Amigos, colegas, conhecidos e insistentes

Quem nunca foi para uma festa, balada, ponto de ônibus, restaurante, lanchonete, consultório, praia, estação espacial, faculdade, velório, dissecação, casa de tia, jogo de futebol, campeonato de Magic, aula experimental de Pa-kua ou qualquer outro evento e nunca encontrou alguém que conhecia?! Bem, eu já tive vários encontros desses. Já conheci pessoas assim, com as quais fiz amizade. Penso que tais situações sejam triviais para a maioria das pessoas. Além disso, cada tipo encontrado irá determinar sua reação. O que é simples, não é?! Há pessoas das quais gostamos muito e ficamos felizes ao encontrar. E há outras… que nem sempre será uma alegria ao encontrar. Para explicar isso e chegar onde quero, vou definir os quatro tipos de pessoas que podemos encontrar: conhecidos, colegas, amigos ou insistentes.

Primeiro, creio que seja de comum senso o termo “conhecido”. Afinal, é alguém que você conhece, algumas vezes “de vista” e noutras por convívio. Um conhecido, quando encontrado ao acaso, não será alguém que fará muita diferença, geralmente. Pode até ser legal, como um gatilho para você se enturmar ou tornar-se mais próximo ao conhecido (evoluindo para o patamar de amigo). No mínimo, um breve e simplório “oi” trocado – ou completa indiferença, de um ou ambos os lados. No mais, todo mundo sabe que um conhecido não é a expectativa da festa…

Oi, você é fulano de tal, né?!
Oi, você é fulano de tal, né?!

O caso seguinte é o de quando encontramos um colega. Bem, há quem confunda colega com amigo ou conhecido. Contudo, colega é aquele que possui a mesma profissão que você, ou que fez as mesmas atividades, dentro de uma mesma área ou instituição. Assim, um colega pode ser um mero conhecido ou um estimado amigo. Em todo caso, quando nos referimos a alguém como colega, denotamos certa distância, acusando uma intimidade superficial e mais restrita. Encontrar esse sujeito é algo indiferente na maioria das vezes. A diferença mesmo está na frequência de convívio, afinal, é de bom grado manter certa relação harmônica com os colegas, para não prejudicar o trabalho (ou mesmo para melhorá-lo). Isto posto, encontrar um colega num ambiente informal e inesperado, geralmente mostrará que ambos possuem algo em comum (afinal, quem nunca encontrou “fulano” pulando na balada que você menos esperaria encontrar?! Eu já. ^^).

Colegas. É legal quando se encontram em ambientes improváveis.
Colegas. É legal quando se encontram em ambientes improváveis.

Bem, o próximo tipo de pessoa que encontramos é o favorito – se não for, tenho que rever alguns conceitos. O tão estimado amigo.  No intuito de definir a relação para com este, busco o conceito explicado por Aristóteles, que a classifica em três formas distintas: amizade pelo prazer, amizade pela utilidade e amizade pela virtude. No primeiro caso, temos o amigo por prazer. Esse é aquele que buscamos quando queremos nos divertir, rir, aproveitar a vida e relaxar. É um estágio intermediário entre utilidade e virtude (essa é uma interpretação minha), no qual já dividimos intimidades, gostos e contrapontos, quando passamos mais tempo juntos e conhecemos a rotina do outro. É redundante, mas essa é uma forma bastante prazerosa de amizade. Agora, temos o segundo tipo, a amizade pela utilidade. Essa é a forma mais simples e basal (embora amigos não precisem começar por aqui, como uma sequência linear). Nessa categoria temos todos aqueles com quem convivemos e partilhamos necessidade mútua. Geralmente nossos colegas mais próximos se encaixam nessa categoria, pois o contexto une-nos e condiciona-nos a isso. Assim, essa é uma relação de laços estreitos, que podem ganhar profundidade ou romperem-se, sem que ninguém fique desolado. A última classificação de amigo define o mais importante de todos, que, segundo Aristóteles, é o amigo (ou amizade) perfeito. Aqui, a amizade existe pela razão de serem amigos. Não precisa existir utilidade secundária ou somente o compartilhamento de prazeres. Nessa categoria dividimos dor, sofrimento, prazer, sonhos, fracassos, conquistas, inutilidades e o que mais ambos quiserem, da forma que melhor convir. É o nível mais elevado numa relação humana, a meu ver, no qual o que importa é a relação em si – Aristóteles ainda limita quais são os seres humanos que podem chegar a essa relação. Vale a leitura, para refletir.

