Qual o momento certo de pedir ajuda?

Você está na sua cozinha, cortando umas frutas. De repente, a faca em sua mão desliza para um corte íntimo no seu braço. Sangue verte. Você coloca a mão sobre o corte. Ardência, dor, arrependimento de ter usado uma faca sem fio, palavrões eructam maldições da sua boca em protesto legítimo. Sangue verte. Você olha ao redor, perscrutando soluções para a ferida aberta e nada. Sangue verte. Desespero e uma leve tontura tomam seu ser. Finalmente, você entende que não sabe o que fazer  —  mesmo que tenha tudo o que precisa para parar o sangramento na gaveta mais próxima, e que há antisséptico e as demais ferramentas para resolver isso no armário no canto da cozinha. Então você grita por ajuda. Mais precisamente, clama por socorro. Detalhe: você tem 12 anos nesse cenário.

Penso que com essa descrição acima, fica bem fácil de entender e, principalmente, de se identificar com a situação de que é alguém que precisa de ajuda para um problema  —  que pode custar a vida. Agora, e se a situação for diferente? E se for, digamos, ajuda para resolver um problema que não custa a vida? E se for ajuda para entender um livro? Ou um texto? Ou um parágrafo de seis linhas? Ou… qualquer coisa que um outro pode ajudar. 

Essa pergunta “qual o momento CERTO de pedir ajuda?” me veio numa aula de ciência de dados, ao testemunhar uma apresentação de um trabalho. Em resumo, o estudante fez o trabalho incompleto, porque acabou perdendo (foi perda mesmo?) tempo com a conversão de uma tabela, que estava num formato “X” e precisava estar num formato “Y”. Com o tempo que sobrou, ele pode apenas concluir parte do trabalho. O professor então diz que isso não é desculpa, que ele podia ter pedido ajuda, que bastaria uma linha de código para resolver esse problema. O estudante tenta (sim, tentar é o verbo aqui) explicar que ele pediu ajuda, mas que o professor falou que aquilo era um problema de resolução fácil e que todo programador deve conseguir resolver isso, que nós (se referindo aos estudantes de computação do mundo) deveríamos ter autonomia. Foi isso. 

Esse breve momento de história me fez relembrar de muitas situações parecidas, que presenciei, ouvi, vivenciei e até mesmo participei em algum nível. E confesso que vivi esse dilema constantemente ao estudar computação: “eu devo estudar até conseguir descobrir sozinho?” VS “eu devo pedir ajuda?”. Minha graduação foi uma viagem completa por essa dicotomia. Ouvi coisas do tipo “computação não se faz sozinho” e coisas como “você tem que se virar”. Qual o equilíbrio? Qual o tempo certo de fazer uma pergunta e não parecer um “idiota” ou um “preguiçoso”? 

Como seria um mundo em que esforço não fosse demérito?
Foto por Julia M Cameron em Pexels.com

Antes de seguir com o texto é importante explicarmos alguns pontos. Primeiro o de que as pessoas são pessoas. E toda pessoa erra. Assim, como professores e estudantes são pessoas, eles também erram, seja em seus métodos ou suas ações isoladas. Outro ponto é que há sim pessoas negligentes, que querem se aproveitar dos outros e que inventam desculpas (pensa se uma pessoa assim vira professor… só um exercício mental, mesmo). Finalmente, existem exceções, existe responsabilidade e nada é simples na realidade.  Assim, não pretendo negar que há estudantes relapsos, há pessoas que querem se aproveitar das outras, existem professores que são sádicos e alunos cruéis. Também seria completa alucinação negar que há responsabilidade pessoal em cada fracasso, bem como seria delirante e estúpido excluir de qualquer contexto o próprio contexto no qual se dá a relação que for  —  estudante e mestre, chefe e colaborador, parental e prole e qualquer outra  — , afinal o contexto é definitivamente influente. Outrossim, essa relação envolve poder, e o lado com menos poder sempre estará à mercê. Prossigamos. 

