Quem dorme com seu ônus?

Quando você se descreve para alguém, como faz isso? Ou, quando as pessoas te descrevem, o que elas falam? Aqui a gente já adentra numa série de questões bem interessantes. Primeiro, quando nos descrevemos, a versão da descrição muda dependendo de “com quem” estamos falando. Ou você fala de si mesmo do mesmo jeito em uma entrevista de emprego, em um almoço na casa da vó ou num encontro com interesses afetivos da exata mesma forma? Suponho que sejam formas diferentes. A mesma diferença deve ocorrer quando falam de você, variando de quem fala e para quem esta outra pessoa está falando. Sua mãe deve falar de você de um certo modo ao conversar com uma tia sua e de outro modo ao conversar com uma colega de trabalho (dela, sua, de outrem, tanto faz). E certamente há muitos outros exemplos para por aqui, a fim de deixar este primeiro parágrafo mais abrangente  —  e, quiçá, torná-lo num vasto campo de inclusão, para criarmos uma enciclopédia de exemplos. 

Agora, penso que você deve ter matutado algumas coisas, como ter concordado ou discordado de mim, lembrado de situação, argumentos, referências bibliográficas e até sorrido ao imaginar  algumas coisas. Eu, por exemplo, consigo imaginar algumas situações em que pessoas me descreveram de modo que eu particularmente não gostei  — em contextos que ainda se repetem. Em alguns casos, pelo exagero, em outros, pela superficialidade. Contudo, as pessoas falam daquilo que elas percebem, dentro de suas limitações humanas  — olhe esse gancho para começar uma deliciosa discussão numa mesa de bar. Seja como for, uma pessoa não vai (provavelmente) descrever uma outra com inovações, ineditismos, novidades e criar um repertório para isso. Ela vai simplesmente proferir o que acha sobre. Assim, se muita gente te identifica como rude, talvez você devesse levar essa percepção em conta. Mas este foi só um exemplo bem pequeno  — pequeníssimo, como diria José Dias.

“Muito que bem”, agora que as bordas de nossa sopa foram comidas, podemos adentrar mais fundo nesse caldo grosso. Seja lá como você for, como você acha que é ou o que podem achar de você, existe um custo de conviver contigo  —  eu usarei o termo custo, porque é algo fácil de assimilar em nossa sociedade ocidental e capitalista. E esse custo vai além do que nossa conexão imediata com o dinheiro pode trazer. E este tópico é complicado, complicadíssimo. E quem vive contigo, quem partilha o tempo, as refeições, os momentos e até as lembranças, é quem paga por isso. Se você vive com seus pais ou suas mães, são essas pessoas quem têm que lidar com seu jeitinho de existir. Essas pessoas que vivem contigo, também precisam conviver com seus interesses, seus desgostos, sua voz, seu cheiro, seu ânimo, sua opinião, seus sucessos e seus fracassos e tudo mais o que você oferece só estando em um lugar por muito tempo. Se você namora e mora junto, é seu namorado, ou namorada ou namorados e namoradas, quem lida com quem você é no dia a dia. Suas ambições, decisões, ansiedades, conquistas, seu cansaço, seus desejos, medos e tudo o que você faz e, muito importante, deixa de fazer são as coisas com as quais essa pessoa com quem você está lida. “Á, mas eu tenho que lidar também, senhor Autor”, você diria. E eu replicaria dizendo que nunca escrevi o contrário. De fato, conviver é isso. E o convívio não precisa ser diário. Sabe os seus amigos? Eles que lidam com as coisas boas e ruins de você. Seja sua apreciação pelos interesses comuns ou sua restrição alimentar em não comer doces. Toda convivência tem um custo. E elas existem enquanto a gente está disposto a pagar  — considerando que há possibilidade de escolha, viu Sartre?!

Certamente não há coisas tão mais difíceis do que conviver. E isso é algo que você só entende quando vive isso. Sabe quando você conversa com os amigos sobre como sua família te enlouquece? Pois então, eles convivem contigo e você deve enlouquecê-los também. E não importa se você ama ou deixa de amar, se gosta ou o escambau. Conviver gera atritos o tempo todo. E, ainda assim, é uma necessidade e uma coisa ótima. Nós somos seres sociais, biologicamente falando (se você não entendeu aqui, posso sugerir estudar fisiologia e outras disciplinas que apresentam muitas evidências fortíssimas sobre isso). Assim, nós precisamos de outros humanos para sermos mais saudáveis. No geral, sentimos necessidade de afeto, de carinho, de sexo, de toque, de conversar, de ouvir. Sentimos necessidade de gente. E, por isso e muitas outras coisas, a gente busca não ficar sozinho. E agora estamos no meio do prato. 

