Qual é a primeira coisa que vem à mente quando alguém nos pergunta “o que é o amor?”? Muitas são as possibilidades, afinal muitas são suas formas e tipos, não é mesmo, pessoa!? O amor é algo bastante complexo, cujas definições possíveis têm confrontado aceitações e conflitado ideias pelo tempo. Entretanto este texto está muito longe de trazer alguma definição sobre o que é o amor. Contudo, numa sequência conflitante de negações de sentenças, tal qual nossas lutas internas também o são, não é impossível seu surgimento, mesmo ambiguamente. Agora, voltemos aos trilhos. Eu acabara de falar que havia formas de amar e tipos de amor, antes de devanear acerca do que eu mesmo afirmei. Dessarte, se há morfologias e categorias diferentes, podemos levantar perguntas diversas sobre esse conceito confuso e complicado, mais turvo que este parágrafo, tão conhecido, difundido, discorrido e estufado de achismos e empirismos e eufemismos e “inconclusões finais”. Então, deixe-me perguntar também. Qual a distância do amor?
Qual a distância do amor, pessoa? Um metro? Vinte centímetros? Dez anos-luz? O espaço entre as costas e a barriga na posição de conchinha? Como mensuramos isso?Há fita métrica para tal? Ele tem peso? Data? Validade? E se tem, como saber? Dá pra estender? Pode-se aumentar? E o gosto? Seria mais doce, como paçoca, ou meio azedinho como notas de maracujá? Existiu um primeiro amor, que gerou os outros todos? Podemos nos confundir com o que ele é ou seria? E se não existir? Qual nome dar pra todas as coisas que confundimos com ele? Troca-se? Dá pra dar? Gasta-se? O amor dorme? Por mais estranhas que pareçam tais perguntas, são coisas com as quais quem ama acaba lidando. Nos numerosos tutoriais sobre como é amar e o que é o amor, encontramos muito mais do mesmo do que o Renato Russo encontrou. Há quem diga que amar deve ser assim, ora fácil, ora dolorido. Existem outros que esclarecem coisas que sequer sabíamos que eram dúvidas ou preocupações. Tudo muito importante. Tudo muito profundo. Quase tudo pouco prático. Isso é um sintoma ou uma consequência? Que seja.

Colocando os pés no chão, lugar comum bastante fácil de entender, podemos tentar pensar sobre o amor em si. Geralmente alvo da mineração dos tutoriais e suas observações inteligentes e sofisticadas que não cessam temores: o convívio; disto devemos lembrar, com absoluta sobriedade, que existe um custo de convivência para cada ser vivente na Terra. Jé pensou sobre isso? Qual o custo para viver contigo? Será que você exige o cumprimento de regras rígidas ou determina a existência necessária de caos e que ninguém deva controlar outros? Sua rotina é fácil? E seus medos, o quão eles podem assombrar quem está contigo? Sua bagagem emocional interfere até qual ponto na relação? Você é confortável com outra pessoa? Você fica confortável consigo mesmo? É preciso ter quanta paciência para lidar contigo? Você, pessoa, permite que alguém se abra a você em até que ponto? E as expectativas, você as têm ou as cria ou as vive? Sejam quais forem os outros questionamentos, é inegável a existência desse custo de convivência. Sempre que vejo alguém despejando carência nas redes sociais, nas conversas dos bares e em reclamações íntimas, geralmente eu vejo que, do comportamento queixoso de “eu não encontra alguém pra mim”, há uma cornucópia de atitudes que não dão segurança para que outra pessoa chegue e queira ficar. Até porque, qual o sentido de perder tempo reclamando ou falando de felicidade se você pode ir lá e só viver a felicidade? Reclamar do mundo, de tudo e de todos, e ser a encarnação daquilo que se reclama não ajuda. As pessoas são frias… mas e você, o quão receptivo consegue ser? Ninguém quer nada sério… em que parte acham a seriedade em você? As pessoas cobram isso e aquilo, querem rótulos, querem esteriótipos, querem querer quero queria que que o quê… e você já disse o que quer? Á, mas os outros não sabem o que querem… e você sabe? É importante buscar saber. Ou não…
Antes que você, leitor paciente, desanime do amor ou do texto, dada a rispidez do último parágrafo, deixe-me contar-lhe algo bom: amar não é fácil. E isso é ótimo. Amar envolve exposição, entrega, resolução, vontade, determinação e tem um custo bem alto. A parte ótima? É que amor correspondido é aconchegante, acolhedor, restaurador, compreensivo e mais tantas coisas que colocam sentido em nossas vidas, que seria necessário enfileirar mais palavras do que átomos de H ao redor da Terra. As ações começam a ser planejadas pensando-se noutra pessoa, não por obrigação ou formalidade, mas por vontade pura. O individualismo cai, mesmo pra quem é individualista. E há egoísmo e altruísmo, em proporções conflitantes o tempo todo. E, acima de tudo, é bem assustador desejar tamanha entrega e ter tanta aceitação por alguém que não a nós mesmos. E todo esse processo de aceitação pessoal, de saber o ônus de nossa existência na vida de alguém, de buscar o entendimento de coisas que não possuem respostas prontas ou fáceis ou definitivas, é exaustivo. Mas vale cada dia vivido. Requer coragem e aceitar que certos medos vão surgir. E quando se começa a viver um amor, o acúmulo de trivialidades absolutamente relevantes é necessário. Quem vai abraçar na conchinha? Falar que quer ser abraçado, sem ser julgado como carente, ou que quer abraçar, sem qualquer sentença tacanha, ou mesmo que sente calor quando vai dormir e busca-se ficar o mais próximo que aguentar é o que demarca o amor. Cada gesto insignificante, mas que é pensado para alguém além de si mesmo, transborda o amor. Grandes gestos são fáceis de fazer, pois tem começo e meio e fim. Amar tem início confuso, meio interminável e fim imaginário. E só se ama todo dia, em cada planejamento, vontade de estar junto, dividir momentos, perguntar coisas, ser só o que se pode ser. E isso, pessoa, é difícil. Mas quando deitamos de conchinha, ou não, abraçando ou não, quando somos amados, sentindo toda nossa fragilidade sendo cuidada por alguém, encontramos a melhor posição da vida.

Tudo bem, mas e qual a distância do amor? Essa pergunta, especificamente, desprovida de sentido romântico e iludido, bem como fundamento adequado ao raciocínio refinadíssimo humano, me trouxe a esse texto. Para tantas pessoas que perguntei isso, obtive respostas diversas. Enfurecidas, energéticas, risonhas e vagas. Como se tocasse numa ferida exposta. Senti medos alheios e curiosidades genuínas. Contudo, a única resposta que aceitei é que essa distância é a mesma entre as batatas fritas. Quando pedimos uma porção, estando juntos de alguém, e temos a plena convicção de que o outro sabe que o consideramos nessa decisão, sabemos, por alguma razão, que isso parece certo e bom. É a distância entre cada palito de batata, que é pedido sabendo que não é só pra si mesmo, pois não é um pedido egoísta e controlador, que mensura a distância do amor. Se a porção acabar, pediremos outra. É a distância ao saber que qualquer movimento a muda, mas que na prática ela se mantém igual. É o sentimento ao nos depararmos com a certeza de que cada porção pedida será compartilhada, aproveitada e completamente dividida, pela vida toda, sem o medo de acabarem. Mas então, você pessoa, percebe que não existe uma distância estabelecida e certa entre as batatas… Desse modo, assim como você queria, a distância do amor é uma metáfora bem sólida. Nada além disso. Agora, vai lá e divida o resto da sua vida com quem você ama. E até mais. c[_]