Quando precisamos fazer algo e nos comprometemos, assumimos responsabilidades com isso. Formal ou informalmente, isso faz parte do comprometimento. No caso da universidade, cursar uma disciplina tem implicitamente a responsabilidade de um estudante de fazer o que é pedido, de estudar e de apresentar algum resultado disso, na forma de um trabalho ou prova ou outro meio avaliativo. Contudo, as coisas estão longes de serem resumidas em “responsabilidade e avaliação”. Vamos pensar por um instante em alguém estudando matemática. Então essa pessoa aprende como resolver funções. Magnífico, certo? Contudo, digamos que ela entendeu uma coisa errada. Mais ainda, que ela se esforçou tremendamente para fazer com que sua forma errada conseguisse resolver seus exercícios. Já passou por isso? Já viu isso acontecer? Pois é, a frustração de passar por isso é bem chata. E como alguém que passa por isso é “recompensado”? E nesse caso, a culpa é de quem? O que poderia ser feito nessa circunstância? Se você já viu professores simplesmente sentenciado o trabalho como incorreto e a coisa ficar por isso mesmo, então você viu coisas que eu também vi. Isso desanima, desmotiva e frustra quem está sob o crivo avaliativo. 

Outra situação é quando algum estudante que tem dificuldade num exercício resolve pedir ajuda e recebe um “redondo” “você tem que estudar isso sozinho” ou “a resposta é essa, chegue nela, eu não vou explicar”. Isso acontece e o principal problema é que é o tempo todo (ou quase). Certamente, todo estudante deve aprender a aprender o que precisa ser aprendido e tornar-se autodidata. Sem dúvida. É imprescindível uma pessoa desenvolver autonomia em seus estudos, sua carreira e sua vida se quiser ser independente. Isso traz realização. Contudo, autonomia e autodidatismo não são capacidades inatas. São capacidades que demandam investimento em tempo. E cada pessoa tem um ritmo, uma história, uma forma de aprender, uma motivação e necessidades diferentes. É absolutamente comum em salas de ensino professores apontarem que fulano ou ciclano conseguiram sozinhos. Muito bem para eles. Parabéns. Todavia, geralmente os exemplos exemplares fazem parte do grupo de dezenas de estudantes cuja única preocupação é estudar, sem ter que se preocupar com o que comer ou limpar a própria casa, lavar a própria roupa, fazer compras e lidar com outras necessidades. É bem mais fácil estudar quando não se tem preocupações. 

Então é culpa das “outras atividades” quando um estudante não cumpre com algo esperado? Não é bem assim. Mesmo que tudo esteja perfeito, ainda há quem tenha dificuldades em questões que outros não têm. Não há quem seja bom em tudo. E todo mundo tem muitas dificuldades em muitas coisas. Desse modo, julgar alguém apenas por uma falha, um erro, um único momento ou um acerto, é algo que me parece, no mínimo, fraco. E, por escrever em julgar alguém, chegamos ao ponto que eu queria. Julgar, avaliar, atribuir valor, quantificar o trabalho, estabelecer métricas… Me arrisco a dizer que qualquer um em nossa sociedade entende ou sabe que há métricas que avaliam as pessoas. Na universidade, a métrica fundamental, a partícula funcional de menor tamanho, é a nota. E por que eu queria chegar a esse assunto? Porque em nosso sistema, tudo o que importa é a nota. E isso permite que as relações de ensino possam se tornar nocivas, traumatizantes e desprazerosas. 

