea-culpa sobre isso. Durante muito tempo eu fui um pedante gramatical. Isso deve-se a soma de muitos fatores, como eu ter me empenhado muito para estudar minha língua mãe, em eu não ter tido confiança em me comunicar em outras línguas, em eu achar que tinha uma obrigação existencial em saber completamente o português e em outras coisas que talvez eu nem tenha entendido ainda. Contudo, eu era um pedante seletivo. Eu cobrava ou corrigia pessoas conforme eu achasse pertinente. Por exemplo, eu corrigia colegas universitários sem muitas preocupações, pois achava que qualquer um numa universidade deveria ser minimamente claro e acurado ao comunicar-se na língua mãe, por texto ou fala. Ainda, eu jamais me peguei corrigindo pessoas que eu sabia que nunca haviam estudado formalmente. De qualquer forma, eu achava que minha forma de pensar fazia sentido e me dava a liberdade para “reparar o erro alheio”. Que tolice achar que se está certo, não é mesmo?! Com o tempo, o que eu aprendi foi que minha visão era limitada, eu desconsiderava um universo de variáveis e, pior ainda, eu devo ter minado a motivação e a vontade de aprender de pessoas com as quais eu agi assim. Você, que me lê, pense! Eu cheguei a magoar uma pessoa que eu amo ao corrigir uma falta de vírgula para separar um vocativo. O que eu ganhei com isso? Nada (ok, eu ganhei o aprendizado, mas poderia ter aprendido antes, sem precisar magoar outra pessoa). Seja como for, eu tive um know how em ser pedante  —  conhecimento de causa aqui. Ainda, sempre há quem sabe coisas que você não sabe e ninguém chegará a saber tudo sobre um assunto, então, não há justificativas para ser constantemente pedante. Bom, chega de desvios e de tantos pronomes pessoais autorreferentes. 

Acho que todo mundo (considerando o universo de pessoas que possam vir a ler esse texto) que aprendeu alguma coisa e que foi corrigido no processo, tem experiências quanto a isso. A maioria das vezes, penso eu, são experiências indiferentes, como em um professor explicando uma regra que alguém usou errado, uma mãe falando como passar o rolo de tinta na parede para não respingar muito, um amigo corrigindo como você amarra o cadarço que sempre solta. Outras vezes, a correção vem de um jeito que nos fascina e abre a mente a uma nova perspectiva, deixando-nos maravilhados em conseguir fazer aquilo certo. Entretanto, há vezes em que a correção simplesmente é ruim. Ruim por causar desconforto além do inevitável, ruim por ser horrível e desmotivar, criando uma associação negativa toda vez que se volta àquele fazer, ou ruim por não ser o momento ou a uma forma adequada de correção. 

Quando penso no assunto, lembro de uma professora que repetia “elogie em público, corrija em particular”. E isso, em muitos momentos, está certo, no sentido de que o elogio pode ser propagado com raro impacto negativo, enquanto a crítica pode ser ruim. Claro que essa diretriz em forma de provérbio (não, não está em forma de provérbio, mas eu gosto dessa palavra e quis usá-la aqui) não resolve o assunto. Mas pode ser um bom passo inicial para pensar. Quando pondero em perguntas sobre esse problema de corrigir desenfreadamente, a primeira que me vem à mente é “por que existem tantas pessoas prontas para corrigir os outros imediatamente?” Sempre tem um colega no tatame para ensinar a postura certa de uma técnica marcial, mesmo quando você está tentando entender o movimento do seu corpo antes mesmo de aplicar a tal técnica. A todo momento há uma pessoa muito bem intencionada em corrigir sua pronúncia em uma palavra de língua estrangeira, que você vai descobrir mais tarde que há mais de uma forma correta de pronúncia — segundo alguma gramática. Em todo tempo há uma amiga para corrigir a forma como você explica uma coisa que você sabe. Perpetuamente há um cônjuge disposto a endireitar a mesa que você pôs. Eternamente há a tia que te “ensina” como falar certo. 

“Se a analogia da motivação ser como uma chama faz sentido, então a crítica pode ser o vento, que apaga ou alastra. Muito óbvio? Muito clichê? Muito explicado? Preciso criticar minha originalidade, já volto…”
Foto por Bithin raj em Pexels.com

Obviamente é impossível retirar desconforto do aprendizado, evitar sofrimento em qualquer circunstância ou garantir a felicidade e segurança alheia. E certamente não é necessário aprender a motivar a todos, como se cada um precisasse tornar-se mestre em didática de ensino e correção. Longe disso. Contudo, não vejo a menor necessidade em buscar suavizar o processo. Se essa fosse a norma, acho que muito menos pessoas desistiriam de aprender coisas novas por se sentirem menores do que são. Ainda, como parece ser muito frequente a quantidade de pessoas dispostas a corrigir sem o menor tato, mesmo quando uma única experiência mina sua vontade, o acúmulo de correções pode fazer isso. Pensemos em estudantes que desenvolvem ódio por matemática ou desistem de aprender um idioma a fundo ou desmotivam-se em estudar um instrumento musical. Claramente professores podem influenciar com mais peso ao pensarmos em educação formal de algo, mas todo mundo pode apagar a chama de interesse de alguém.

