Brigadeiro de festa

Este texto nasceu de uma conversa com um amigo do trabalho. Bem, isso era o que eu gostaria de dizer, mas está longe da verdade. Afinal, este texto é estrutura, tato, trabalho e esforço trôpego, quiçá, de seu autor. Contudo, a ideia foi concebida em uma conversa no trabalho, tão prazerosa quanto sua guloseima favorita. Embora o tema possua certa ductilidade em sua pretensão, pouco importa, pois é delicioso. Acontece que a conversa vasculhou em minhas memórias sensações de estimado valor, perscrutando reafirmações sobre meu próprio gosto, nessa constante autoavaliação duvidosa que nós nos fazemos só sempre. E sim, meu doce de festa favorito é o brigadeiro. 

Uma mesa decorada com muitas coisas, papéis e embalagens diversas. Enfeites, aqui e acolá, gente ansiosa, “mas não vão cantar parabéns logo?”, vozes tentando sussurrar obviedades que não podem ser ditas, crianças tamborilando pés e mãos e dentes de leite ou permanentes. Se para você esse cenário faz algum sentido, bem-vinda ou bem-vindo ao meu texto. Do contrário… constrangimento  —  ao menos para um dos lados.

Quando eu era pequeno, na década de 90, as pessoas faziam festas de aniversário. Elas aconteciam uma vez por ano (diferente dos “mêsversários” da atualidade) e começavam a partir de uma certa idade, quando a criança pudesse lembrar. Essas festas envolviam uma comoção familiar, em que precisava limpar a casa, liberar espaço, comprar insumos para fazer bolos, doces, salgados, buscando receitas antigas em cadernos, vizinhas, comadres ou compadres. As festas aconteciam, quase sempre, na casa do/da aniversariante, que seria a pessoa central do evento. Assim, o passo seguinte seriam os convites. A começar pelas tias e tios, primos, primas, e então aquela criatura de sexto grau de parentesco que nem se importa com quem faz aniversário, mas fica desolada se não for convidada, até chegar nos amigos e nas amigas que serão selecionadas a acrescentar no quórum de convivas. 

Como de praxe, vamos parar um pouco, quebrar o ritmo do texto e amolar a paciência de quem lê com questões (vamos? Estou falando de mim na terceira pessoa do plural? Estou eu considerando que a criatura que aqui lê estará comigo fazendo reflexões? Uma quebra dentro da quebra?). Vamos, não se aborreça comigo. Continuando! Se você leu os parágrafos acima, certamente viu que eu fiz um recorte de tempo, de classe, de posição social, de crença, de cultura e de idade, e até de alguns outros. Fazer recortes é bom, tanto quanto cortar uma fatia de bolo também o é. Dessarte, é importante salientar o significado disso na realidade: essa não era a realidade de muita gente. Festa de aniversário para pessoas que são órfãs, autistas, cadeirantes, ricas ou tristemente miseráveis são realidades que não conheci e, por isso, sou limitado a esboçar adequadamente aqui. Para além disso, há quem não comemore aniversários, como pessoas testemunhas de Jeová ou pessoas que escolhem não comemorar pois não veem nisso significados. Seja como for, meu texto não é sobre todas e todos, longe disso, é para mostrar um gosto mesmo que pode ser compartilhado contigo ou não. E também para que a gente possa olhar para algo que pode ser corriqueiro e ver que tem muito tempero para apreciar nesse recheio da vida. Seja como for, acho bom você se identificar em que ponto sua existência está no universo dos aniversários. Fez isso? Ande uma casa…

Outro ponto que vou frizar e anunciar antes é que as festas que falei ali eram íntimas. Eram festas em casa, com limitações que as casas podem ter. Não eram salas alugadas em que tudo está pronto e encomendado e limpo, organizado, estéril, infértil, servil e distante. Também são com quitutes feitos em casa, a maioria, sem tantas embalagens, algoritmos de serviço para qual bandeja tem que aquecer e servir primeiro, mandando para o salão. As festas que estou falando são em casa, feitas 100% do esforço amador que deixa as lembranças juntinhas e aquecidas no coração. Claro que não faço juízo de valor sobre serem melhores do que outros modelos de festa. São apenas a minha preferência. E por fim, a festa só tem sentido quando quem aniversaria tem chance de aproveitar a própria festa (sinto muito, se um bebê que nem diferencia sons ainda está numa festa para ele mesmo, ou ela mesma, então a festa é para outra pessoa… talvez para um pai ou uma mãe biscoitar em rede social). Seja como for, uma festa tem que ser festiva. E tem que ter brigadeiro  —  ao menos se for pra mim.