Notas são usadas para avaliação. E deveriam, penso eu, em sua concepção, representar o quão bem alguém entendeu algo ou aprendeu. Contudo, na prática, a coisa acontece de forma diferente. Notas são usadas para definir o valor das pessoas e criar comparações. Discorda? “Seja meu convidado”. A nota tem tamanho impacto, que se tornou o objetivo de muitas gente  —  e novamente me arrisco a dizer que é de uma maioria. E esse objetivo pode ser direto ou indireto, mas muito presente. Quase palpável. Quem nunca presenciou o comportamento “não vou fazer, não vale nota”? E é graças a essa coisa toda, da nota ser o que é, que o comportamento das pessoas envolvidas nessa relação é condicionado. E nosso sistema permite isso. Desse modo a relação de discípulo querer aprender e mestre a ensinar e guiar torna-se secundária. Claro que há exceções, mas a regra é outra… 

Dada essa realidade prática, temos ainda outra característica em nosso sistema, que é a impossibilidade de recuperação. Já pensou que se você errar algo, mas aprender aquilo depois, isso terá zero impacto na maioria das situações avaliativas. Assim, observamos que nota não tenta efetivamente avaliar o aprendizado. Se assim fosse, você poderia refazer aquela prova que não foi bem. Enfim, acho que essa pincelada sobre o tema deve ser suficiente para um exercício de imaginação. E o que isso tudo tem a ver com pedir ajuda? Muito. Num ambiente insalubre, em que a comunicação está cheia de ruído, as relações enxertadas com pressupostos, cuja cultura na qual o ato de pedir ajuda pode ser interpretado como incapacidade, preguiça, fraqueza ou incompetência, não sobra motivação para querer se arriscar. Complicado, não?!

Nada do que eu escrevi contempla toda a realidade. Tampouco responde a minha própria pergunta. Até porque, se eu soubesse a resposta teria feito duas graduações muito mais tranquilamente. Ainda, como a gente reage a alguém nos pedindo ajuda? Como lidamos com qualquer colega que pede uma anotação, uma explicação ou um socorro em algo que pressupomos ser trivial? E se quem solicitar for alguém que tipicamente é visto como irresponsável, mas que está tentando mudar? A quem damos chance e a quem sentenciamos nosso juízo de derrota? Voltando a lembrar que professores também são pessoas. E essa não é uma frase solta aqui. 

De certo modo, é desesperador pensar a fundo em como tudo é zoado. Ao nos depararmos com casos de pessoas que tiram a própria vida, que estavam cercadas de gente dizendo que a pessoa podia ter pedido ajuda, isso reverbera em como as relações e as estruturas que as sustentam e alimentam não são saudáveis. Do meu ponto de vista, não deveria ser traumático pedir por ajuda. Seja na graduação, no trabalho, na vida pessoal, nas amizades ou no cenário que for. Seja para alguém parar um sangramento, entender um texto ou sair de um relacionamento abusivo. Pedir auxílio em algo deveria ser visto como uma forma de esforço e ser recompensado positivamente. Mas claro, isso é só o que eu penso. 

Entretanto, não é esse texto que vai mudar o mundo e as coisas como são. E se ajudar a mudar, duvido que seja da noite para o dia. Afinal, mudanças são como aprendizados e demandam tempo. Mas e aí, o que fazer? Pelas minhas experiências, posso passar as coisas que funcionaram para mim. Num caso geral, tente avançar o máximo que conseguir. Quando travar, peça ajuda. Lembre que há pessoas que não ajudarão, e que algumas dessas pessoas serão seus professores. Quando for este o caso, busque alguém diferente. Às vezes não há o que fazer. Quando isso acontecer, deixe acontecer. No fim, tudo passa, e o grande drama de hoje pode ser apenas uma breve lembrança daqui a pouco tempo. O mais importante, talvez, seja não se esquecer que você é a única pessoa dentro de sua própria vida. Assim, não pegue pesado consigo mesmo e consigo mesma. Tome o seu tempo e faça o que puder. Mas faça. Porque o único momento errado para pedir ajuda é ontem. c[_]

Um comentário sobre “Qual o momento certo de pedir ajuda?

  1. Avatar de Alexandre Duram Branco Leão Alexandre Duram Branco Leão disse:

    Prefiro sempre pecar pelo excesso de pedidos de ajuda, mas algumas vezes acontece do orgulho falar mais alto e quebrar a cara tentando resolver algo sozinho que poderia ser resolvido com ajuda.

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