O não indiferente ano de 2020 está acabando. Declarar isso significa deixar o texto datado, e é importante que assim seja. Além disso, esse é um texto bem pessoal, então se controle. Com o final do ano se aproximando, chegam as comemorações de ano novo. E confesso que a celebração da data está entre minhas favoritas. Acho que sempre gostei de “ano novo”. Bem, não sempre, mas desde que aprendi a gostar, por influência da minha mãe — pensa, eu como bebê de seis meses adorando ano novo, sendo que nem sabia quais eram os conceitos de novo ou de ano. Em todo caso, a festividade me agrada. Porém, contudo, todavia, entretanto, but… (pausa dramática)… a minha perspectiva sobre a festividade mudou ao longo da minha história.
Eu posso citar o ano de 2013 como o grande ano “divisor de águas”. Foi um ano horroroso em vários sentidos e eu não os explicarei aqui. Antes dele, eu amava toda a ilusão de recomeço do ano novo, a escolha de metas novas, todas as resoluções que eu poderia tomar, a festividade e tudo mais. Eu era um serzinho cheio de esperanças e boa vontade. Agora, depois dele, eu decidi que a cada ano eu teria uma única resolução, que seria algo para dar conta de cumprir. Isso funcionou e logo mais falarei sobre. O ponto que quero tratar aqui é que depois de 2013, os seis anos seguintes foram bem servidos de caos.
Eu sempre tive uma vida cheia de imprevistos. Isso é uma consequência direta de ter nascido na minha família, com quase incontáveis mudanças (de casa, cidade, estado…), um membro efetivamente facínora que deságua problemas nos demais familiares e acasos incessantes. Porém nos últimos seis anos as coisas intensificaram-se. Acho que não tive um único mês sem ter alguma mensagem de manhã sobre algum problema perturbador, alguma histeria dramática, alguma doença inesperada, comigo ou com alguém próximo. Nesse período, entre as coisas que aconteceram, dá pra citar as mais marcantes. Eu me assumi abertamente não heterossexual; Passei por um término com um cara que contraiu HIV durante o namoro (sabe-se lá como) e eu fiquei um ano fazendo exames até ter certeza que estava negativo mesmo (considerando todas as janelas imunológicas que li na literatura biomédica). E meu medo nem era o de conviver com o vírus, mas com as pessoas ao saberem; Eu tive meses de desordem “visceral”, e até hoje não sei o porquê, até porque a grana estava “curta” para ir a médicos e o tempo também era escasso. Felizmente passou, mas confesso que fazer prova de algoritmos II com seu corpo se contorcendo de dor, não é legal; Eu ingressei numa segunda graduação (que tem disciplina a de algoritmos), com meus três motivos sólidos à época; Minha mãe passou por um acidente e um tratamento para problemas pulmonares (que pelo que ela descreveu, parecia câncer e pode ter sido), em outro país, o que significa que eu podia fazer nada pra ajudar; Eu comecei a namorar e nós decidimos morar juntos, e tudo isso foi uma jornada para eu me abrir mais e compartilhar as coisas de dentro da minha cabeça; Um “parente” falsificou minha assinatura, alugou um apartamento, não pagou e eu ganhei uma dívida descomunal, uma dor de cabeça imensa e brigas com minha mãe para solucionar isso (e essa é apenas uma das tramoias que ele fez); Minha vó passou por mais de uma cirurgia, cujo processo todo englobou um monte de gente, salientando a disfuncionalidade familiar na família na qual eu nasci; Eu tive um cisto na “maçã do rosto”, que fiz acompanhamento por um ano (sem muita gente saber), até descobrir que teria que remover cirurgicamente. Cirurgia bem desagradável, posso dizer; Em um momento no meio disso tudo, tive minha primeira crise de ansiedade, antes de uma prova de estatística, e acabei deixando a matéria de lado; Eu tive que colocar aparelho nos dentes, logo depois que um molar trincou ao meio, pouco antes de ter que tratar o canal desse dente às pressas. Mas usar aparelho é algo tranquilo; Jogue aí também vários imprevistos, discussões familiares das quais eu nem estava presente e mesmo assim paguei um ônus, uma dose de homofobia velada (vinda das conexões de sangue, claro), conflitos com o fato de eu ser ateu numa família “mística”, uma lesão permanente no ombro, consumo de medicação para evitar complicações crônicas, caixa d’água furando e infiltrando meu telhado, reformas que não poderiam se adiadas e mais uma variedade de coisas menores semanalmente. Semanalmente.
