Recomeço

Esse ano eu queria ser mais analógico! Bah, como diria um amigo gaúcho! E certamente não há expressão melhor para uma afirmação assim em pleno 2026. Ainda mais, quando eu estou escrevendo isso em um café, pelo meu computador, cujos celular, kindle e tablet estão à mão. Além disso, este próprio site é um artefato digital, bem pouco analógico. Se isso não parecer, no mínimo, algo nebuloso entre hipocrisia e delírio, melhor ler de novo — e pensar um pouco. Ironias e acidez à parte, mas não tanto assim, o que salva minha intenção como algo bom é o ‘mais analógico’ e não ‘apenas analógico’. E a vontade, mesmo que difícil em nossa era, é legítima. 

O que acontece, pessoa que lê, é que estamos em uma época em que se fala tanto e tanto e tanto em inteligência artificial generativa e automação, que minha maior vontade atualmente é forçar as pessoas a engolirem esse vômito de especulações que elas fazem  — sem entender sobre o que estão falando  — , só para ter um pouco de paz. E, olha só, eu sou um cara da área de tecnologia. Tudo bem, sou apenas um bacharel em sistemas de informação e trabalho como cientista de dados. E, embora eu tenha muitos amigos e amigas em diversos segmentos da tecnologia, e eu também discuta com elas e eles sobre assuntos da área, bem como eu estudo a respeito, leio artigos, produzo alguns conteúdos em projetos relacionados ao tema, eu sei que não sou a lei sobre o tema. Eu sou só um cara irritado com a quantidade de bobagem que leio nas redes sociais  — principalmente aquela uma corporativa e ““profissional””  — e da forma como as pessoas usam essas tecnologias. Além disso, por saber como as coisas funcionam, só um tiquinho mais do que muitas pessoas, eu não me empolgo com os discursos mirabolantes (sim, os CEOs e comunicadores de IA criaram discursos além da realidade, minhas pessoinhas) que chovem por aí. Ainda, não estou contente por usar ‘chats’ para escrever para mim, como se eu quisesse jogar minha criatividade para os ares, apenas para ‘poupar tempo’ em atividades ‘maçantes’, que eu irei gastar em seguida para verificar a veracidade ou a qualidade do que foi cuspido pelo autômato e máximo local (deixei esse termo aqui para alfinetar colegas de área, mas quer apenas dizer que a máquina dá uma resposta boa suficiente para algum caso, não que seja a melhor possível ou boa de verdade). 

Toda essa algazarra por usar o GePeTo para tudo, ou qualquer outro software de modelos de linguagem avançados, me faz desanimar muito. A colega que não sabe escrever, e passa a pedir que o Gepeto faça e-mails para ela, não vai escrever melhor nunca, agora (ou a probabilidade se torna muito baixa, eu chutaria). O amigo que não sabe pesquisar assuntos, não vai aprender a fazer isso, já que tem um negócio que faz isso por ele. E, quando falo de negócio, não estou usando um termo indireto para o software em si, mas a estrutura que virou negócio que coage as pessoas a assimilar que ‘agora as coisas são assim’. Claro, ter noção de que a sociedade ocidental tem um modelo econômico insustentável para a manutenção da qualidade de vida de todos, aumenta o ranço sobre os discursos de ‘automação’ e de como a IA vai ‘ajudar’ nossas vidas. Isso não vai acontecer, a não ser que o sistema mude. 

Certo, mas e aí, vim aqui escrever isso para reclamar? Para dizer que a saída é a gente não fazer uso das IAs? Não, claro que não. Se eu quisesse dar respostas, eu não escreveria um blog de perguntas. Longe de mim. Contudo, esse movimento impensado de consumo de tudo que é digital, me dá náusea. A gente ainda é bicho, ainda é analógico. A gente ainda precisa do nosso cérebro para saber discernir as coisas  — afinal, quem irá corrigir as IAs quando elas errarem? Além disso, como a gente vai desenvolver habilidades de resolver coisas difíceis se não param de criar ‘facilitadores’? Um amigo meu deu o exemplo de usar alguma irmã do Gepeto para fazer apresentações. Certo, é algo que certamente ajuda. Agora, contudo, quando ele irá desenvolver a inteligência estética dele? Ainda, por que não pedir ajuda para um designer fazer isso? Certo, eu sei que pagar profissionais para fazer esse tipo de serviço não é ‘barato’. Mas, então, por que não trabalhamos para que nosso sistema de vida não melhore as condições de todos os profissionais, para que todo mundo tenha condições de contratar esses serviços? Seria algo tão impossível? Bah!