Seja lá quem você for, o que você faz e o que você pensa. Se você vive com alguém, essa pessoa paga o ônus da sua convivência. Se você não gosta de fazer coisas, ela vai ter que considerar isso ao escolher coisas para fazer. Quer um exemplo? Você não gosta de ir à festas. E a pessoa com quem você está terá de lidar com isso em todas as festas de aniversário às quais ela for convidada, seja você indo ou não. Ou, digamos, que você não gosta de filmes de suspense. Cada vez que forem ver algo junto a outra pessoa terá de levar isso em conta. E claro, podemos passar mais centenas de linhas com exemplos e, quem sabe, a cada um, você pense que não passa por isso, ou que o exemplo não se encaixa na sua vida, ou que é muito tranquila a sua relação, seja por gostarem das exatas mesmas coisas e nas mesmas quantidades, ou seja por terem um acordo muito bom de convivência. Bom para você, flor. Certamente, há quem tenha generalizado para outras situações e lembrado de momentos em seus relacionamentos (amorosos, afetivos, familiares e afins), que foram “interessantes”. E qualquer dificuldade ou conflito de convívio é normal  — seja por ser natural ou por ser frequente. Isso tudo faz parte do convívio. Entretanto, vamos ao próximo parágrafo. 

Sempre tem um entretanto, Autor? Nem sempre. É que eu queria chegar às exceções aqui. Bem, a parte de que conviver é complicada e tem suas dificuldades, e eu acredito que seja a mais fácil de entender e assimilar. O problema surge quando a gente vê exceções nos comportamentos que temos que conviver, e quando essas exceções têm certos padrões. Por exemplo, se você odeia ver filmes de terror, e você namora alguém que gosta, mas você não abre concessões para seu cônjuge, porém para uma certa amiga, você os assiste sem problemas, sempre que ela quer, tem algo estranho nisso, não? Ou você mora com sua família e você reclama 50% do dia que não gosta de som alto (e sua família gosta de uma música durante o dia), mas quando você visita um conhecido e fica lá ouvindo música alta com ele? Com certeza, não é legal. 

Vamos para a parte final do nosso prato, a que eu acho ser de mais difícil digestão. Digamos que você é médico e não marca consulta de graça para seu parceiro, mas faz para um amigo você o faz. Bem, se seu parceiro convive contigo todo dia e o amigo não, essa decisão é, no mínimo, controversa. Claro que esse assunto pode levantar bastante discussão, sobre trabalhar ou não trabalhar de graça para os outros, mas quando você assume uma postura de que não vai fazer trabalhos sem receber por isso, mas o faz para algumas pessoas, então você está abrindo excessões. E minha pergunta é: para quem você está abrindo exceção? Para quem vive contigo e está ali pra você, ou para quem tem apenas a parte boa de conviver contigo, que é quando você está disposto? Independente da resposta, não digo que estará errada, mas acho que vale a pena pensar sobre isso. E isso vale para muita coisa. Da minha experiência pessoal, muitos amigos artistas odeiam quando pessoas próximas os pedem coisas “simples” e não querem pagar. Muitas vezes a própria família quer um desenho ou uma montagem, mas querem de graça. Certamente há quem queira abusar. Contudo, entretanto, todavia, os mesmos amigos artistas que eu conheço também fazem as mesmas coisas para algumas pessoas, sem cobrar nada. E isso é um direito de quem está fazendo, tomar a decisão de fazer de graça. Assim quando alguém da computação ajuda a formatar um computador de um amigo e o serviço é pagado pela conversa e amizade. Eu mesmo já fui chamado para corrigir textos de trabalhos sérios, sem que me oferecessem um cafézinho. Para algumas pessoas eu fiz, para outras não. Nada disso em si está errado, mas a escolha para quem a gente faz essa exceção é arbitrária. E ao não fazê-las para quem paga o custo da nossa convivência, me soa extranho. Por exemplo, se eu morasse com alguém apaixonado por fantasia e essa pessoa quisesse uma história para o personagem dela, e não soubesse como fazer isso, eu certamente dedicaria meu tempo para fazer algo assim, talvez na forma de conto ou de um romance curto. Dependendo, por que não fazer um projeto juntos, com roteiro e essa ser uma atividade nossa? Ou não… eu poderia negar isso. Ou, muito pior, eu poderia postergar isso e nunca entregar, nunca dar uma resposta definitiva, sempre jogando para um possível futuro. Até que um dia, quem sabe, alguém (um amigo distante, por exemplo) me pedisse uma narração profissional sobre um personagem (para um jogo, quem sabe) e eu decido fazer sem cobrar. Enquanto isso, a pessoa que vive ao meu lado fica numa espera sem fim, em que eu não recuso diretamente e também não faço o que ela adoraria receber. E fiz para um outro, quase um qualquer.

Tudo isso é muito delicado, certamente. Ao mesmo tempo que é bastante fácil de resumir em poucas perguntas: Você valoriza quem está contigo e lida com toda a bagagem de quem você é? Você abre excessões para quem em sua vida? Você evita lidar com o que acha difícil com quem você ama, mas faz o possível para agradar quem te conhece e não convive contigo? Obviamente as respostas para essas questões podem possuir uma miríade de razões e detalhes, mas pensar nessas coisas pode nos ajudar a crescer ou nos tornar melhores em convivência. Afinal, se você é o amigo que não gosta de comer coisas diferentes e vai para uma festa com seus amigos e acha que é responsabilidade deles te alimentar toda vez, porque você não vai mexer uma palha para aliviar para eles, então você é uma amizade custosa. Imagina conviver todo dia contigo? De verdade, imagine isso. Seja lá quem você for, imagine que tudo que você faz ou deixa de fazer, afeta quem está a sua volta. E nós sempre podemos refletir sobre isso. Acabou nossa sopa. Vamos de um café? c[_]

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