Predador e presa

Dia após dia, hora após hora, nós produzimos. Se não, pensamos em produzir. Se não, de novo, pensamos que não estamos produzindo. Deveras, uma sociedade do cansaço. E aqui, já estou cansado de explicar o recorte social ou geográfico ou o raio que me parta. Deixarei esse exercício para o leitor, assim como a captação da referência intertextual bem direta logo antes ou futuramente. Estaria eu amargo? Ora, claro. Assim como o café que eu bebo dia a dia para ter um golinho de ânimo. Contudo, estar ou ser amargo não é algo ruim. Café, amargo como a morte, é maravilhoso  — Ok, você pode não gostar de café ou de amargor. Então, talvez, você nem seja meu público-alvo. Estar amargo é estar, de certo modo, desperto. O problema, é que se a gente não se ilude um pouco, a realidade por ser amarga demais  —  uma verborragia visceral que descolore o prazer de viver, contaminando o gosto com pungência e ‘irremediação’. Então, melhor se iludir um pouco. Afinal, para conseguir trabalhar tanto, sem conseguir produzir trabalho real (entenda a referência), é preciso de uma ilusão de que há um propósito ali. 

E então a gente aceita. Nossa, e como aceita. O que nem é tão bom nem tão ruim, afinal, tem gente bem pior, e quem tá melhor são os outros (ou por estarem, ou por parecerem) e não há o que fazer. E a gente vai lá, minuto após minuto, semana após semana, dopados de que isso é assim. E talvez fosse pior se fosse diferente. Logo, estamos bem confortáveis com anestesias e distrações do que, no fim das contas, não se tem o que fazer. Não é? Pois bem, é sim. Desse modo, cientes de que não estamos atentados ao que é a amargura da realidade, seguimos pela correnteza do tempo. Não há fadiga quando há torpor. E tá tudo bem. Tá sim. Está tudo ótimo. 

Mas, assim, só para não deixar de falar, sabe o que é curioso? A gente tem um monte de tecnologia para nos ajudar. A velocidade da viagem da informação é tão rápida, que não precisamos mais levar a informação fisicamente, carimbada, timbrada, autografada e selada até onde for preciso. Ela vai, agora, pelos bytes. É tanta velocidade, é tanta eficiência, que a nossa vida poderia ser só fácil. A gente, certamente, usa a tecnologia para produzir mais, nos poupando tempo e esforço. Não é? A gente não a usa, em suas muitas formas, para nos prender a ciclos sem fim de trabalhos que não são trabalho. Nem para ancorar uns aos outros em ilusões que a gente nem queria pegar. Não, não! A gente usa para o bem. Bem de quem? O nosso? Claro, certamente e obviamente. Não usamos para criar ferramentas que aumentam o torpor e nos faz querer passar mais tempo com a ferramenta do que com a realidade. A gente não criou algoritmos para nos afogar em ansiedade e comparação, num ambiente virtual que nos desconecta uns dos outros e da realidade. A tecnologia permite aproximar ideias, compartilhar histórias e memórias e gostos afins, sem medo de fazer isso. A própria convivência de pessoas que usam essas tecnologias se tornou mais aberta, contemplativa e agregou para a melhoria da comunicação, agora que é tão fácil achar exemplos do que se gosta de ver, ler e observar. Sem quaisquer dúvidas, nós estamos todos mais próximos e íntimos do que nunca. Ano após ano, dia após dia, tudo melhora. 

Dia a dia, a vinda indo e indo…

Fato é que o mundo tá com tanta tecnologia relacionada à informação, ao trabalho e à produção e também à conexão, que nem dá tempo de ficar atualizado com qualquer coisa. Sempre tem mais conteúdo, trabalho e coisas para ver sozinho. Acontece que a gente ainda é bicho. Nosso cérebro ainda tem os limites que sempre teve de absorver, assimilar e entender. E o problema é que a gente esquece disso e acaba vivendo dormente, achando que tá bom assim, quando a gente nem sente a vida vazando no funil do tempo. Chato, né? Nós, a gente tudinho, se fôssemos bichos na natureza, estaríamos em constante luta para sobreviver. Seja como caça ou caçador. E essa falta de facilidades, no fim, daria significado às coisas. Impediria que a vida escorresse e forçaria sua digestão — sem desperdícios. 