Nossa, que parágrafo longo este último, né? Calma, respira, tá tudo bem. Agora, antes que você ache que foram anos ruins e tudo mais, despreocupe-se. Tudo isso e mais outras coisas aconteceram, sim, mas também muitas coisas boas estiveram presentes. E toda dificuldade superada nos deixa mais forte, certo? Claro que não. Essa coisa de ficar forte ou fraco deveria parar de ser propagada. O que acontece, é que a gente muda quando superamos coisas difíceis. Além disso, mudanças podem ser boas ou ruins. A gente pode se tornar insensível ou desenvolver mais empatia, por exemplo. Seja como for, a gente muda. E mudando, muda-se a visão sobre coisas como a passagem de ano novo. Nesse momento eu espero que você se pergunte, ou ao menos tenha se perguntado, porque eu listei todas essas coisas. E foi para falar, com um bom contexto comparativo, que 2020 está acabando. E que, para mim, foi um ano com certa ironia existencial.

Foto por Anna Shvets em Pexels.com
Este ano foi o da pandemia, obrigando mudanças nas pessoas. Coisas antes que pareciam óbvias, mas não eram levadas a sério, como trabalhar em casa para vários tipos de funções, foram necessárias (e olha só, com vários aspectos positivos). Foi neste ano que saúde mental foi um assunto mais conversado (não muito compreendido, mas paciência) devido à sua necessidade, bem como todo mundo quase teve que ficar em casa, na obrigação de viver com as pessoas com quem se mora junto. Não poder sair, ter de usar máscara, sentir o medo disseminado, não saber qual a atitude certa para isso ou aquilo, entre tantas outras coisas, são condições desesperadoras para muita gente. Num cenário geral, 2020 foi péssimo e difícil. Para quem vive no Brasil houve o agravante de um governo incompetente na gestão adequada de um país. Entretanto, para mim, este foi um ano “bem bom”, ironicamente. E olha que eu passei por todas as coisas ali do começo deste parágrafo, assim como você. Por exemplo, morri de preocupações com minha mãe longe, tive minha produtividade testada constantemente (com vários fracassos nesse aspecto) e minha dupla do meu trabalho de conclusão de curso sumiu (espero que você esteja bem). Seja como for, foi neste período também que eu tive o privilégio de poder parar, pensar sobre minha própria vida, entender melhor algumas coisas e desafogar vários sentimentos. Esse ano está acabando muito melhor do que começou. E foi nele que minha vida se estabilizou sem tantas surpresas desagradáveis, sem tanto caos. Joguei muita romantização fora, muito lixo emocional também e tudo o que sobrou foram mudanças. E mudanças que gostei.
Com o vindouro 2021, vou manter minha tradição de uma única resolução. Uma só é mais do que suficiente para dar trabalho. E isso, claro, não implica em não ter metas e objetivos. Mas a resolução é a parte mágica da qual dá para tirar proveito, afinal. Em 2014 minha resolução foi de terminar coisas que comecei ou de abandoná-las. E olha, foi bem bom isso. 2015 eu decidi ser mais gentil com as pessoas, enquanto em 2016 eu queria ter uma rotina produtiva e diária (tolo de mim). 2017 foi a vez de fazer coisas mesmo com medo, o que nem funcionou muito, mas deu boa. 2018 decidi não ficar perdendo tempo com coisas que não me seriam úteis ou boas — adeus redes sociais. 2019 eu queria melhorar minhas “soft skills”, mas fracassei (fiz isso no ano seguinte). Esse ano eu busquei ser mais gentil comigo mesmo, e tô indo bem. Enfim, cada resolução é uma tentativa de ser uma pessoa um pouco melhor, tentando fazer isso de forma mais realista.

Foto por Filippo Peisino em Pexels.com
“Então, o que você quer dizer, autor?” Ora, quero dizer que as coisas mudam. Algumas vezes ficam mais fáceis, outras mais difíceis. Eu tive muitos privilégios na vida, confesso, mas poucos não acoplados com alguma chantagem emocional ou uma cobrança robusta. Em todo caso, eu cresci em meio a um caos, oriundo da minha família, e para não cortar relações, permaneci próximo o suficiente para não desaparecer e minimizar conflitos. Assim, no ano em que o mundo se sentiu obrigado a ter que mudar os planos, eu me senti numa terça-feira. E compartilhar isso com outras pessoas, essa sensação de estar cansado de estar cansado, tem seu lado bom. Claro, ver um lado positivo nesse 2020 não compensa o sofrimento de tantas vidas perdidas, em momento algum. Inclusive, pessoas próximas morreram neste ano, e deixaram um vazio nas vidas de quem os conhecia. Em todo caso, está acabando. E por sorte e pelo esforço de muita gente em não disseminar mais ainda a doença, estamos vivos para escrever ou ler algo como isso aqui. Finalmente, nessa conclusão que “nem conclui”, eu desejo um ano novo bom para todos — até para o abjeto ser que há cinco anos está protegido em camadas espessas de justificativas e indiretamente permanece em minha vida. Desejo um 2021 melhor, mais agradável que seu antecessor. E que mesmo que tudo pareça incrivelmente problemático, com a quantidade de tempo certa dá para melhorar. Feliz ano novo, muito bom humor, mudanças positivas, momentos reconfortante, aconchego e um feliz café. c[_]