A vida pode se tornar muito amarga, se a todo momento há alguém te avaliando. O aprendizado fica difícil, laborioso e traumático. Às vezes, quando alguém não desiste e aprende mesmo com correções ríspidas fora de lugar, há grande chance da pessoa querer cobrar dos outros o que cobraram dela. Afinal, somos a continuação dos seres anteriores a nós, condenados a repetir e imitar quando não pensamos direito  —  ou não aprendemos direito. E no fim, existe algum benefício em tornar o outro em sobrevivente do inferno que nós mesmos impomos? Há algum benefício em desconsiderar o sentimento alheio e pulverizar certezas sobre nossos semelhantes? O que há de bom na tirania? Se existe um meio para que possamos melhorar como seres sencientes e conscientes, talvez deva ser nossa obrigação buscar isso. Ou não. Por ora, eu não quero pegar a pedra do caminho para atirar em alguém. Eu só quero pensar em novos caminhos. c[_]

A Posição na Conchinha e a Distância entre as Batatas Fritas

Qual é a primeira coisa que vem à mente quando alguém nos pergunta “o que é o amor?”? Muitas são as possibilidades, afinal muitas são suas formas e tipos, não é mesmo, pessoa!? O amor é algo bastante complexo, cujas definições possíveis têm confrontado aceitações e conflitado ideias pelo tempo. Entretanto este texto está muito longe de trazer alguma definição sobre o que é o amor. Contudo, numa sequência conflitante de negações de sentenças, tal qual nossas lutas internas também o são, não é impossível seu surgimento, mesmo ambiguamente. Agora, voltemos aos trilhos. Eu acabara de falar que havia formas de amar e tipos de amor, antes de devanear acerca do que eu mesmo afirmei. Dessarte, se há morfologias e categorias diferentes, podemos levantar perguntas diversas sobre esse conceito confuso e complicado, mais turvo que este parágrafo, tão conhecido, difundido, discorrido e estufado de achismos e empirismos e eufemismos e “inconclusões finais”. Então, deixe-me perguntar também. Qual a distância do amor?
Qual a distância do amor, pessoa? Um metro? Vinte centímetros? Dez anos-luz? O espaço entre as costas e a barriga na posição de conchinha? Como mensuramos isso?Há fita métrica para tal? Ele tem peso? Data? Validade? E se tem, como saber? Dá pra estender? Pode-se aumentar? E o gosto? Seria mais doce, como paçoca, ou meio azedinho como notas de maracujá? Existiu um primeiro amor, que gerou os outros todos? Podemos nos confundir com o que ele é ou seria? E se não existir? Qual nome dar pra todas as coisas que confundimos com ele? Troca-se? Dá pra dar? Gasta-se? O amor dorme? Por mais estranhas que pareçam tais perguntas, são coisas com as quais quem ama acaba lidando. Nos numerosos tutoriais sobre como é amar e o que é o amor, encontramos muito mais do mesmo do que o Renato Russo encontrou. Há quem diga que amar deve ser assim, ora fácil, ora dolorido. Existem outros que esclarecem coisas que sequer sabíamos que eram dúvidas ou preocupações. Tudo muito importante. Tudo muito profundo. Quase tudo pouco prático. Isso é um sintoma ou uma consequência? Que seja.

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Amar é só abraçar e coisas boas. É só fácil… será?