Amigos. Fazem nossa vida valer mais.
Amigos. Fazem nossa vida valer mais.

Finalmente, chegamos no insistente. Bem, consideremos que qualquer pessoa que não seja amigo e nem colega, passa a ser um tipo de conhecido. Todos sabem (espero que saibam mesmo) que laços se rompem, muitas vezes. Talvez por não precisarem mais colaborar ou não ter mais diversão entre ambos ou por quaisquer outros motivos. Assim, amigos e antigos colegas (?!) “caem” à categoria de conhecidos. Mas não um conhecido qualquer, e sim alguém que te conhece até certo ponto. Acontece, contudo, que nada é tão simples. Como estamos falando de relações, a interpretação nem sempre é a mesma para todos os participantes. Convenhamos, há gente sem noção no mundo, bem como pessoas carentes, sujeitos com inteligência interpessoal subdesenvolvida e coisas do tipo. E é sobre esse “tipo” de pessoa que dedicarei algumas muitas linhas.

Sua cara ao notar que o "insistente" está no mesmo lugar que você.
Sua cara ao notar que o “insistente” está no mesmo lugar que você.

É muito comum, para quem está em mais de um círculo de convívio (grupo de pessoas comuns aos membros do mesmo grupo…) ter alguém que já chegou a ser amigo, ou um conhecido que se aproximou demais, mas que representa certo arrependimento. Aqui não falo de uma pessoa maldosa ou ruim, mas sim… não legal, não agradável, não necessária – 3 coisas que ela não consegue ser. Voltando ao fato de que relações são interpretadas distintamente por cada participante, é compreensível que o insistente nasça dessa situação. Mas então, por que o termo “insistente”? Ora, porque a criatura insiste. Insiste em achar que há uma grande amizade (ou mesmo que fosse pequena) entre vocês e que, devido a isso, você precisa da opinião dela para alguma coisa, em achar que te conhece bem e em achar que você gosta da companhia dela. Insiste em achar que são, deveras, amigos. Outrossim, achar que tem direito de ser invasiva, em apoderar-se de seus momentos e de forçar-se em sua vida. O insistente gosta de achar (sim, a repetição foi proposital, gente), pois não pensa que pode ser desagradável, desnecessário e abusivo. É aquele cara que surge na balada pra “entrar” na conversa e acaba com o assunto – e está aí algo que os insistentes têm pouco. Geralmente, falam de uma coisa só. É a guria que publica porcaria na linha do tempo e te marca, é a criatura infeliz que faz piada e a repete, até alguém rir por educação (ou por ficar sem paciência), é a encarnação do desgosto que, por não ter ou se importar com conhecimento, parece um remix de tédio. O insistente é aquele ser que não faz por mal, e você acaba por tolerar a existência dele, sem o mandar embora, seja por educação ou pela criatura ser algo de um amigo seu (parente, namorado(a), amigo mesmo…). Dessa forma, quando encontramos com uma criaturinha dessas, respiramos fundo, mas muito fundo (FUNDO MESMO!!!), porque sabemos, nas profundas trevas de nosso coração, que ela VAI nos encontrar.

Bem, caríssimos, penso que todos conhecem alguém assim. Caso não, então talvez seja um bom momento para se questionar sobre “quem sabe, sou eu um insistente”. Não é nenhum crime ser um desses. Só não é legal. Ademais, recomendo “Ética a Nicômaco”. c[_]

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