Já pensou qual a necessidade de ficar inventando motivo para fazer tudo mais rápido do que a gente consegue assimilar? Ou de viver tudo para o virtual, sem que o mundo material seja aproveitado? ~ Foto por Yan Krukau em Pexels.com

Quando eu falo que queria ser mais analógico, eu estou carregando um monte de pensamentos nesse desejo simplório. Pois é, eu sei. E você, pessoa que me lê, deve saber também. E meu pensamento e questionamento principal é este: Por que precisamos fazer as coisas de um jeito mais rápido ainda? “PRA QUÊ???!!!!” Nós produzimos bilhares, quiçá trilhares, de informações por dia. Os algoritmos de redes sociais drenam nossa atenção e reduzem nossa capacidade de mantermo-nos atentos com profundidade, pois nos sobrepujam de informações. Não temos tempo para nos informar de tudo que precisamos para o trabalho, para entender as mudanças no mundo, para nos atualizarmos de nossos próprios entretenimentos e hobbies (para quem ainda tem o privilégio de ter um), não com profundidade. Ainda, precisamos de tempo para exercitar nossos corpos, ter uma relação melhor com a comida e a família e amigos e amigas, e para transar, minha gente! E o uso de uma coisa que vai acelerar mais ainda a ‘produção’ da informação vai ajudar? Vai? Sério, processualmente, como isso vai funcionar? A IA vai resumir uma coisa e você vai saber pelo resumo? A IA vai escrever para você seus relatórios, e-mails, mensagens de texto, felicitações de aniversário e cartas (ok, ninguém escreve carta, tirando umas cinco pessoas no mundo), e você não vai nem conferir? O tempo de corrigir a IA é menor do que o tempo de fazer as coisas? E qual o ganho para a vida, com isso? O trabalho é mais satisfatório? Alguém pode me explicar como, uma pessoa que não tem atenção para reter conteúdo de um vídeo de 50 minutos ou de um texto com mais de 1 página, vai estar mais informada apenas com resumo? Essa forma rasa, superficial, frágil, sem estrutura, pequena, breve, rente e curta de se aprofundar nas coisas vai gerar que tipo de pessoa? Bah, que loucura!

Sabe, eu não tenho o menor interesse em dar minhas respostas aqui. Nem sei se são definitivas. Mas meu desconforto é tangível e minha escrita também. Quando eu lembro que nosso cérebro não vai aprender mais rápido, não vai assimilar mais rápido, e ainda vai precisar da mesma quantidade de tempo para absorver as coisas, eu só consigo ficar incrédulo com o estado atual dos meus pares. Sinceramente, o consumo de qualquer coisa que facilite a vida, sem pensamento e reflexão constante, é só algo meio imbecil. Desculpe, mas não tem como pegar leve. Eu mesmo, pensando aqui em frear o meu consumo da tecnologia, só quero ser menos imbecil. Veja só, pessoinha, sabe qual a forma mais rápida de comer ou consumir comida? Com ultraprocessados! É bem mais rápido você fazer um macarrão instantâneo do que uma macarronada. E qual o ganho real? Tempo? Porque a pessoa que prepara a macarronada, que talvez até faça seu macarrão, vai ter uma relação muito melhor com a comida. Não vai? Ela não vai precisar entender mais processos, etapas, combinações, para fazer o macarrão e o molho e combinar tudo? Sim, ela vai. Obviamente, eu não estou dizendo que não deveriam existir ultraprocessados e ninguém os deve consumir nunca (isso é outra discussão, uma bem boa inclusive). E eu sei que é um privilégio enorme você poder preparar sua refeição. Maior ainda ter uma relação com sua comida. Bah, eu sei bem. Agora, vem aqui comigo. Vem nesse cantinho de parágrafo, bem escondido e no sigilo. Você acha, aí na sua linda caixinha de pensamentos, que é realmente diferente com tecnologia? Você acha que o consumo e uso de ferramentas que fazem tudo por você vai trazer algum benefício? Você acha, por um centésimo de segundo, que você vai trabalhar menos? Pensa aí. Imagina aqui comigo. Vai ser diferente? Vai ser bom pra quem, esse uso sem pensar de mais uma tecnologia?