Colocando os pés no chão, lugar comum bastante fácil de entender, podemos tentar pensar sobre o amor em si. Geralmente alvo da mineração dos tutoriais e suas observações inteligentes e sofisticadas que não cessam temores: o convívio; disto devemos lembrar, com absoluta sobriedade, que existe um custo de convivência para cada ser vivente na Terra. Jé pensou sobre isso? Qual o custo para viver contigo? Será que você exige o cumprimento de regras rígidas ou determina a existência necessária de caos e que ninguém deva controlar outros? Sua rotina é fácil? E seus medos, o quão eles podem assombrar quem está contigo? Sua bagagem emocional interfere até qual ponto na relação? Você é confortável com outra pessoa? Você fica confortável consigo mesmo? É preciso ter quanta paciência para lidar contigo? Você, pessoa, permite que alguém se abra a você em até que ponto? E as expectativas, você as têm ou as cria ou as vive? Sejam quais forem os outros questionamentos, é inegável a existência desse custo de convivência. Sempre que vejo alguém despejando carência nas redes sociais, nas conversas dos bares e em reclamações íntimas, geralmente eu vejo que, do comportamento queixoso de “eu não encontra alguém pra mim”, há uma cornucópia de atitudes que não dão segurança para que outra pessoa chegue e queira ficar. Até porque, qual o sentido de perder tempo reclamando ou falando de felicidade se você pode ir lá e só viver a felicidade? Reclamar do mundo, de tudo e de todos, e ser a encarnação daquilo que se reclama não ajuda. As pessoas são frias… mas e você, o quão receptivo consegue ser? Ninguém quer nada sério… em que parte acham a seriedade em você? As pessoas cobram isso e aquilo, querem rótulos, querem esteriótipos, querem querer quero queria que que o quê… e você já disse o que quer? Á, mas os outros não sabem o que querem… e você sabe? É importante buscar saber. Ou não…
Antes que você, leitor paciente, desanime do amor ou do texto, dada a rispidez do último parágrafo, deixe-me contar-lhe algo bom: amar não é fácil. E isso é ótimo. Amar envolve exposição, entrega, resolução, vontade, determinação e tem um custo bem alto. A parte ótima? É que amor correspondido é aconchegante, acolhedor, restaurador, compreensivo e mais tantas coisas que colocam sentido em nossas vidas, que seria necessário enfileirar mais palavras do que átomos de H ao redor da Terra. As ações começam a ser planejadas pensando-se noutra pessoa, não por obrigação ou formalidade, mas por vontade pura. O individualismo cai, mesmo pra quem é individualista. E há egoísmo e altruísmo, em proporções conflitantes o tempo todo. E, acima de tudo, é bem assustador desejar tamanha entrega e ter tanta aceitação por alguém que não a nós mesmos. E todo esse processo de aceitação pessoal, de saber o ônus de nossa existência na vida de alguém, de buscar o entendimento de coisas que não possuem respostas prontas ou fáceis ou definitivas, é exaustivo. Mas vale cada dia vivido. Requer coragem e aceitar que certos medos vão surgir. E quando  se começa a viver um amor, o acúmulo de trivialidades absolutamente relevantes é necessário. Quem vai abraçar na conchinha? Falar que quer ser abraçado, sem ser julgado como carente, ou que quer abraçar, sem qualquer sentença tacanha, ou mesmo que sente calor quando vai dormir e busca-se ficar o mais próximo que aguentar é o que demarca o amor. Cada gesto insignificante, mas que é pensado para alguém além de si mesmo, transborda o amor. Grandes gestos são fáceis de fazer, pois tem começo e meio e fim. Amar tem início confuso, meio interminável e fim imaginário. E só se ama todo dia, em cada planejamento, vontade de estar junto, dividir momentos, perguntar coisas, ser só o que se pode ser. E isso, pessoa, é difícil. Mas quando deitamos de conchinha, ou não, abraçando ou não, quando somos amados, sentindo toda nossa fragilidade sendo cuidada por alguém, encontramos a melhor posição da vida.

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Essa referência é autoexplicativa.

Tudo bem, mas e qual a distância do amor? Essa pergunta, especificamente, desprovida de sentido romântico e iludido, bem como fundamento adequado ao raciocínio refinadíssimo humano, me trouxe a esse texto. Para tantas pessoas que perguntei isso, obtive respostas diversas. Enfurecidas, energéticas, risonhas e vagas. Como se tocasse numa ferida exposta. Senti medos alheios e curiosidades genuínas. Contudo, a única resposta que aceitei é que essa distância é a mesma entre as batatas fritas. Quando pedimos uma porção, estando juntos de alguém, e temos a plena convicção de que o outro sabe que o consideramos nessa decisão, sabemos, por alguma razão, que isso parece certo e bom. É a distância entre cada palito de batata, que é pedido sabendo que não é só pra si mesmo, pois não é um pedido egoísta e controlador, que mensura a distância do amor. Se a porção acabar, pediremos outra. É a distância ao saber que qualquer movimento a muda, mas que na prática ela se mantém igual. É o sentimento ao nos depararmos com a certeza de que cada porção pedida será compartilhada, aproveitada e completamente dividida, pela vida toda, sem o medo de acabarem. Mas então, você pessoa, percebe que não existe uma distância estabelecida e certa entre as batatas… Desse modo, assim como você queria, a distância do amor é uma metáfora bem sólida. Nada além disso. Agora, vai lá e divida o resto da sua vida com quem você ama. E até mais. c[_]