Qual a última vez que você notou que existem montanhas no mundo? E que entre montanhas há vales? Já reparou em como é a interação das coisas por lá? Já viu que há um dinamismo incrível entre espécies diferentes, que concorrem entre si pelo espaço e tudo mais. Das raposas que caçam com astúcia e inteligência, às lebres que se escondem na ravina, tudo tem um equilíbrio. À primeira vista, uma foge da outra, enquanto a outra parece querer o fim de uma. Só que não. Enquanto a lebre precisa da raposa para estar alerta, e aprender sobre esse estado a fim de sobreviver, a raposa necessita que a lebre exista para ela mesma existir (aff, ecologia 101 agora…). Elas não pavimentaram as montanhas de concreto, criaram formas de achar umas às outras e não saíram de suas tocas nunca mais, porque elas sabem que as outras existem, mas que não tem problema deixar para lá e batem ponto, postam #tbt, ignoram uma a outra só porque é mais fácil não ficar desconfortável com o convívio e a necessidade do outro e todo mundo faz isso mesmo e tudo bem que seja assim porque tem que pensar em validar a existência na produção que não é trabalho sem uma única vírgula em suas vidas infinitamente conectadas sem quaisquer conexões. Dia após dia. LOUCO NÉ? INSANO? 

No fim, com tanta coisa que nos cerca, com tanto acesso que não é acessível, a gente fica só anestesiado. E, achando que estamos livres para fazer o que quisermos, pois tudo parece mais ao alcance, a gente esquece a sensação de liberdade genuína. Assim, para a lebre que não morre porque não é caçada, resta um catatonismo existencial. Ela esquece que é presa e, por isso, toda ilusão não terá propósito. Já, para a raposa, que deixa de ser predador, o mundo aberto é uma prisão em todos os sentidos. Para qualquer uma, a melhor coisa que poderia acontecer seria uma encontrar a outra, lembrando cada uma de que a vida não precisa escorrer sem ser vista. A presa precisa lembrar que é presa. O predador precisa saber quem ele é. E, a gente, a gente é bicho. Seja caçador, seja caça ou seja metáfora, é preciso não esquecer esse fundamento. Assim, a vida fica menos amarga, um pouco mais azeda, e muito mais libertadora. Um pouquinho mais a cada dia. E, para retomar um gostinho sobre a própria vida, tudo que é preciso é um vislumbre sobre a própria condição.

Vamos explorar o vale juntos? Que tal?

Bem melhor, né? Mais otimista agora. Só tem um porém… ou vários. As coisas não se resolvem do nada. Mudanças acontecem quando ações são tomadas  —  apenas. Se nossa lebre for vista por uma raposa que nada faz, ela nada precisa fazer, não é? Nós, bichos que pensamos e nos preocupamos, quando ganhamos conhecimento sobre algo, precisamos fazer qualquer coisa a respeito. Seja entender a situação do mundo, seja se mover, seja caçar ou ser predado, o que importa é iniciar uma atitude. Baixar os níveis de conforto das ilusões e fazer o coração bater, ora. Certificar-se de que o que corre é o sangue. De que o vale seja explorado e que a metáfora seja entendida. Senão, nada carece de preocupação. Mesmo que passe tempo após tempo, é só ficar na mesma. 

Pronto, acho que adicionei a acidez que faltava  — assim como falta o café que estou indo passar agora mesmo. No fim, espero que a raposa ache a lebre e a devore. Assim, a natureza revela algum sentido e as duas ficam livres. No geral, o mundo precisa de um amarguinho. Nada garante que uma Shakira apareça cantando “Try Everthing” para você resolver acordar para a própria vida. Agora, e você? Tá na sua toca? Sabe o que você é? Pretende sair dela? E sair da caverna? Não? Sim? Espero que seja um bom dia e um bem-vindo. Do contrário, sempre será noite.

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