Quando você faz seu próprio prato, você precisa saber o mínimo dos ingredientes. Não é só por goela abaixo o que está pronto. É entender um pedacinho a mais do mundo. O mesmo vale para muitas coisas. Poupar tempo, quando a gente perde tempo de qualidade? Quem ganha com isso?

Eu, pobre mortal, não vou te responder isso. A gente precisa ser amigo de forma analógica e síncrona para discutirmos isso com os detalhes pertinentes. Meu texto em si nem é uma crítica sobre uso grosseiro de tecnologia. Isso foi só o contexto para explicar meu desejo pelo analógico. Ou melhor, pelo lento, pelo profundo, pela quantidade necessária de tempo para gozar como se deve. Eu, que tenho a sorte de ter um escritório em minha casa, olho para coisas tão legais que tenho e que pensei que faria uso e não fiz, me desanimo em mim mesmo. Falta tempo investido. Meu escritório está cheio de papéis para desenho, lápis, dicionários, miniaturas de RPG, canetas, livros, diários, papéis de carta, cartões postais, tintas e um monte de artefatos de uso manual, que eu não consigo aproveitar como queria. Eu tenho livros, digitais e físicos, que quero ler e parar de acumular minha lista sem fim. Há filmes que gostaria de rever, de criticar sob novo crivo, que requerem um certo tempo que não estou deixando. Quando eu expresso uma vontade de ser mais analógico, eu tô falando sobre aproveitar as coisas de que eu gosto, que eu escolhi, não que um algoritmo me entregou. Além disso, eu quero me aprofundar nas coisas, quero continuar aprendendo coisas novas e coisas mais complexas. E, para fazer o que eu quero, eu tenho que usar o tempo que eu tenho. Infelizmente, não tenho tempo infinito e nem tanto tempo livre (ai, como queria ser herdeiro e fazer anos bissestos sabáticos sobre para me redescobrir e me ‘refazer’ quando calhasse). Então, tenho que tirar tempo do que não faz falta. E sabe o que não faz falta? Bah, um bocado de coisa no subtexto desse texto. 

Não sente falta de quando o mundo tinha dispositivos focados em fazer uma única coisa? E você precisava aprender a usar, sem um tutor artificial pipocando dicas e informações na tela? Você, jovem, consegue imaginar o que é isso? — Foto por cottonbro studio em Pexels.com

Pois é, pessoa que lê, um ano novo começa, e com isso a gente se coloca numa posição de repensar coisas. Bem, eu me coloco. E, olhando isso como um recomeço, mesmo que seja de apenas um ano, eu quero ler mais, cozinhar mais, jogar mais RPG e escrever mais também. Seja no digital ou não. Quero valorizar mais o momento de fazer uma foto e torcer para ter ficado bom na hora de revelar.O que mais eu quero, com isso tudo, é não acelerar mais. Pelo contrário, quero acelerar menos. Eu li um tiquinho de Soren Kierkegaard para me contentar em nadar só no raso. Sem contar que não quero ser ferramenta para IAs, prefiro o contrário. Seja como for, essa é minha ideia de recomeço em 2026. Estou aqui a entendendo. E, você, já entendeu a sua? Bah, espero que sim. c[_]

Um comentário sobre “Recomeço

  1. Avatar de Desconhecido Anônimo disse:

    Espero que, a partir de agora, você seja uma criatura melhor e deixe de usar o espaço digital para trair e machucar as pessoas. Desejo que tudo o que você fez volte em dobro, para que você sinta como é ser tão desrespeitado. Boa sorte, porque, mais cedo ou mais tarde, a verdade aparece.

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