A muvuca que eram as festas são lembranças divertidas. Dá para ver a fofoca ganhar vida, dá para passar vergonha cantando as músicas que sempre são listas peculiares e dá para quase tocar a ansiedade de quem quer comer logo os docinhos. E por falar em docinhos, é difícil dizer qual a gente quer primeiro se tiver variedade. Aqueles pratinhos que a gente empilha montanhas de doces nunca são suficientes para uma única jornada à mesa de doces. É preciso provar por partes. Eu sempre focava nos beijinhos e brigadeiros primeiro. Como nunca fui fã de coco, tem que começar pelo “pior”. Depois vem as delícias de olhos-de-sogra (um nome condenável), os cajuzinhos e os brigadeiros. Depois, dois amores (hummmmm) e brigadeiro (hummmmmm). Caso houvesse presente diversidades como gelatina colorida ou algum creme de maracujá, esse terceiro momento os contemplaria. E a sequência de passos era ir à mesa, pegar os doces, comer longe e repetir. De preferência longe do tio chato e fofoqueiro que fica controlando o quanto você vai comer. O melhor era quando havia mesas de docinhos e salgadinhos distribuídas, assim dava para intercalar aonde ir buscar, sem chamar atenção de parente chato de aniversariante. E sim, eu ia às festinhas para comer mesmo, que é a melhor parte. E por falar em comer (mais ainda), não posso deixar de lado os salgadinhos. Eu era amante dos mini quibes, dando moral de leve às mini-coxinhas. Claro que os amantes de bolinhas de queijo, os mini-croquetes, as mini-empadas, os pasteizinhos assados ou fritos e as empadas. O mundo dos salgadinhos de festa era à parte, e, confesso, minha parte favorita. Primeiro porque vinha antes do bolo, enquanto os docinhos eram liberados depois. Bolo…

Claro que não dá para falar de festa de aniversário e não falar de bolo. De todos, o meu favorito sempre foi o de chocolate com cobertura de chocolate. Na década de 90, era chamado de nega-maluca. E há um sentimento triste em relação à nomenclatura, que faz menção a um estereótipo de mulher negra, pois era meu bolo favorito em minha ignorância  —  quem dera eu puder mudar a história e associar o nome a um novo estereótipo, de mulher negra incrível que super os outros em tudo, tal como o bolo. Obviamente se eu pudesse mudar a história, mudaria outras coisas prioritárias, né? Então vamos superar a romantização de nome de bolo de agride. Em todo caso, esse também era o bolo mais comum nas festas em que fui ou mesmo tive. Assim como o brigadeiro era praticamente unânime. Há uma razão para isso, certamente: chama-se acesso. Se você nunca teve que se preocupar se iria ou não ter uma festa de aniversário até começar sua vida adulta, então esse texto não é para você. Lamento. Se suas preocupações eram com qual doce escolher, qual roupa usar e quem irá cantar na sua festinha, então esse texto também não é para você. Não no sentido de que estou te proibindo de ler  —  jamais, “friend”  —  mas em ser parte dele, de mim para você. Esse presente eu te nego (alguém tem que te negar algo, né?). E voltando a falar de acesso, isso está muito ligado ao sentimento de preciosismo para com essas festinhas. Quem já viu uma mãe e uma tia virarem uma noite, depois de um dia de trabalho, para enrolar brigadeiro e bater um bolo caseiro absolutamente delicioso, para um ser que não sabe o trabalho que dá fazer uma festa “com o que se tem”, sabe muito bem que o gosto desses docinhos são de “valorização”. Quem já viu um pai correr para pegar ingredientes, montar uma mesa e um brinquedo emprestado para que alguém da prole acordasse e pulasse de alegria no dia de seu aniversário, sabe dar valor ao esforço de uma festinha em casa. Quem já se mudou tanto que perdeu a noção dos dias, mas acordou no próprio aniversário com festa de aniversário na cama, com mãe, avó e duas tias, com brigadeiro de panela, coxinha, quibe e um bolo aprendido no dia anterior e tudo feito com muito empenho na madrugada  —  pois o trabalho era muito e o dinheiro nem sempre acompanhava  —  sabe como é uma delícia só ser lembrado quando já se tinha desistido da ideia de “fazer aniversário”. Brigadeiro, meu bem!!! Leite condensado, margarina ou manteiga, achocolatado ou cacau e uma panela. E pode ser o melhor doce do mundo, com significados que o cobrem até o fim dos tempos, granuladinhos. Como não amar?!

E assim como toda festa delícia no mundo chega ao fim, esse texto chegou ao seu final. Confesso que deu fome lembrar de tanta coisa boa. Mas deu mais trabalho pensar que toda a magia das lembranças envolve uma variedade de questões e problemáticas que não se encerram no próprio assunto. E, certamente, não estou invalidando outras formas de festas de aniversário. Só valorizando as que são recheadas de significado. Seja como for, não vejo a hora de poder fazer uma festinha íntima de novo. Pessoas que amamos, em casa, tudo feito à mão se possível (ok, dá pra encomendar alguma coisa de uma doceira local) e música bem estranha pra completar. Acho até que vou chamar o amigo que ajudou a criar este texto datado e combinar uma festinha de aniversário atrasada quando a vacina chegar. Eu fico com os brigadeiros, ele com os cajuzinhos e você com o café.

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